Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

A era das campanhas para ensinar homens a não matar mulheres precisa acabar

Com o Brasil batendo recorde de feminicídios, homens que agridem mulheres em qualquer nível precisam de menos conversa e mais repressão

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 28 de fevereiro de 2026 às 13:00

A a repressão precisa assumir o centro do palco.
A a repressão precisa assumir o centro do palco. Crédito: Flavia Azevedo

Paciência tem limite. A minha chegou lá. Espero que a sua também tenha chegado, porque precisamos avançar. Nas últimas décadas, explicamos aos homens que mulheres não são propriedade, que “não é não” e outros detalhes para uma relação saudável entre os sexos. Informamos, repetimos, discutimos em esfera pública e privada. Resultado que quem queria entender, teve muitas oportunidades e quem precisava ser alertado, já conhece a realidade dos fatos.

Mesmo assim, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, a violência masculina contra mulheres segue em alta e atingiu novo recorde. O Brasil registrou cerca de 1.470 casos de feminicídio em 2025, o maior número desde que o crime foi tipificado, em 2015, superando inclusive os dados de 2024. A média é de quatro mulheres assassinadas, em contexto doméstico, por dia, em território nacional.

Mobilização ocupou Salvador em protesto contra a violência de gênero por Arisson Marinho/CORREIO

Entre 2015 e 2025, mais de 13 mil mulheres foram mortas nesse tipo de crime. A maioria dos casos ocorre em estados como São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Bahia. Hoje, às vésperas do Dia da Mulher, 2026 já tem registros e denúncias suficientes para entendermos que o massacre tende a piorar.

Incrivelmente, pesquisas mostram que a ampla maioria dos homens brasileiros declara apoio às leis que punem esse tipo de crime. A Lei Maria da Penha, por exemplo, é apoiada por declarados 92% da população. Se dizem apoiar, é porque conhecem, confere? Então, cometer (ou acobertar) esse tipo de crime é escolha livre a racional.

(Quem me dera os homens “aliados” tivessem por agressores de mulheres o mesmo ódio que nutrem por quem por acaso riscar seus carros.)

Fato é que, em 2026, quem continua agredindo, ameaçando ou matando mulheres sabe que é criminoso. Portanto, deve ser tratado como tal. Precisamos retirar desses atos qualquer verniz cultural ou “explicação”. Bater, ameaçar ou matar mulheres é crime. Simples assim. O homem que faz isso não é um “desinformado” ou “vítima do patriarcado”. É apenas um bandido e ponto final.

Lindomar Castilho em 2012 por Divulgação

Observe que não fazemos campanhas para convencer assaltantes de que roubar é errado. Também não explicamos a sequestradores que não podem privar alguém de liberdade. Tampouco há esforço pedagógico para golpistas que aplicam fraudes digitais. Partimos do princípio de que eles sabem que estão violando a lei e, quando são pegos, pagam.

Porém, quando o assunto é violência masculina contra mulheres, ainda há quem trate o agressor como alguém que “não entendeu direito”. Como se ele fosse apenas um aluno atrasado em um curso de cidadania. Se você é mulher e isso não lhe irrita, me passe o nome do seu terapeuta ou do chá.

Campanhas tiveram seu papel. Foram importantes para encorajar denúncias, ampliar debates, informar direitos e traçar limites. Mas os números mostram que esse instrumento não traz mais resultados. Mesmo com políticas e campanhas em curso, a curva da violência masculina contra mulheres não caiu. Diante disso, a repressão precisa assumir o centro do palco.

Temos arcabouço legal. A tipificação do feminicídio como crime autônomo inclusive permite penas mais severas quando comprovadas as circunstâncias específicas. Há agravantes previstos em lei. O sistema jurídico dispõe de instrumentos para retirar agressores do convívio social. O que falta é priorizar.

Prevenção é importante, claro. Informação é necessária. Mas recursos de campanha precisam ser direcionados às mulheres, para que todas compreendam quando o “alecrim dourado” passar do primeiro limite traçado. Informação clara sobre direitos, canais de denúncia que funcionem, proteção rápida e efetiva. Tudo isso salva vidas.

Temos varas especializadas e delegacias de atendimento à mulher espalhadas pelo país. Há profissionais de segurança, magistrados e promotores empenhados. Há homens aliados e, sobretudo, há mulheres em todos esses espaços. O que precisamos agora é fortalecer essa estrutura, pedir prioridade e exigir que a repressão seja exemplar.

Por @flaviaazevedoalmeida