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A farsa de Elke Maravilha: por que a biografia da artista está enfurecendo parentes e amigos?

Entre documentos de cartório e memórias afetivas, o embate entre o jornalista Chico Felitti e os herdeiros da "criança de 71 anos" reapresenta o debate sobre os limites éticos das biografias não autorizadas no Brasil

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 17 de janeiro de 2026 às 13:00

No auge do sucesso, Elke Maravilha personificava alegria de viver, bom humor, irreverência e modernidade Crédito: Reprodução

De vez em quando, as pessoas ainda escolhem um tema interessante para discutir nas redes sociais. Agora, por exemplo, o foco é a memória da nossa imensa e querida Elke Maravilha. A temperatura nas caixas de comentários está alta desde a participação do jornalista Chico Felitti no programa Sem Censura, da TV Brasil, na última quarta (14). Na ocasião, o autor resgatou pontos de sua biografia Elke: Mulher Maravilha - lançada como audiolivro em 2020 e pela editora Todavia em 2021 - provocando a ira de amigos e familiares da artista. Para eles, o livro é “um festival de absurdos”. Só que o jornalista afirma ter documentos. Os “íntimos” rebatem, colocando-se como testemunhas oculares. Daqui, eu fico pensando onde, nesses casos, está a “verdade”. Ou, pelo menos, se ela é mesmo imprescindível.

Chico Felitti você sabe quem é. Há alguns anos ele mantém um podcast onde mergulha em histórias obscuras e costuma emergir com a “verdade”. Em 2022, ele viralizou com “A Mulher da Casa Abandonada”, no qual conta a história detalhada de Margarida e seu ex-marido, Renê Bonetti, acusados de escravizar uma mulher nos EUA. É uma história pavorosa que ele investigou a partir de uma casa abandonada em São Paulo. Ou seja, o cara sabe trabalhar direitinho. Já Elke, a não ser que você seja muito jovem, não preciso apresentar. Quanto à briga, você pode acessar em qualquer busca no Google, na maior facilidade. Agora que temos todos os elementos, vamos pensar.

Elke Maravilha nos anos 1970 por Reprodução

Pra começar, trago uma questão jurídica e ética importante. Desde 2015, o STF decidiu, na ADI 4815, que biografias não precisam mais de autorização prévia, dando prioridade à liberdade de expressão sobre os direitos da personalidade. A ideia é que a vida de uma pessoa pública pertence à coletividade. No entanto, a Suprema Corte deixou um vácuo sobre o "como" isso deve ser feito, deslocando o conflito para o Judiciário, que agora precisa decidir o que é pesquisa histórica e o que é violação da intimidade.

Em nosso caso, há vários pontos bem questionáveis. Por exemplo, Felitti afirma que Elke nasceu na Alemanha, em Leutkirch, e não na Rússia, como sempre afirmou. O autor defende que ela passou a vida maquiando a própria origem para tornar sua existência mais suportável por causa do nazismo. Amigos rebatem com fúria, garantindo que o documento alemão era uma manobra de família para fugir da perseguição soviética. Já começamos, então, precisando decidir se vale mais o papel de um cartório ou a identidade que Elke construiu e viveu por sete décadas.

Além da nacionalidade “real”, o livro resgata histórias terríveis que a artista escondia sob a risada espalhafatosa. Felitti cita a obra Melissa (1972), do primeiro marido de Elke, para revelar que ela teria sido estuprada pelo avô e sofrido um aborto espontâneo em 1965. Revelações como essas, somadas ao relato de que ela apanhava do pai, pintam uma Elke muito menos feliz do que aquela à qual tivemos acesso. Nesse ponto, a questão sobre o "como" narrar uma vida passa pela cerimônia com a dor alheia. Ou seja, é legítimo expor traumas tão íntimos de terceiros?

Até a chegada de Elke à TV é alvo de discórdia. Enquanto a artista dizia que nunca tinha assistido à televisão até estrear no palco de Chacrinha, o biógrafo traz o depoimento de Boni, afirmando que foi a própria Elke quem pediu para ser jurada. Além disso, o livro detalha a relação com Silvio Santos, a quem ela chamava de “maquiavélico”. Outro ponto é a saúde da artista, classificada por Felitti como uma alcoólatra funcional. Os amigos desmentem categoricamente, afirmando que Elke dominava a bebida. Para eles, rotulá-la dessa forma é uma tentativa de reduzir uma trajetória libertária aos sintomas de um vício.

O susto maior para os íntimos, porém, foi a história dos 100 sacos de lixo que teriam saído do apartamento de Elke depois que ela morreu. Felitti afirma que ela era acumuladora, que vivia em um ambiante insalubre e lamenta pelo fim solitário da artista, marcado pelo abandono econômico e afetivo. Amigos e assessores, no entanto, juram que ela estava amparada, que tudo estava organizado e que o que o jornalista chama de lixo era, na verdade, um acervo precioso de joias e figurinos.

Há outros exemplos, mas você já entendeu que a peleja é entre fatos e narrativas. Uma escolha muito simples em outros contextos, mas será que a gente não precisaria pensar mais um pouco quando os fatos contradizem a “autodeclaração” de existência de falecidos? Que direito tenho eu de fazer esse tipo de “autópsia moral” em terceiros, apenas porque ficaram famosos?

Qual é a fronteira entre o dever (e direito) jornalístico e o direito de cada indivíduo de realizar a curadoria do que é publico e do que é privado em sua própria existência? Informações que contradizem decisões tomadas em vida, que servem apenas para divertir o público, devem ser expostas sem qualquer limite? Em nosso caso, qual é o sentido de destruir a personagem que Elke escolheu pra viver?

O Supremo deu o veredito jurídico, mas não resolveu o dilema moral de transformar a vida alheia em um domínio público sem fronteiras. Ao autorizar a devassa de trajetórias sem qualquer filtro de consentimento, o Estado valida uma espécie de expropriação da identidade, onde o direito do coletivo de "saber" atropela o direito do indivíduo de "ser" (ou de não ser, eventualmente). Além de bens e propriedades, herdeiros não deveriam ter poder sobre decisões que incluam a memória de seus entes queridos?

Por @flaviaazevedoalmeida