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Fernanda Santana
Publicado em 29 de março de 2026 às 18:34
Espremido entre dois bares, o número 500 do Porto da Barra, em Salvador, é um desafio em forma de casa. “Ela afronta a feiúra”, poetiza Bernardo Linhares, morador do único casarão centenário das redondezas que, quase dois séculos depois de construído, não virou loja, restaurante, boteco, hotel nem depósito. Muito menos uma máquina de morar. >
“Arquitetonicamente, é a primeira coisa que chama atenção. Ela é bela, tem adorno, tem grade, nada disso existe mais”, explica. “E depois ela desafia à feiúra pelas coisas que acontecem aqui”. >
De sextas a domingo, Bernardo recebe em casa amigos de uma vida — ou que conheceu na véspera. “Aqui é o nosso habitat”, brinca Edson Cruz, um dos frequentadores mais assíduos da casa 500. O anfitrião faz jus ao título. >
Até os mestres Marivaldo e Sérgio, que pintaram a fachada da casa no início deste ano, sabem disso: no intervalo do almoço, comeram de arroz de polvo, lagosta na manteiga e cordeiro, a petiscos típicos da Noruega (nacionalidade de um dos genros de Bernardo) . >
O morador aplica um mantra que tinge de extraordinário a rotina na casa laranja: “Nasci com um olhar para beleza”. >
No último verão, Bernardo perdeu as contas de quantas pessoas pararam curiosas diante do portão, ainda mais ao perceberem que alguém aparecia varanda com um convite: “Pode entrar". >
Além do dom para "a beleza", como ele diz, Bernardo também é escolado em "malucos" - os da vizinhança e os mais chegados. É o que salva a casa, sempre aberta a visitantes, de contratempos.>
“Isso é um pouco inspirador, não posso mentir”.>
A única ocorrência na casa foi a de uma mulher que invadiu a casa. Bernardo percebeu, enquanto ela corria com a televisão e o celular dele. >
"Tem medo de morar aqui?", pergunto. "Medo? Medo tenho é de sair daqui", ele ri.>
Dos 66 anos, Bernardo viveu 63 no casarão — os três primeiros de vida passou na Rua Barão de Itapoã, ao lado. Seus pais compraram a residência de dois andares em 1963, nas mãos dos Macedo Costa. >
O pai, um médico com três empregos, e a mãe, professora, desde então tinham o hábito de receber desconhecidos na casa. “Meu pai dava amostra grátis do trabalho, remédios, e minha mãe distribuía comida. Mas só para moradores de rua”, lembra.>
Na sala da casa, há cinco quadros na parede. Todos com imagens do Porto. Da gaveta de um aparador de madeira, ele retira mais pinturas do endereço, que Bernardo apelida de principado. >
"Ainda que sem príncipe. Mesmo com uma certa decadência. Ou excesso de frequência, melhor dizendo". >
Em qualquer foto antiga, ele busca encontrar sua casa. Ainda não conseguiu. Bernardo só sabe que a construção é do fim do século 19, mas também desconhece o tamanho. >
Aos poucos, ele assistiu os cinco irmãos irem embora. Já ele só saiu do número 500 do Porto uma vez, durante os 15 anos de casamento. Mas nunca de vez. Vendedor de peixes ornamentais, Bernardo manteve um aquário nos fundos da casa, onde trabalha até hoje. >
Se o imóvel não tivesse outros herdeiros, ele colocaria uma placa na entrada. “Não está à venda. Por dinheiro nenhum!”. >
A família deixou de contar quantas propostas de compra informais já receberam. Já na vizinhança, os investidores tiveram mais sorte. >
De cor, Bernardo lembra de lares que viraram bar — como a dos espanhóis, Ninita e Carvalho, donos de uma padaria — e das casas demolidas, como uma que virou farmácia.>
O entorno vive um boom imobiliário. “O problema é que não constrói mais coisa bela, é sempre um quadrado”, critica.>
Há quatro bens tombados na Barra pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), segundo a lista oficial do órgão. Só um deles é um casarão: o número 401, onde está sediada a Aliança Francesa. >
O restante são a Igreja Santo Antônio da Barra, o Farol da Barra) e o Forte Santa Maria, a poucos passos da casa de Bernardo.>
Ele até já pensou, provocado por amigos, em iniciar um processo de tombamento do imóvel. O problema é conseguir sair da Barra. Ainda pior de camiseta e calça jeans.>
Neste ponto da história, você já percebeu. "Virei um personagem do Porto da Barra", explica Bernardo para quem não notou. >
Além de personagem, virou "muso" de poesias e inspira o protagonista de um livro de ficção. A história se passa no Rio de Janeiro, e os personagens têm outros nomes.>
A sinopse, no entanto, é real: a de uma rotina em extinção entre morador e casa. "A casa não é uma máquina de morar. Ela é um lar", diz, em crítica ao conceito do arquiteto Le Corbusier, que propõe uma ideia de morar baseada apenas na funcionalidade. >
“Espero que essa casa seja, além da última, a eterna”, torce o morador e poeta. >
Hoje, são os netos dele quem também criam memórias pelos corredores do casarão, sacodindo as cristaleiras cheias de memórias, dos anos 60 e do verão passado.>
O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping. >