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No mês em que nos homenageiam, agradeço por ter um filho e não uma filha

Aproveito a oportunidade de educar um homem para que ele jamais seja o medo de uma colega, amiga ou companheira

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 7 de março de 2026 às 13:00

Eu não tinha qualquer predilação por menino ou menina
Eu não tinha qualquer predilação por menino ou menina Crédito: Acervo Pessoal

Quando eu soube que estava grávida, há 15 anos, não pedi nada além de saúde para aquele humano que começava a ser construído dentro da minha barriga. No sorteio aleatório da nossa genética miscigenada, não me importava se seria mais escuro ou mais claro, se teria cabelos lisos ou encaracolados, se olhos azuis, verdes, negros ou castanhos. Muito menos achava importante se seria alto ou baixinho, nem feio ou bonito. Também não tinha qualquer predileção por menino ou menina. Por fim, naquele consultório de ultrassonografia, recebi a notícia de que eu seria mãe de um homem. Comemorei com a mesma alegria e leveza que sentiria se aquele trocinho - que eu já achava tão lindo! - estivesse prestes a me transformar na mãe de uma mulher brasileira. É que eu quase não sabia.

Naquele momento, eu ainda não tinha a dimensão exata do amor de qualidade específica que nasce junto com um filho. Ou uma filha. A coisa que uma mãe funcional mais quer na vida é garantir que as pessoas paridas por ela estejam saudáveis, em segurança e felizes. Pode perguntar a qualquer uma. É para sempre e todos os dias. Claro, isso é impossível. Não temos o controle das marés, da chuva, da balança comercial, das guerras, do degelo das calotas polares nem de todos os outros infinitos elementos que fazem parte da construção da saúde, segurança e felicidade de nossos filhos. Mas todas nós gostaríamos de ter.

Tentando driblar essa impossibilidade, a gente faz o que pode. A gente ensina a respeitar para ser respeitado. A gente tenta ajudar no caminho e aponta saídas civilizadas para os primeiros conflitos. A gente observa para ver se estão aprendendo a se virar direitinho. A gente acha o mundo “mais perigoso do que nunca”, mas também controla a preocupação, porque toda criança e todo adolescente merece viver sem paranoias. A gente faz das tripas coração e convoca toda a sabedoria possível. A gente vira agente do FBI ensinando a não sentar de costas para a porta no restaurante, a guardar o celular, a não clicar em links suspeitos e a transitar com esperteza no Carnaval da Bahia. A gente ensina tudo o que sabe e o que não sabia, mas aprendeu só para poder ensinar aos nossos filhos. A gente pede a Deus que ilumine, mesmo duvidando que Ele exista.

Sim, educar uma pessoa é uma atividade intensa e de alto risco, que mexe com tudo aqui dentro. E será sempre, seja a pessoa um menino ou uma menina. Porém, existe uma fronteira que mães de meninos não precisam cruzar. Por mais que eu ensine o meu filho a se cuidar, o medo que sinto por ele é do mundo, dos acasos, da violência urbana, das curvas perigosas da vida. Se eu tivesse uma filha, esses medos seriam somados a outros muito específicos. Eu teria que ensiná-la, por exemplo, que grande parte da população mundial enxerga o corpo dela como espaço coletivo. E aí não há cerca, muro ou oração que dê conta de proteger um território que tanta gente acredita ter o direito de invadir, lotear e, por fim, destruir. Sim, pesa mais.

Mães de meninas vivem em um estado de alerta que não descansa nunca. Porque elas, assim como eu, sabem o que ser uma pessoa do sexo feminino significa. Essas mães tentam erguer castelos de autoestima e confiança em solo movediço, como naquela música que diz “não ter e ter que ter para dar”. Sabe lá? Elas repetem que as filhas podem ser o que quiserem porque é o certo, mas sabem o perigo que isso significa. Com o tempo, todas nós aprendemos que ao redor da nossa liberdade cantam aves de mau agouro. Toda mãe de menina sabe que a autonomia da filha termina onde começa a fúria de homens que produzimos, mas não conseguimos ainda, coletivamente, civilizar.

Eu poderia dar à minha filha o melhor mapa do mundo e, ainda assim, ela seria caçada nas trilhas que deveriam ser as mais seguras. Como sabemos, na maioria das vezes, a violência e a morte estão dentro das nossas casas, onde deveríamos poder descansar. Quando educam para as relações, as mães atentas de filhos homens se ocupam em lapidar o caráter e vigiar para que os tantos privilégios masculinos não os transformem em babacas. É um trabalho difícil, mas é bonito e de construção. Com filhas, o trabalho é de uma assustadora contenção de danos, de blindagem do que é, inevitavelmente, exposto à violência que vem de todo lado, principalmente de quem, muitas vezes, diz amar.

Não precisei ensinar ao meu filho como segurar as chaves entre os dedos ao andar em qualquer lugar. Não precisei explicar que um elogio na rua pode ser o prefácio de um estupro. Não preciso olhar para o corpo adolescente dele e calcular o risco que cada escolha de roupa impõe à sua sobrevivência. O corpo do meu filho pertence a ele. O corpo de uma menina é, desde o primeiro dia, objeto de debate público e zona de risco permanente. Entre tantas questões, estas. Apenas para começar.

Neste mês em que tanto se fala em mulheres, olho para as mães de meninas e sinto um afeto imenso. Sou um pouco irmã de cada uma delas que “não têm, mas têm que ter para dar”. Também me sinto um pouco tia dessas meninas que caminham distraídas sem ainda sequer imaginar. Por elas, por mim e por meu filho, aproveito a oportunidade de educar um homem para que ele jamais seja o medo de uma colega, amiga ou companheira. Trabalho para que esse rapaz, que daqui a pouco sai da barra da minha saia, nos honre por escolher ser, em vez de algoz, um dos nossos maiores aliados. É o que precisamos fazer. Nós, as mães que - por acaso biológico - podem mudar as coisas “do outro lado”.

Flavia Azevedo  (@flaviaazevedoalmeida) é articulista do Correio, editora e mãe de Leo