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Gabriela Cruz
Publicado em 4 de fevereiro de 2026 às 18:39
O tempo não é só calendário. É postura. É a forma como a gente escolhe atravessar os dias, com pressa ou com intenção, com medo do depois ou com desejo de continuidade. Em 2026, esse debate ganha força porque o mundo parece pedir duas coisas em paralelo: rapidez e profundidade. É nesse conflito que a arte se reafirma como necessidade. Ela não “pausa” o tempo, mas ensina a habitá-lo melhor, com mais repertório, mais presença e mais leitura de camadas.>
De tudo que eu vejo
NOLT vem de New Old Lifestyle Trend e nomeia uma ruptura silenciosa: o fim da ideia de que o tempo apaga pessoas. O conceito surge como reação a uma sociedade que, por muito tempo, tratou o envelhecimento como perda de função, empurrando quem passa dos 60 para um lugar de invisibilidade simbólica.>
Nesse imaginário ultrapassado, maturidade significaria recuo. Como se pessoas mais velhas deixassem de ser capazes de criar, aprender, desejar ou projetar futuros. O NOLT desmonta essa lógica ao afirmar o contrário: seguir vivo é seguir em movimento.>
O que se vê hoje é uma evolução natural de quem continua interessado pela vida, gente que acumula experiência sem abrir mão da curiosidade, que transforma tempo em repertório e maturidade em potência. Não se trata de negar a idade, mas de ocupar o presente com consciência, autonomia e intenção. Mais do que tendência, o NOLT expressa uma mudança cultural: envelhecer não é desaparecer. É aprofundar.>
Salvador vive um recorte raro e precioso: três exposições em cartaz, todas protagonizadas por artistas com mais de 60 anos e atravessadas por décadas de trabalho. No Museu de Arte da Bahia, Beatriz Milhazes apresenta 100 Sóis, sua primeira individual na cidade, em exibição até 26 de abril, com curadoria de Tiago Mesquita. >
No Museu de Arte Contemporânea da Bahia, Vik Muniz segue com A Olho Nu até 29 de março, sob curadoria de Daniel Rangel. >
E no Museu de Arte Moderna da Bahia, o baiano Alberto Pitta, presidente do Cortejo Afro, apresenta Alafiou, individual em cartaz até 22 de fevereiro, também com curadoria de Rangel. O dado que atravessa as três mostras é quase pedagógico: não existe arte madura sem tempo vivido. A gente aprende a apreciar melhor quando também aprende a durar.>
O mercado de arte entra em 2026 se reorganizando. O circuito fica mais diverso e descentralizado, com polos ganhando força fora do eixo tradicional: Doha se consolida como atração de estrelas e instituições, Abu Dhabi amplia sua rede de museus, Paris se fortalece, e Milão atrai um perfil novo de compradores. Ao mesmo tempo, pintura e materialidade voltam ao foco: cresce o interesse por técnicas tradicionais, textura e processos manuais, como se o público quisesse ver a presença humana na obra. A Street Art entra de vez nas feiras e coleções e o segmento intermediário cresce, com preços mais equilibrados e menos espuma especulativa.>
As bienais seguem como bússolas do debate contemporâneo. A Bienal de Sydney (14 de março a 14 de junho), a Whitney Biennial (8 de março até agosto), a Berlin Biennale (14 de junho a 14 de setembro) e a Bienal de Veneza (9 de maio a 22 de novembro) são as âncoras mais óbvias, mas o mapa se expande com Malta Biennale (11 de março a 29 de maio), Mardin Biennial (15 de maio a 21 de junho), Busan Biennale (5 de setembro a 15 de novembro), Toronto Biennial of Art (setembro a dezembro), Jaou Tunis (14 de outubro a 15 de novembro) e Lagos Biennial (17 de outubro a 18 de dezembro). No conjunto, elas mostram que o centro do mundo artístico não é fixo, ele se desloca, como o próprio tempo.>
Para quem gosta de arquitetura e design, o primeiro semestre no Brasil já começa cheio e tem São Paulo como eixo. Em março, a cidade vira evento com a DW! Semana de Design. Em abril, a SP–Arte (8 a 12) ganha mais um ciclo, movimentando o setor. Para fechar o calendário, a edição paulista da CASACOR segue como grande referência em decoração, arquitetura e paisagismo, acontecendo de 2 de junho a 9 de agosto.>
2026 foi declarado Ano da Criatividade pela World Creativity Organization, com o Brasil sediando esse ciclo. Em um cenário global de transformação acelerada, a iniciativa coloca a criatividade como ativo de desenvolvimento econômico, social e cultural, conectando inovação, educação, negócios e impacto. No fundo, é um recado sobre futuro: não dá para projetar amanhã sem imaginação, método e repertório.>