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Flavia Azevedo
Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 22:10
Você provavelmente já passou por isso: o cansaço acumulado de meses de trabalho exige uma pausa, mas a ideia de se afastar por duas ou três semanas gera um frio na barriga que nem é de empolgação. O medo de encontrar uma caixa de entrada com quatro dígitos de e-mails não lidos ou de perder decisões cruciais em projetos importantes tornou-se um impeditivo real para o descanso tradicional. É nesse cenário de hiperconectividade e agendas sufocantes que surge um novo fenômeno: as microférias (ou microcations). Mais do que uma simples "fugidinha" de fim de semana, essa modalidade está redefinindo como o trabalhador moderno entende o lazer e a recuperação mental. >
O que são, exatamente, as microférias?>
O termo tem uma definição técnica aceita por gigantes do setor, como a Allianz Partners USA: trata-se de uma viagem de lazer para um destino a mais de 160 quilômetros (100 milhas) de casa, com duração de quatro noites ou menos.>
Essa estrutura rompe com o modelo clássico de veraneio das décadas passadas, que geralmente começava em sete dias e focava exclusivamente no ócio absoluto. As microférias são, por natureza, itinerários intensos. Nelas, o viajante busca maximizar cada minuto longe da mesa de trabalho, seja através de imersões culturais, visitas a sítios históricos ou exploração de novas gastronomias. Essencialmente, é a arte de condensar o máximo de experiências significativas no menor tempo possível.>
Passeios de bate e volta imperdíveis saindo de Salvador
A origem do termo e o "boom" >
O conceito de microcation ganhou notoriedade global especialmente durante e após a pandemia de COVID-19. Com as restrições de deslocamento e a incerteza econômica, os viajantes começaram a priorizar pausas mais curtas e frequentes. Além disso, o fenômeno da "Revenge Travel" (viagem de revanche) - o desejo urgente de ver o mundo após anos de confinamento - encontrou nas microférias a válvula de escape ideal, já que elas permitem visitar múltiplos destinos em um único ano, em vez de apostar todas as fichas (e o orçamento) em uma única viagem longa.>
Os números confirmam que não se trata de um modismo passageiro. Um estudo de 2023 revelou que 64% dos viajantes planejavam que sua próxima viagem fosse do tipo microférias. Outra pesquisa indicou que quase 75% das pessoas agora optam por roteiros de até quatro dias.>
Quais desses lugares você conhece?
Millennials e Geração X: os protagonistas do movimento>
Se você sente que as microférias foram feitas para você, as estatísticas explicam o porquê. Os millennials são os maiores entusiastas dessa tendência, com 72% deles tendo realizado ao menos uma micro-viagem recentemente. Logo atrás vem a Geração X, com 69%, e até mesmo os Baby Boomers - pessoas de até 79 anos -, com 60%. >
Neste momento em que frequentemente lidamos com modelos de trabalho híbrido ou remoto, a flexibilidade de transformar um fim de semana comum em uma jornada significativa é um atrativo irresistível. Além disso, ausentar-se por períodos curtos ajuda o profissional a "ficar bem na fita" com a chefia, já que o impacto na operação da empresa é minimizado.>
A psicologia por trás do descanso curto>
Pode parecer contra-intuitivo, mas passar menos tempo de férias pode ser mais benéfico para o cérebro do que um longo período de inatividade. Estudos sugerem que pausas curtas e frequentes são extremamente eficazes para reduzir o estresse e aumentar a produtividade.>
Essas escapadas funcionam como "injeções de bem-estar", permitindo que o indivíduo desacelere e reflita sem o desgaste logístico e o planejamento exaustivo que uma viagem internacional de um mês exigiria, por exemplo. O foco aqui é o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, utilizando o lazer como um botão de "reset" emocional que pode ser apertado muitas vezes.>
Economia e estratégia>
Do ponto de vista financeiro, as microférias são muito mais palatáveis. É mais fácil para o orçamento familiar absorver vários gastos pequenos ao longo do ano do que um desembolso massivo de uma só vez.>
Outro truque estratégico dos microcationers é o uso inteligente do calendário: ao integrar o fim de semana à viagem (saindo na quinta e voltando na segunda, por exemplo), uma jornada de quatro dias consome apenas dois dias de férias regulamentares. Isso permite que o viajante "economize" seus dias de folga para realizar mais viagens ao longo dos 12 meses.>
Como planejar microférias perfeitas>
Para que uma viagem de 96 horas não se torne uma maratona estressante, a regra de ouro é a preparação antecipada. Como o tempo é escasso, o viajante deve:>
• Priorizar a localização: Hospedar-se em áreas centrais com boas conexões de transporte é vital para não perder tempo em deslocamentos inúteis.>
• Viajar leve: O uso de malas de mão (carry-on) é recomendado para garantir agilidade em aeroportos e estações.>
• Agendar o essencial: Reservar restaurantes e tours com antecedência evita filas que poderiam consumir metade de um dia de viagem.>
• Manter o foco local: Não faz sentido gastar 25% do tempo total de folga dentro de um avião; por isso, destinos "perto de casa" são os favoritos.>
O “microcationer” na Bahia>
A Bahia tem uma extensão litorânea de 1.183 km e mais de 400 municípios repletos de diversidade histórica e natural. Essa proximidade geográfica permite que o morador de Salvador pratique o turismo regional, fortalecendo a economia de cidades menores e descobrindo refúgios sem precisar de grandes deslocamentos. Seja em um retiro à beira-mar ou em uma imersão cultural em cidades históricas próximas, o estado oferece o cenário ideal para quem deseja adotar essa filosofia de que viajar não precisa ser complexo para ser transformador.>