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Maria Raquel Brito
Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 05:00
Os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgados nesta segunda-feira pelo Ministério da Educação (MEC) nesta segunda-feira (19), acenderam o sinal de atenção entre especialistas. Na Bahia, 12 dos 26 cursos avaliados receberam nota 2 e foram classificados como insatisfatórios. Em todo o Brasil, 30,4% das instituições foram mal avaliadas. >
Realizada em outubro de 2025, essa foi a primeira edição do Enamed. Claudia Costin, especialista em políticas educacionais e ex-diretora global de Educação do Banco Mundial, diz que os cursos, com baixo desempenho satisfatório, não estão formando bons médicos. Ela defende que a sociedade civil deve cobrar que esses profissionais sejam bem formados. >
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“Uma parte considerável dessas instituições são particulares, que cobram um dinheiro importante dos seus alunos. Então, não entregar uma formação que prepare adequadamente um futuro médico não faz sentido. É importante que se olhe para a lista dos cursos que estão com desempenho insatisfatório e se cobre uma preparação melhor, porque senão nós não vamos ter uma população com saúde. O papel do médico não é só de curar doenças, mas de garantir saúde, evitar a doença é o ideal”, afirma. >
O Enamed é uma prova anual que mede o aprendizado dos estudantes de Medicina durante o curso. Para ser considerado insatisfatório, um curso deve ter alcançado as notas 1 e 2 em um conceito que vai até 5, de acordo com o Inep. Na Bahia, nenhum curso ficou com 1 – os 12 insatisfatórios alcançaram o resultado 2. >
Segundo Costin, a avaliação foi criada a partir da constatação do crescimento acelerado de cursos de Medicina nas últimas duas décadas. “Para garantir que no processo de ensino haja, em primeiro lugar, muito mais conexão entre teoria e prática, o que é feito tendo uma conexão boa ou com o SUS (Sistema Único de Saúde), ou com um hospital universitário, e verificando se os alunos, os estudantes, estão desenvolvendo as competências que um futuro médico precisa ter. Entre elas, é destacado não só a capacidade de fazer um diagnóstico, de tomar decisões frente a problemas de saúde do paciente e assim por diante. Por isso que a prática é tão importante”.>
Entre os cursos com desempenho abaixo do esperado na Bahia, está o de Medicina da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Completam a lista os cursos do Centro Universitário Maurício de Nassau (Uninassau) de Barreiras; Centro Universitário Zarns, em Salvador; Unime, em Lauro de Freitas; Faculdades Integradas do Extremo Sul da Bahia (UNESULBAHIA), em Eunápolis; Afya Faculdade de Ciências Médicas de Vitória da Conquista; Faculdade Pitágoras de Medicina, em Eunápolis; Faculdade Estácio de Alagoinhas; Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itabuna; Faculdade AGES de Medicina, em Juazeiro; Faculdade Estácio de Juazeiro; e Faculdade AGES de Medicina de Irecê.>
Quatro cursos tiveram nota 5, o conceito máximo: a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), a Universidade Federal da Bahia (Ufba) - campus de Vitória da Conquista, a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e a Fundação Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Paulo Afonso.>
De acordo com o MEC, cursos com resultados insatisfatórios estão passíveis a sofrer sanções, que podem ser a redução de vagas, a suspensão do Fies e outros programas federais ou até a proibição de aumentar vagas. Em todo o Brasil, oito graduações não vão mais poder receber alunos, que é a suspensão mais severa.>
“O MEC tem consciência de que, sendo a primeira vez, vai haver um processo de tentar melhorar. Então, essas instituições precisam olhar para o seu resultado. Verdade, cerca de 70% (no Brasil) conseguiram aprendizagem adequada, mas esses 30% têm que olhar para o que aconteceu e tentar corrigir no seu processo de ensino. Porque vão vir algumas sanções”, diz Claudia Costin. >
Para ela, o que deve ser celebrado é que “finalmente fizeram um processo de avaliação mais voltado ao que se espera de um médico” e, sobretudo, a possibilidade de que os alunos usem a nota do Enamed no processo de seleção para o exame de acesso à residência médica, etapa que segue a conclusão do curso de Medicina. >
“O próprio ministério alertou que essas medidas que vão ser adotadas esse ano para as instituições que tiveram nota 1 e 2 vão ser mais amenas, mas (com o objetivo) de lidar com os resultados do exame. Nas próximas (edições da prova), nós vamos ter que ser mais severos. Trata-se da saúde da população brasileira, então os médicos devem ser muito bem formados”, reitera.>
O grupo Afya, responsável pela Afya Faculdade de Ciências Médicas de Vitória da Conquista e pela Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itabuna, informou através de nota que "análises de instituições de todo o país indicam divergência de dados entre os que foram reportados como insumos, em dezembro passado, em relação ao número de estudantes proficientes de seus cursos, e os divulgados hoje". Ainda segundo o comunicado, o grupo aguarda esclarecimentos técnicos por parte do MEC e do Inep.>
O Centro Universitário Ages avaliou, também em nota, que o resultado do Enamed isolado não constitui indicadores conclusivos para aferir a qualidade da formação médica do espaço. Responsável pela Faculdade AGES de Medicina de Jacobina e Irecê, a instituição acrescentou que "o curso apresenta conceito máximo (nota 5) na avaliação oficial conduzida pelo Ministério da Educação, que segue metodologia própria, critérios objetivos e procedimentos técnicos consolidados".>
O grupo Estácio, que teve dois cursos com nota 2 (Faculdade Estácio de Juazeiro e Faculdade Estácio de Alagoinhas), revelou que houve uma divergência de dados entre o que foi apresentado pelo Inep em dezembro e nesta segunda. "Essa divergência não é trivial, pode mudar a situação de diversas instituições. Por isso, estamos momentaneamente impossibilitados de passar uma análise, até que tenhamos um esclarecimento sobre o tema", completou o comunicado.>
A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) também se manifestou contrária ao indicador. A entidade falou em "preocupação com a condução adotada pelo Ministério da Educação e pelo Inep". Veja o posicionamento completo aqui.>
*Com informações de Thais Borges e Monique Lôbo>