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Flavia Azevedo
Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 23:08
Senhor do Bonfim, Universo, Deus, Oxalá. A força que mora na - e move até a - Colina Sagrada atende por muitos nomes, incluindo os “oficiais”. Basta perguntar às pessoas que vão ao Bonfim no dia dele, a cada ano, e você vai ver que é assim. Digam o que disserem os patrulheiros e puristas da fé, essa força tem muitas formas, é construída a muitas mãos e vem acompanhada de infinitos outros motivos, entidades, histórias, expectativas, sentimentos, intenções e rituais. O resultado é esse acontecimento de grande porte, tão íntimo e estruturante da nossa baianidade. Ainda assim, que festa estranha, não é? >
“O baiano não é um sujeito fácil de explicar”, disse minha amiga ao receber um dos vários vídeos que todo mundo faz, todo ano, daquele momento em que todo mundo aplaude quando a imagem do Senhor do Bonfim acaba de subir a colina. Mais tarde, no adro da igreja, a senhorinha vestida a caráter - pronta pra derramar água de cheiro em cabeças, rezar um Pai Nosso e lavar o chão sob cânticos em iorubá - comentava com a amiga: “não sei pra que essa agonia de estar todo mundo se empurrando pra chegar perto da imagem que tá todo dia aqui”. Rimos juntas, as três. Eu, de carona na conversa alheia, esporte que gosto de praticar.>
Veja as pessoas e momentos citados nesta matéria
Mas vamos começar do começo. Neste ano, quis ver por outro ângulo, limpar a cabeça desse tanto de memórias das décadas frequentando a festa mais importante do verão baiano (tirando o Carnaval). Então, mudei tudo. Não caminhei com o cortejo, não bebi cerveja, não dancei nem encontrei amigos. Muito menos voltei de escuna com samba e open bar. Acordei de madrugada pra ir cedo e direto para a igreja (e seus arredores), com o firme propósito de assuntar. Lá pelas 8h, eu tinha um acarajé e uma Coca-Cola no estômago e estava muito impressionada com o povo fitness que acordou mais cedo do que eu, fez os 8 km do percurso correndo e já acumulava garrafinhas vazias de cerveja ao lado das cadeiras plásticas das muitas barracas de comes e bebes que funcionavam a todo vapor.>
Observe que, nessa hora, a imagem do Senhor do Bonfim não havia nem começado a voltar pra casa depois das férias que todo ano passa na casa de Nossa Senhora da Conceição. Porém, cá ao redor da igreja dele, Alice Oliveira, de 19 anos, já comemorava a abundância de turistas comprando caldo de sururu no primeiro Bonfim da vida dela e fez questão de explicar que estava ali “a negócio” e que só acredita em Deus. O que quer que isso - nesse contexto - possa significar.>
A poucos metros de Alice, Marcelo Gomes fazia parte do pelotão de benzedores que, munidos de toda sorte de folhas e palavras sussurradas, compõem o grande reset de alma, astral e sorte que nos aguarda no topo da colina. É dia de pedir, agradecer, fazer promessa, pagar promessa, rezar, cantar, tomar banho de folha, se molhar de alfazema. Mas é cada coisa em seu momento. No caso, Marcelo benze, e a pessoa segue para os próximos passos.>
Caio Rodrigues e Amando Marques são pai e filho e começavam a subir a escadaria quando chamei pra conversar. Amando conta que vem à lavagem há cinco anos e afirma: “tenho sentido que, a partir do momento em que passei a frequentar essa celebração, passei a ter mais positividade e sorte na minha vida; é a primeira vez que trago ele desde a Igreja da Conceição”. Caio, de oito anos, diz que adorou o percurso feito, claro, no pescoço do pai. O pequeno garante que tem fé e me confessou o pedido que trouxe à colina, porém é um segredo nosso, motivo pelo qual não poderei publicar.>
Para Yatan Zambiazzi Civinkski, é o segundo ano. O estudante de filosofia gosta da oportunidade de passear por uma “outra” Salvador, ver os lugares, fazer novos percursos. Ele diz que até “tem um pouco de fé, mas a questão cultural é suficiente”. Já pra Daniela Fonseca, a fé é o mote. “É por causa do Senhor do Bonfim que eu caio, mas sempre me levanto; nem a dor na coluna apareceu hoje”, disse, emocionada, enquanto amarrava sua fita no gradil mais sagrado da cidade.>
O mesmo gradil no qual Eduardo Antônio, professor de Arraial d’Ajuda, agradecia pelas próprias bênçãos e pelas dos alunos, imerso no sincretismo mais que baiano: “sou católico e do candomblé”, afirmou. Com as sobrinhas, filhas do único irmão, Maria Esther Almeida vivia o próprio milagre. Depois de décadas sem frequentar festas de largo, neste ano sentiu vontade de ir à lavagem, começando lá na Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Do alto dos seus 75 anos, observava as mudanças na festa que, na opinião dela, “é linda e está ainda mais maravilhosa”.>
Isso tudo na rua. Já na igreja, baianas esperavam a hora do “show” ao lado da sacristia, diante do ventilador. Outras encaravam o sol forte no adro, sem perder a pose. O policial com quem tentei conversar disse que adoraria poder publicar a alegria de ter crescido no Bonfim e hoje fazer parte da festa, mas eu tinha que pedir autorização ao major. Desisti. O cheiro de alfazema, o sol forte, os milhares de pessoas cercando a igreja. Lágrimas, risos, o hino em looping na caixa de som. Tudo isso vai deixando a gente num estado tão bonito que acabei também amarrando minha fitinha, agnóstica à baiana que sou.>
De repente, uma mulher me pergunta se dava pra subir até a janelinha lá de cima da igreja pra fazer uma foto. Demorei a entender que era a tradutora de Hiromi Nagakura, o premiado fotógrafo japonês que passou cinco anos viajando pela Amazônia com o líder indígena e escritor Ailton Krenak, na década de 1990. Cronista visual das relações humanas, Nagakura já esteve na África, Ásia, América Latina, Europa e Oceania, retratando povos nômades, comunidades em conflito e modos de vida ameaçados. Não sei se ele conseguiu fazer a foto lá de cima, mas pouco tempo depois percebi que ele escolheu o ponto de vista contrário. Sentado no chão, fotografava as pessoas de baixo pra cima. Ele também entendeu, eu acho.>
Senhor do Bonfim, Universo, Deus, Oxalá. A força que mora na - e move até a - Colina Sagrada atende por muitos nomes, incluindo os “oficiais”. Mas também Maria, Caio, Marcelo, Alice, Yatan e mais dois milhões de nomes que não sei. A força que mora na - e move até - aquela colina é quase concreta. Quase dá pra tocar. Certeza é de que, seja pela neurociência, pela religiosidade, pela antropologia, pela psicanálise ou por qualquer outro instrumento de interpretação do humano, “o baiano não é um sujeito fácil de explicar”. Nem tem necessidade. Deixa a gente do jeito que tá.>
O Projeto Festas Populares é uma realização do Jornal Correio com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador.>
Por @flaviaazevedoalmeida>