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Flavia Azevedo
Publicado em 17 de janeiro de 2026 às 13:00
De vez em quando, as pessoas ainda escolhem um tema interessante para discutir nas redes sociais. Agora, por exemplo, o foco é a memória da nossa imensa e querida Elke Maravilha. A temperatura nas caixas de comentários está alta desde a participação do jornalista Chico Felitti no programa Sem Censura, da TV Brasil, na última quarta (14). Na ocasião, o autor resgatou pontos de sua biografia Elke: Mulher Maravilha - lançada como audiolivro em 2020 e pela editora Todavia em 2021 - provocando a ira de amigos e familiares da artista. Para eles, o livro é “um festival de absurdos”. Só que o jornalista afirma ter documentos. Os “íntimos” rebatem, colocando-se como testemunhas oculares. Daqui, eu fico pensando onde, nesses casos, está a “verdade”. Ou, pelo menos, se ela é mesmo imprescindível. >
Chico Felitti você sabe quem é. Há alguns anos ele mantém um podcast onde mergulha em histórias obscuras e costuma emergir com a “verdade”. Em 2022, ele viralizou com “A Mulher da Casa Abandonada”, no qual conta a história detalhada de Margarida e seu ex-marido, Renê Bonetti, acusados de escravizar uma mulher nos EUA. É uma história pavorosa que ele investigou a partir de uma casa abandonada em São Paulo. Ou seja, o cara sabe trabalhar direitinho. Já Elke, a não ser que você seja muito jovem, não preciso apresentar. Quanto à briga, você pode acessar em qualquer busca no Google, na maior facilidade. Agora que temos todos os elementos, vamos pensar.>
Veja momentos de Elke Maravilha
Pra começar, trago uma questão jurídica e ética importante. Desde 2015, o STF decidiu, na ADI 4815, que biografias não precisam mais de autorização prévia, dando prioridade à liberdade de expressão sobre os direitos da personalidade. A ideia é que a vida de uma pessoa pública pertence à coletividade. No entanto, a Suprema Corte deixou um vácuo sobre o "como" isso deve ser feito, deslocando o conflito para o Judiciário, que agora precisa decidir o que é pesquisa histórica e o que é violação da intimidade.>
Em nosso caso, há vários pontos bem questionáveis. Por exemplo, Felitti afirma que Elke nasceu na Alemanha, em Leutkirch, e não na Rússia, como sempre afirmou. O autor defende que ela passou a vida maquiando a própria origem para tornar sua existência mais suportável por causa do nazismo. Amigos rebatem com fúria, garantindo que o documento alemão era uma manobra de família para fugir da perseguição soviética. Já começamos, então, precisando decidir se vale mais o papel de um cartório ou a identidade que Elke construiu e viveu por sete décadas.>
Além da nacionalidade “real”, o livro resgata histórias terríveis que a artista escondia sob a risada espalhafatosa. Felitti cita a obra Melissa (1972), do primeiro marido de Elke, para revelar que ela teria sido estuprada pelo avô e sofrido um aborto espontâneo em 1965. Revelações como essas, somadas ao relato de que ela apanhava do pai, pintam uma Elke muito menos feliz do que aquela à qual tivemos acesso. Nesse ponto, a questão sobre o "como" narrar uma vida passa pela cerimônia com a dor alheia. Ou seja, é legítimo expor traumas tão íntimos de terceiros?>
Até a chegada de Elke à TV é alvo de discórdia. Enquanto a artista dizia que nunca tinha assistido à televisão até estrear no palco de Chacrinha, o biógrafo traz o depoimento de Boni, afirmando que foi a própria Elke quem pediu para ser jurada. Além disso, o livro detalha a relação com Silvio Santos, a quem ela chamava de “maquiavélico”. Outro ponto é a saúde da artista, classificada por Felitti como uma alcoólatra funcional. Os amigos desmentem categoricamente, afirmando que Elke dominava a bebida. Para eles, rotulá-la dessa forma é uma tentativa de reduzir uma trajetória libertária aos sintomas de um vício.>
O susto maior para os íntimos, porém, foi a história dos 100 sacos de lixo que teriam saído do apartamento de Elke depois que ela morreu. Felitti afirma que ela era acumuladora, que vivia em um ambiante insalubre e lamenta pelo fim solitário da artista, marcado pelo abandono econômico e afetivo. Amigos e assessores, no entanto, juram que ela estava amparada, que tudo estava organizado e que o que o jornalista chama de lixo era, na verdade, um acervo precioso de joias e figurinos.>
Há outros exemplos, mas você já entendeu que a peleja é entre fatos e narrativas. Uma escolha muito simples em outros contextos, mas será que a gente não precisaria pensar mais um pouco quando os fatos contradizem a “autodeclaração” de existência de falecidos? Que direito tenho eu de fazer esse tipo de “autópsia moral” em terceiros, apenas porque ficaram famosos? >
Qual é a fronteira entre o dever (e direito) jornalístico e o direito de cada indivíduo de realizar a curadoria do que é publico e do que é privado em sua própria existência? Informações que contradizem decisões tomadas em vida, que servem apenas para divertir o público, devem ser expostas sem qualquer limite? Em nosso caso, qual é o sentido de destruir a personagem que Elke escolheu pra viver?>
O Supremo deu o veredito jurídico, mas não resolveu o dilema moral de transformar a vida alheia em um domínio público sem fronteiras. Ao autorizar a devassa de trajetórias sem qualquer filtro de consentimento, o Estado valida uma espécie de expropriação da identidade, onde o direito do coletivo de "saber" atropela o direito do indivíduo de "ser" (ou de não ser, eventualmente). Além de bens e propriedades, herdeiros não deveriam ter poder sobre decisões que incluam a memória de seus entes queridos?>
Por @flaviaazevedoalmeida>