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Flavia Azevedo
Publicado em 13 de janeiro de 2026 às 00:02
Longe de ser uma exceção ou um comportamento restrito ao cativeiro, a interação sexual entre indivíduos do mesmo sexo é uma parte integrante e "normal" da vida social de diversos primatas. Um novo estudo, publicado na revista Nature Ecology and Evolution, revela que essas práticas desempenham um papel evolutivo crucial, ajudando macacos e grandes símios a gerenciar conflitos e fortalecer alianças estratégicas em ambientes desafiadores. >
A análise, que abrangeu quase 500 espécies, sugere que o comportamento sexual entre animais do mesmo sexo — que inclui desde montas e toques genitais até sexo oral — pode ser uma resposta adaptativa a pressões externas, como a presença de predadores e a escassez de recursos.>
Fortalecendo alianças para o sucesso reprodutivo>
Uma das descobertas mais fascinantes da pesquisa é que o comportamento homossexual pode, na verdade, impulsionar o sucesso reprodutivo a longo prazo. O biólogo evolucionista Vincent Savolainen, do Imperial College London, observou esse fenômeno em uma colônia de macacos rhesus em Porto Rico.>
Segundo o pesquisador, os machos que mantêm interações sexuais entre si tendem a criar laços mais fortes: "Eles lutam juntos, têm relações sexuais juntos e, talvez mais tarde na vida, tenham acesso a mais fêmeas" através dessas alianças. Em suma, o sexo entre indivíduos do mesmo sexo ajuda a construir a confiança necessária para que o grupo se proteja e suba na hierarquia social.>
O peso do ambiente e da hierarquia>
O estudo identificou que a prevalência dessas interações não é uniforme, sendo influenciada por fatores ambientais e sociais específicos. O comportamento foi observado com maior frequência em:>
• Ambientes áridos: Onde a cooperação é vital para encontrar recursos escassos.>
• Áreas com alta predação: Locais onde a sobrevivência depende de alianças sólidas para defesa mútua.>
• Grupos hierárquicos: Espécies onde os indivíduos precisam "escalar" a pirâmide social para obter chances de reprodução.>
Além disso, a prática é mais comum em espécies com vida longa e naquelas que apresentam grande dimorfismo sexual (diferença marcante de tamanho entre machos e fêmeas).>
Fim do mito do "comportamento acidental">
Por muito tempo, a ciência tendeu a ver o comportamento sexual entre o mesmo sexo em animais como um erro, uma raridade ou um subproduto do estresse em zoológicos. No entanto, a nova pesquisa refuta essa visão. Embora existam debates sobre se essas práticas são "acidentes" biológicos ou adaptações evolutivas puras, os dados mostram que elas são recorrentes na natureza.>
Das 491 espécies pesquisadas, foram encontrados registros de interações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo em 59 delas, com evidências de comportamento recorrente em pelo menos 23 espécies. Para os especialistas, entender essas dinâmicas é fundamental para compreender a complexidade da vida social dos primatas e a própria evolução do comportamento social.>
Esta matéria foi elaborada com base em informações publicadas originalmente na revista científica Nature, no artigo "Same-sex sexual behaviour can help primates to survive — and reproduce", de autoria de Ewen Callaway.>
Por @flaviazevedoalmeida>