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Enquanto Ivete é denunciada por "chupar pescoço", O Kanalha embala o Oscar com a “cabeça da chibata”

Entre “fuleragens”, moralismos e odes à macheza, quem decide o que é “impróprio” ou “adequado” no Carnaval da Bahia?

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 7 de fevereiro de 2026 às 13:00

Ivete Sangalo
Ivete Sangalo Crédito: Reprodução

O conteúdo do verão em Salvador nunca foi para amadores. Neste ano, até demorou, mas não falhou, e a primeira questão está aí pra quem quiser estudar. De um lado, temos Ivete Sangalo enfrentando uma denúncia feita ao Ministério Público da Bahia por ter convidado uma criança ao palco para dançar seu novo hit, "Vampirinha". O argumento é de que a letra tem "conteúdo impróprio". Do outro lado, Danrlei Orrico (O Kanalha) vê sua música "O Baiano tem o molho" ser alçada a hino da identidade baiana, embalando a campanha de Wagner Moura rumo ao Oscar. Situação fascinante, não é? Eu acho.

Observe que o "molho" de um é “poesia regional”, enquanto a "fuleragem" da outra é vista como “atentado aos bons costumes”. Ivete, em sua composição, brinca com o lúdico do Carnaval: "é noite de lua cheia e as vampiras tão solta, com um toquinho de roupa descendo com o dedo na boca". É uma letra boba, uma estética que remete ao "Conde Draculino", de Durval Lelys, onde a maior transgressão é prometer "chupar seu pescoço". Já O Kanalha, em sua “exaltação à baianidade", é explícito e anatômico: "nós já nasce com a pimenta na cabeça da chibata", ele diz. Para essa frase (e todo o resto da letra), não há interpretação alternativa possível. Se eu fosse ingênua, estaria até agora sem entender por que a “chibata” dele é celebrada e o “pescoço” dela é alvo de denúncia.

Ivete Sangalo se apresenta no FV 2026 por Lucas Leawry/Divulgação

A gente não sabe quem denunciou, mas pode mapear o perfil porque a motivação está explícita. Ivete é uma mulher de 53 anos que brinca com a própria sensualidade. Ela não envelheceu “intelectual”, “política” ou “profunda”. Ela apenas seguiu fazendo música de Carnaval, que é o que ela sabe fazer. Ela lançou uma música superficial e fácil de “grudar”, que é o que todos fazem nessa época do ano. Ela usou o recurso do “duplo sentido” - que não tem nada de novo -, dando um jeito de flertar com a sensualidade e, ao mesmo tempo, não mergulhar na baixaria explícita. Pois, diante de “Vampirinha”, muita gente correu pra dizer que ela "desce a ladeira" para se manter em alta e que, neste ano, ela está “pornográfica”. Evidentemente, há muito mais conteúdo nesses comentários e, claro, na denúncia que, para nós, permanece no anonimato.

Ivete é uma mulher poderosa e independente que decide abraçar o pagodão e dançar com a nova geração. Ao se vestir de vampirinha e clamar por "fuleragem", Ivete subverte a expectativa do que uma mulher da sua idade “deveria” estar fazendo. Para “piorar”, depois de 16 anos de casamento, a cantora se separou e reapareceu renovada. Está linda, gostosa e pregando que "merece ser feliz". Para uma parte significativa das pessoas, ver uma mulher recém-divorciada esbanjando alegria é uma afronta. O mundo digere melhor mulheres que sofrem quando “perdem” um macho.

Enquanto isso, observe que O Kanalha exalta a própria “chibata”, é explícito, se conecta com a sexualidade mais mundana e carnavalesca e, ao mesmo tempo, dedica prêmios à memória de Preta Gil. Sem julgamentos ou denúncias, ele segue elogiado por sua sensibilidade. Ou seja, enquanto mulheres precisam “escolher” um lugar e performar determinada “coerência”, homens podem ser "fofos" e "canalhas", simultaneamente, sem que seja cobrada uma “postura adequada”. Você sabe disso tudo, porque não é novidade.

As coisas ficam ainda mais claras quando vemos a música da “chibata” de Kanalha ser associada ao filme "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, e viralizar nas mãos de nomes como Wagner Moura, que faz o passo da "batedeira" - aquele chacoalhar pélvico acelerado -, inclusive em pré-estreia do filme em Salvador, diante das câmeras e com a bênção da elite cultural baiana. Todo mundo viu e… gostou. Além disso, a “chibata” é objeto de respeito e estudo sobre vivências periféricas. Já a música de Ivete é tratada como "pobreza fonográfica" por “especialistas” que parecem ter esquecido que a axé music sempre foi, também, feita de malícia, trocadilhos e muita (muita!) “fuleragem”.

Foto Divulgação O Kanalha por matheus caratt fotografia

A verdade é que o “molho baiano”, essa "malemolência que transborda", tem permissividade total quando o emissor é masculino. No discurso de quem observa O Kanalha, a música é sobre "trazer protagonismo para o baiano". No de Ivete, a tentativa de se conectar com as tendências do verão é lida como um "abismo de mau gosto", transformando ela mesma, a cantora, em alguém de quem, agora, as crianças devem ser afastadas. Por coerência, então, sinto informar que precisaremos cancelar o Carnaval. O deste ano, os futuros e também os passados. Ou, durante os dias de folia, trancar todas as crianças em casa.

Conforme sabemos, você gostando ou não, a Bahia sempre teve o "joga ela no meio, mete em cima, mete embaixo". Mais recentemente, chegou o tal “pagodão”, que está aí assinando contratos e tocando pra geral, inclusive em espaços públicos frequentados por crianças de todas as idades. A questão é que agora, além de tudo que se refere à vida pessoal de Ivete, temos uma mulher no topo da cadeia “alimentar” da indústria fonográfica, botando o dinheiro no bolso dela e reivindicando o direito ao mesmo "molho" que os homens sempre exibiram sem ressalvas. Ou seja, é disputa de território. Mercadológico e simbólico, saiba.

Ivete é uma mulher madura dizendo “vou te chupar”, acompanhada por uma super banda, num ambiente em que todos estão acostumados a homens gritando “senta” - e outras "instruções" sexuais - em microfones mal ajustados. Pronto, esses detalhes terminam de explicar tanto a denúncia quanto o apavoramento “da sociedade”.

O que eu sei é que, enquanto o processo tramita sob sigilo, Ivete continua lotando shows e ficando cada vez mais bilionária. O público já garantiu milhões de streams no Spotify, provando que o povo não tá nem aí para os paladinos da moral. De minha parte, sigo observando esse teatro, cada vez mais fascinada pela minha terra e suas excentricidades. Ah, e ensaiando a coreografia, claro. Inclusive, aproveito pra declarar que, por tudo isso - e pelo suingue sensacional -, “Vampirinha” já é minha música preferida deste Carnaval.

(Por fim, registro que não tenho nada contra o artista da "chibata" apimentada.)