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Flavia Azevedo
Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 22:57
Se você é um caça prestígio que vive tentando cavar uma vaga na lista de convidados das festas mais exclusivas de Salvador, a partir de hoje tem um problema. Venho lhe informar que o verdadeiro epicentro do que há de mais reservado e autêntico na cidade atende pelo nome de Edifício Oceania, aquele gigante inaugurado em 1943 que vigia o Farol da Barra. É lá, entre as paredes históricas e o som do mar, que Wagner Moura realiza seus petit comitês a cada verão. Acontece que são eventos fechadíssimos, onde fotografar é terminantemente proibido (que dirá filmar e postar do Instagram) e a ostentação dá lugar à amizade real. Para entrar ali, não há dinheiro que pague nem “influência” que dê jeito. “Basta” ser amigo de uma vida inteira ou mais recente, porém de verdade. >
Quando o próprio Wagner não está na cidade, é a sua companheira de vida, a fotógrafa Sandra Delgado, quem recebe a galera e segura a tradição. Esse ambiente dá boas pistas de quem é homem por trás do Globo de Ouro: um baiano que, apesar de transitar pelos tapetes vermelhos mais caros do planeta, ainda encontra sua gravidade no calor da Bahia e no grito de torcida pelo Vitória, tricolores gostando disso ou não.>
Wagner Moura e a esposa, Sandra Delgado
Sertão submerso>
A trajetória de Wagner Maniçoba de Moura (sim, Maniçoba) começa em um lugar que não existe mais. Rodelas, no sertão baiano, foi apagada do mapa pela construção da Usina Hidrelétrica de Itaparica, no início dos anos 1980. O deslocamento forçado da população marcou profundamente uma geração inteira e Wagner, então com 11 anos, estava lá.>
Há um registro audiovisual, da época, em que o futuro ator aparece dando entrevista durante a mudança, tentando nomear a estranheza de deixar para trás o lugar onde jogava bola, corria descalço e brincava de se esconder. Anos depois, ele voltaria a esse episódio em entrevistas, descrevendo a sensação de desenraizamento como um trauma fundador.>
A Nova Rodelas, planejada e reconstruída, nunca substituiu totalmente a cidade submersa na memória. Wagner já declarou ter receio de voltar hoje à região justamente para não sobrepor a lembrança da infância à realidade concreta do lugar. Para ele, essa perda territorial não é apenas um dado biográfico, mas um elemento estruturante da sua identidade.>
No CORREIO >
Antes de ser Capitão Nascimento, Pablo Escobar ou agora um premiado no Globo de Ouro, Wagner Moura foi estudante de Jornalismo da UFBA. E, no fim dos anos 1990, foi também colega de redação aqui do Jornal Correio, quando o caderno de cultura ainda atendia pelo nome de Folha da Bahia.>
Na época, era responsável pelo roteiro cultural, uma função que exige atenção, método e repertório. Quem conviveu com Wagner naquele período costuma lembrar de um jovem tímido e concentrado que em nada anunciava a figura pública que viraria anos depois.>
Veja Wagner Moura em edições antigas do CORREIO
O interesse pelo cinema, no entanto, já estava ali. Seu trabalho de conclusão de curso resultou no curta-metragem Placebo (1999), codirigido com Mateus Ribeiro e filmado quase integralmente no Teatro Vila Velha. A obra adaptava um conto de Rubem Fonseca e acompanhava um homem às voltas com uma doença degenerativa.>
Primeiros palcos>
Bem antes do cinema e da televisão, foi no teatro que Wagner Moura se construiu como ator. Em 1997, aos 21 anos, foi indicado como Ator Revelação no Prêmio Braskem (hoje Prêmio Bahia Aplaude) por A Casa de Eros, sob direção de José Possi Neto.>
O reconhecimento local ganhou escala com a comédia policial Abismo de Rosas, dirigida por Fernando Guerreiro. O espetáculo tornou-se um fenômeno de público, lotando teatros como o Acbeu e o Módulo, além de circular por cidades do interior baiano como Itabuna, Jequié, Alagoinhas e Feira de Santana. Em 1999, a peça foi selecionada pela Funarte para uma turnê nacional, ampliando a projeção do elenco.>
Já nos anos 2000, consolidou sua projeção nacional com A Máquina, espetáculo que dividiu com amigos de longa data e também baianos, como Lázaro Ramos e Vladimir Brichta.>
Televisão>
Wagner tomou contato com o público nacional também por meio da televisão, onde construiu uma trajetória significativa antes de se tornar um nome global. Sua estreia na TV aconteceu no início dos anos 2000, com participações em episódios da série Carga Pesada (TV Globo), e logo depois integrou o elenco de outras produções da emissora como JK (2006). O papel que mais o projetou no meio televisivo brasileiro veio em 2007, como o ambicioso vilão Olavo Novaes Ribeiro na novela Paraíso Tropical (TV Globo), escrita por Gilberto Braga e Ricardo Linhares. Esse personagem marcou sua transição ao grande público. Internacionalmente, ele alcançou notoriedade ao interpretar Pablo Escobar na série Narcos (Netflix).>
Voz política e “lado B”>
Wagner Moura nunca separou totalmente arte e política. Em setembro de 2025, durante a estreia da peça Um Julgamento em Salvador, fez críticas públicas à falta de políticas estruturantes para a cultura na Bahia, apontando desgaste da classe artística, precarização do trabalho e abandono do patrimônio teatral.>
Ao comparar o cenário atual com a efervescência cultural da década de 1990, Wagner reconheceu que “esse período de alta aconteceu durante o governo de ACM”, verbalizou uma angústia compartilhada por muitos profissionais do setor e se tornou uma das vozes mais audíveis na cobrança por investimentos públicos na área cultural da Bahia.>
Esse espírito inquieto também se manifestou na música. No fim dos anos 1990, ele conciliava o teatro com pocket shows em Salvador, experiência que desembocaria na banda Sua Mãe, um projeto assumidamente brega-rock, onde explorava repertórios populares sem medo do ridículo ou da caricatura. >
Olhar autoral >
A estreia de Wagner Moura na direção veio com Marighella, baseado no livro de Mário Magalhães. O projeto contou com a colaboração direta de Maria Marighella, neta do personagem principal, e enfrentou um percurso turbulento até chegar ao público.>
O filme consolidou sua autoridade também atrás das câmeras e foi determinante para que Wagner fosse convidado a integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, instituição responsável pela votação do Oscar, da qual faz parte desde 2021.>
A consagração internacional definitiva, no entanto, veio na madrugada desta segunda-feira (12), com a vitória no Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme de Drama por O Agente Secreto. No longa de Kleber Mendonça Filho - projeto discutido informalmente durante uma visita do diretor ao apartamento do Oceania, em 2022 - Wagner interpreta Marcelo, um professor perseguido pelo Estado em 1977, durante o regime militar.>
A atuação, descrita pela crítica internacional como “magnética”, já havia rendido a ele o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes, tornando Wagner o primeiro brasileiro a conquistar a láurea.>
Projeção internacional>
A estreia em Hollywood aconteceu com Elysium (2013), ficção na qual interpretou Spider e fez questão de exibir em cena uma tatuagem da bandeira brasileira, detalhe que virou anedota nos bastidores após o colega de cena Matt Damon confundi-la com um hambúrguer.>
O reconhecimento global se intensificou com Narcos, série da Netflix que lhe rendeu indicação ao Globo de Ouro em 2016 pelo papel de Pablo Escobar. Vieram ainda o filme Sergio, sobre o diplomata Sérgio Vieira de Mello, e a série Ladrões de Drogas (Apple TV+), pela qual foi cotado ao Emmy 2025.>
Atualmente, Wagner prepara sua estreia na direção de um filme em língua inglesa, ampliando ainda mais a atuação no mercado internacional.>
Repercussão do Globo de Ouro>
A repercussão internacional do Globo de Ouro ecoou em alguns dos principais veículos de mídia do mundo. A Variety, uma das vozes mais influentes do jornalismo de entretenimento global, destacou Moura como o primeiro brasileiro a vencer o prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama na história da cerimônia. O britânico The Guardian incluiu sua vitória entre os momentos mais marcantes da noite, refletindo o reconhecimento além dos limites dos Estados Unidos. Na imprensa norte-americana, jornais como The New York Times e The Washington Post analisaram a vitória de Moura não apenas como um feito individual, mas como parte de um movimento mais amplo de valorização do cinema brasileiro no cenário internacional. >
Oscar>
O Agente Secreto mantém expectativas elevadas para o Oscar 2026 que terá anúncio oficial dos indicados no próximo dia 22. Analistas e plataformas de previsão destacam o filme entre potenciais nomeados, embora ainda sem confirmação oficial da indicação, e sites especializados como o Gold Derby apontam fortes probabilidades em categorias como Melhor Filme Internacional, sustentadas pelo desempenho crítico e nas premiações da temporada. >
Família>
Em meio a estatuetas e tapetes vermelhos, a vida familiar segue protegida. Wagner mora em Los Angeles e é casado com Sandra Delgado desde 2001. Do romance que começou em um Carnaval de Salvador nasceram Bem (19), Salvador (16) e José (15). Quando a família está na Bahia, o apartamento no Oceania é o ninho onde amizade, memória e privacidade importam mais do que qualquer status. Um lembrete concreto de que o sucesso mundial, por mais estrondoso, é apenas um capítulo - e não o eixo - da história de quem nunca esqueceu de onde veio.>