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Veja o resultado de "cancelamentos" famosos e conheça a estratégia que transforma ódio em lucro

De Karol Conká a Boca Rosa, passando por celebridades globais, os ataques digitais podem render dinheiro, contratos e aceleração de negócios

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 13:58

O cancelamento também pode ser usado a favor
Algoritmos não distinguem ódio de amor Crédito: pexels

Imagine acordar um dia, preparar o seu café e, ao abrir as redes sociais, descobrir que você é a pessoa mais detestada da nação. Não por um crime bárbaro, um golpe financeiro ou um escândalo judicial. Talvez apenas por um erro de conduta, quem sabe por um comentário infeliz de dez anos atrás ou porque uma bolha específica decidiu que não vai com a sua cara.

O fenômeno tem esse nome que você já conhece e virou o esporte favorito nas arenas digitais: “cancelamento”. Um negócio que funciona como um tribunal sem juiz, sem direito a defesa e, frequentemente, sem qualquer paciência para contexto ou checagem de informações. O veredito é imediato e a sentença costuma ser “expor”, “deixar de seguir” e “falar mal da pessoa”.

É infantil? É. É pernicioso? Também é. Mas é mais do que isso. Para além da fúria das massas, surge um outro fenômeno intrigante. O "cancelamento" que pretende destruir, tem se tornado, para muitos, um inesperado combustível para o sucesso e o lucro. Na prática, a execração pública virou, em alguns casos, apenas uma etapa inconveniente do branding contemporâneo.

(Antes de continuar, vamos distinguir o fenômeno do “cancelamento” da responsabilização por crimes ou violações legais comprovadas. Cancelamento é uma sanção social difusa, informal e frequentemente desproporcional, operada por dinâmicas algorítmicas e subjetivas. A responsabilização envolve o devido processo, apuração institucional, contraditório e consequências jurídicas claras. Confundir essas duas coisas não apenas esvazia o debate público, como também serve tanto para relativizar crimes reais quanto para legitimar linchamentos digitais baseados em julgamento sumário, indignação performática e ausência completa de mediação. Dito isto, sigamos em paz.)

“Cancelamento" e o poder do engajamento reverso

Objetivamente, “cancelamento” é uma forma moderna de “punição” onde um indivíduo ou grupo é expulso de sua posição de influência ou fama devido a atitudes consideradas questionáveis. Trata-se de um boicote coletivo que busca retirar o alvo dos holofotes com o objetivo de causar graves prejuízos na carreira e na vida de pessoas que vivem da opinião pública.

Na prática, no entanto, surge um efeito inesperado. Em vez de invisibilizar, “cancelamento” entrega alcance, trending topics e picos de busca no Google. Isso porque o algoritmo das redes sociais não distingue "ódio" de "amor". Ambos geram o que o mercado chama de “mídia espontânea”. Para a lógica da plataforma, indignação também é engajamento. E engajamento, como se sabe, paga boletos.

Então, quando uma figura pública é alvo de ataques, a visibilidade explode. Se essa negatividade for administrada estrategicamente, a crise deixa de ser um fim para se tornar um novo e, não raro, lucrativo começo.

A história recente do Brasil e do exterior prova que, após o "tombo", muitos não apenas se levantaram, mas saltaram para patamares financeiros e de fama ainda maiores. Independentemente de estarem “certos” ou “errados”, vamos apenas relembrar alguns casos e observar a dinâmica.

Exemplos do BBB

Bianca Andrade, a Boca Rosa por Reprodução/Instagram

Bianca Andrade (Boca Rosa): durante o BBB 20, foi cancelada por não apoiar as mulheres em um episódio amplamente interpretado como machismo.

Estratégia: Bianca usou a exposição negativa como vitrine. Chorou, foi criticada, foi execrada e, de quebra, exibiu uma maquiagem à prova de lágrimas.

Resultado: a marca de maquiagem dela passou a vender muito mais depois do “cancelamento”.

Viih Tube: cancelada aos 16 anos por um vídeo polêmico e novamente no BBB 21 por seu jogo e hábitos de higiene.

Estratégia: transformou o julgamento em piada, escreveu o livro Cancelada e passou a lucrar justamente com a imagem de quem nunca mais deveria ser levada a sério.

Resultado: ficou rica, famosa e segue acompanhada por milhões de pessoas.

Karol Conká: é detentora do recorde de rejeição da história do BBB (99,17%)

Estratégia: após um período de reclusão, terapia e silêncio, voltou suave para “limpar a imagem”.

Resultado: estrelou campanhas publicitárias, lançou uma série documental sobre a própria história e está muito bem, obrigada.

No exterior

Dave Chappelle e Louis C.K.: alvos de campanhas de cancelamento por piadas controversas.

Resultado: Chappelle assinou contratos milionários com a Netflix e seguiu lotando shows; Louis C.K. voltou aos palcos, lotou arenas e venceu um Grammy.

Kevin Hart: Desistiu de apresentar o Oscar após tuítes antigos serem reapresentados e criticados numa onda de "cancelamento".

Resultado: seguiu como um dos comediantes mais bem pagos do mundo, usando o episódio como parte do arco narrativo de amadurecimento público.

J.K. Rowling: enfrenta ondas de fúria digital por seus posicionamentos considerados transfóbicos.

Resultado: as obras não param de vender; ao contrário, as polêmicas mantêm seu nome permanentemente em circulação.

Há muitos outros exemplos, por toda parte. A ponto de o “cancelamento” começar a ser percebido como uma etapa quase inevitável no caminho rumo à visibilidade. Cientes disso, profissionais da comunicação já atualizam seus métodos para lidar com esse momento.

A percepção é de que embora o “cancelamento” possa ser um evento traumático, ele se revelou também uma ferramenta de transformação e lucro. Para o profissional de comunicação atualizado, gerenciar uma crise deixou de ser apenas “limpar o nome” e passou a ser também aprender a operar dentro de um ecossistema que, manobrado do jeito certo, transforma indignação em tráfego.

Como lidar?

Cada caso é um caso, claro. Mas há um padrão que se repete na navegação durante as tempestades de arrobas e hashtags:

Reconhecimento rápido (e estratégico) do erro - isso se houver um erro, claro

Humor - rir de si costuma desarmar mais do que notas oficiais

Manter a entrega e a verdade - o consumidor costuma ser mais fiel ao produto do que à indignação

Aproveitar a mídia espontânea - o algoritmo não trabalha com valores, mas com cliques.

Lembrar que a crise é passageira – não demora e outra polêmica, mais barulhenta, aparece

Apesar de ser reversível, é importante lembrar que, antes de virar lucro, o “cancelamento” pode causar muita dor. Bem por isso, antes de atirar a primeira pedra, convém lembrar que o “cancelador” de hoje pode, facilmente, amanhã ser “cancelado”. De todo modo, se um dia você for o alvo, lembre-se de que o tombo dificilmente será o fim da carreira. A experiência alheia vem mostrando que “cancelamentos” costumam ser apenas a parte mais barulhenta do reposicionamento no mercado. Ou seja, ironicamente, com comunicação adequada e terapia em dia, os “cancelados” têm feito “canceladores” trabalharem a seu favor. E com um detalhe: completamente de graça.