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Flavia Azevedo
Publicado em 24 de janeiro de 2026 às 13:00
Você entregaria sua vida a um médico que foi reprovado em um teste básico de conhecimento? Pois isso já pode ter acontecido sem que você percebesse. Também é exatamente isso o que pode estar acontecendo agora no pronto-socorro de renome onde você leva seu filho. O Brasil vive uma explosão na quantidade de médicos, o que poderia ser excelente notícia, porém não é. Hoje, o país é o segundo maior formador de médicos do mundo, atrás apenas da Índia, que tem seis vezes mais habitantes que nós. A projeção indica que chegaremos a 653.945 médicos ativos até o final de 2026, um crescimento oito vezes mais rápido que o da própria população nas últimas três décadas. O problema é que, na prática, esse “boom” tem efeitos trágicos. >
Na última década, 266 faculdades de medicina foram abertas, muitas delas com mensalidades que chegam a R$ 16 mil, mas sem o principal: um hospital para o aluno aprender na prática. O resultado disso apareceu com o Enamed. No novo exame do MEC, cerca de 13 mil médicos brasileiros recém-formados não atingiram a pontuação mínima exigida. Isso significa que três em cada dez “doutores” estão saindo da faculdade sem dominar o básico para exercer a profissão. Pela legislação atual, todos recebem registros e podem atender você sem qualquer restrição.>
Na Bahia, a situação é crítica. Doze cursos no nosso estado foram avaliados com conceitos 1 e 2 pelo Enamed, notas que o MEC classifica como insatisfatórias. A lista inclui instituições como o Centro Universitário Zarns (Salvador), a Unime (Lauro de Freitas) e até a federal UFSB (Teixeira de Freitas). Quando até uma universidade pública federal falha na formação, fica claro que o colapso do sistema não tem a ver apenas com universidades pagas voltadas a um público de elite. O cenário é grave e os reflexos já são sentidos na ponta do sistema.>
Confira as mensalidades dos cursos de Medicina em Salvador e na RMS em 2026
Estima-se que, atualmente, no Brasil, seis pessoas morram por hora em hospitais por falhas que poderiam ser evitadas, e 30% desses casos são erro humano direto. Não parece coincidência que – junto com a proliferação de faculdades – os processos por erro médico tenham saltado 506% no país, segundo o Conselho Nacional de Justiça. Na Bahia, inclusive, o STJ confirmou em 2025 uma indenização recorde de R$ 3,5 milhões para uma paciente que ficou paraplégica após um erro em um parto.>
Desesperador, não é? O que podemos fazer coletivamente? Primeiro e imediatamente, pressionar a Câmara dos Deputados pela aprovação do Projeto de Lei nº 2.294/2024, que propõe a criação do ProfiMed (a “OAB dos médicos”), um exame de proficiência nacional. A ideia é simples: o diploma prova que você frequentou a aula, mas o exame prova que você aprendeu a trabalhar. A Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) defendem que essa é a única barreira para impedir que instituições de baixa qualidade coloquem profissionais despreparados no mercado.>
Mas há outras armadilhas, mesmo quando eles se formam com aproveitamento adequado. Uma delas é a falsa especialização. Quase metade dos médicos no Brasil é generalista, mas muitos buscam "atalhos" em pós-graduações de fim de semana para se anunciarem como especialistas. O perigo aqui é que esses cursos não garantem o Registro de Qualificação de Especialista (RQE) e atuar em áreas complexas sem a residência tradicional – que é o padrão-ouro de treinamento – é uma irresponsabilidade que também pode matar. Supostos especialistas sem RQE são vistos com frequência enriquecendo como “médicos das estrelas”, sempre com abordagens “milagrosas” e “revolucionárias”.>
Ou seja, é o caos. Para sobreviver com o mínimo de sequelas, a gente precisa de informação e estratégia. Por exemplo, ao escolher médicos mais velhos, formados antes do "boom" de novas universidades, você tem mais chances de ser cuidado por alguém formado em uma instituição mais estruturada. Além disso, antes de marcar qualquer consulta, vale checar o CRM do “doutor”.>
Se for especialista, exija o número do RQE e cheque também. Se o médico se diz cardiologista, pediatra ou dermatologista, por exemplo, ele tem a obrigação de ter esse registro; caso contrário, ele está exercendo a especialidade de forma irregular. Nas consultas, pergunte, questione, pesquise. É seu direito entender o que será feito em seu corpo. Fora isso, o óbvio: desconfie de médicos famosos que prometem milagres. Na medicina séria, a autoridade vem do estudo rigoroso e não de curtidas e fotos com celebridades.>
Enquanto a lei da "OAB dos médicos" não é sancionada, o seu maior escudo é a desconfiança informada. Não aceite ser atendido por quem não pode provar competência. Questione, denuncie e fiscalize. O diploma de medicina deve ser um símbolo de confiança, e não uma licença para o erro de pessoas que parecem estar "acima de qualquer suspeita".>
(Para quem utiliza o SUS, a atenção deve ser redobrada. Embora a escolha do profissional seja limitada na rede pública, o paciente e seu acompanhante têm o direito de exigir a identificação do médico e o registro detalhado de todos os procedimentos no prontuário. Em casos de urgência, onde o controle é menor, o papel do acompanhante como fiscal dos trâmites e protocolos é a última e mais importante linha de defesa.)>