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Flavia Azevedo
Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 09:00
“É Carnaval e nessa idade é tudo putinha”. Foi o que os pais de C., de 14 anos, ouviram de um estranho ao saírem do circuito Barra-Ondina na noite de sexta-feira (13). O homem havia oferecido carona à menina; ao ser informado de que ela era menor de idade, respondeu com o insulto e agrediu fisicamente o pai da garota. O desfecho, porém, fugiu ao roteiro histórico de impunidade. Um pelotão da Polícia Militar conduziu o agressor à SERVVIR, unidade especializada da Polícia Civil montada estrategicamente para a folia. Dali, o homem seguiu para exame de corpo de delito e audiência de custódia, aguardando a justiça preso. >
A SERVVIR - Serviço Especializado de Respeito à Vítima, ao Idoso e às Questões de Racismo - funciona como uma delegacia móvel de alta complexidade. Instalada em pontos nevrálgicos dos circuitos, como a Barra e o Campo Grande, as unidades são parte da estratégia de segurança que mobiliza milhares de agentes para proteger grupos vulneráveis. Para quem viveu o tempo em que o assédio em festas de rua era tolerado como “excesso da festa”, acompanhar o fluxo de uma das unidades (a do Shopping Barra) foi um momento muito feliz!>
Na segunda noite de folia, pude ver como funciona o trabalho de inteligência na prática. Por volta das 21h40, um homem chegou à unidade detido em flagrante. Ele vinha apalpando mulheres na Barra, sem saber que era monitorado de perto por policiais infiltrados, disfarçados com fantasias de foliões. Essa modalidade de policiamento velado é uma das táticas mais eficazes da operação carnavalesca; os agentes circulam anonimamente na massa para identificar crimes que as câmeras nem sempre alcançam. Três mulheres hesitaram em denunciar, mas M., de 17 anos, não recuou. Cumpriu o rito legal, colaborou com a delegada Ana Cecília Soares Neves e seguiu para o seu Carnaval.>
A estrutura do posto vai além do Direito Penal. A equipe conta com psicólogos para acolhimento imediato, entendendo que a vítima de violência ou o idoso em situação de vulnerabilidade precisa de suporte emocional. A delegada Fernanda Maria Lacerda, uma das coordenadoras, define a unidade como um “lugar de referência da fragilidade”. Ela relata casos que exigem mediação social e diplomática, como o de um turista uruguaio idoso que, após um furto, viu-se desnorteado e sem recursos. A atuação da equipe ultrapassou o registro do boletim de ocorrência, envolvendo contatos com bancos estrangeiros e suporte logístico para evitar que o visitante ficasse à deriva.>
Um dado político chama a atenção: a ausência de filas quilométricas, apesar de a unidade estar a poucos metros de um circuito com milhões de pessoas. Para as delegadas, isso é o resultado do trabalho que vem sendo feito ao longo dos anos. Como parte dele, a atuação rigorosa da Polícia Civil, com pedidos de medidas protetivas e prisões por descumprimento da Lei Maria Penha, gera um efeito inibidor que deságua na festa. O agressor potencial agora entende que a estrutura de monitoramento - que inclui biometria, reconhecimento facial e inteligência em campo - tornou a conta do crime muito alta.>
O ambiente na SERVVIR mistura o rigor técnico da equipe chefiada pelas delegadas Ana Cecília e Fernanda com um acolhimento raro. Vi a turma lidar com a paciência necessária diante de uma turista extremamente incoveniente (polícia também sofre xenofobia, saiba) e o cuidado com um menor flagrado com entorpecentes. Entre a agressividade do estranho que abordou a família de C. e a competência das delegadas, o Carnaval de Salvador desenha um cinturão de proteção. Concluo que maior festa de rua do mundo aprendeu a olhar para todos e que, finalmente, o tempo em que abusar de mulheres era considerado um “direito engraçadinho” de todo folião parece estar mesmo com os dias contados.>
O projeto Correio Folia é uma realização do Jornal Correio com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador>
Por @flaviaazevedoalmeida>