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O mistério daquele grupo de WhatsApp e o estranho sumiço dos pais na gincana escolar

Uma breve investigação sobre como, no meio de caixas de som, doações de sangue e objetos inusitados, os homens simplesmente desapareceram no ar

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 21 de março de 2026 às 13:00

Gincana escolar
Gincana escolar Crédito: reprodução

Há poucos dias, vivi uma experiência obrigatória no currículo da maternidade contemporânea: foi a minha primeira vez sendo "mãe de gincanista". Comecei muito a contragosto, cumprindo o tipo de missão que justifico sempre com o mantra “meu filho merece”. Repito essa frase toda vez que alguma demanda, digamos, periférica (e cansativa) da maternidade aparece. Sim, periférica, porque não me parece exatamente obrigação materna tentar encontrar uma piscina de prédio vazia ao fim de um dia de trabalho ou descobrir quem ainda guarda um boneco original do pavoroso Fofão. Menos ainda passar 24 horas abordando conhecidos para que sigam o perfil da equipe ou perder horas de sono redigindo uma notificação extrajudicial depois que a página foi derrubada e a empresa organizadora da gincana simplesmente não tomou providências.

(Aliás, que vacilo, hein, Gang? Sim, eles foram prejudicados e você sabe disso.)

Mas como eu recebia todas essas demandas em tempo real? Porque duas semanas antes da gincana (período já cheio de tarefas conhecido como pré-gincana) foi criado, pela equipe da qual meu filho fazia parte, um grupo de WhatsApp chamado “Mães e Pais”. A ideia era reunir adultos dispostos a colaborar para que suas crianças e seus adolescentes atravessassem da melhor maneira aquela mistura de competição e catarse coletiva. Aos poucos, lembrei que a gincana não é apenas recreação, mas um pequeno sistema social temporário, com suas urgências e seus pedidos de socorro em horários estranhíssimos. No meio da correria, ouvi o relato de uma mãe sobre como essa atividade ganhou ainda mais importância e agora tem ajudado crianças e adolescentes a saírem de quadros depressivos, por exemplo. Pronto. Eu estava em hiperfoco e mortalmente comprometida.

(Claro. Se entendi que atividades assim passaram a ser essenciais para a saúde mental dos nossos filhos, evidentemente deduzi que a presença dos adultos deixa de ser apenas logística e passa a integrar a sustentação emocional de um processo importantíssimo.)

Ilustração do livro O dia em que as mães entraram em greve por Divulgação

Aquela engrenagem envolve “mães e pais” de forma muito mais intensa do que quando eu mesma era adolescente. Entre doações de sangue, transporte para ensaios e buscas por objetos aleatórios, o “grupo do zap” vira uma central de operações 24 horas. As tarefas aparecem com uma urgência que lembra plantão hospitalar. Só que aquele é um “hospital” especializado em curar distâncias indesejadas e tão contemporâneas entre nós e nossos filhos. É também um espaço cheio de oportunidades para vários reparos geracionais, no qual cada especialista (mães e pais) tem poucos dias para tomar decisões que vão mudar o futuro em família.

Depois de perceber tudo isso, comecei a prestar muita atenção no comportamento das pessoas no tal “grupo do zap”. É que o grupo se chamava “Mães e Pais”, mas funcionava como um mutirão feminino. Em resposta às demandas, mensagens vinham acompanhadas de frases que qualquer mulher conhece de cor: “estou no trabalho, mas vejo isso”, “deixei a chave na portaria”, “resolvo agora”. Nenhuma era escrita em tom de heroísmo; eram apenas soluções de quem já está acostumada a encaixar o mundo dentro das insuficientes 24 horas dos nossos dias. Enquanto isso, a participação paterna sofria um fenômeno de evaporação progressiva. Ao longo das semanas, os poucos nomes masculinos iam deixando de aparecer sem que houvesse qualquer conflito ou explicação. Era apenas o vácuo mesmo.

Os próprios adolescentes perceberam isso. Num primeiro momento, as mensagens dos líderes eram dirigidas a “mães e pais”. Poucos dias depois, o destinatário mudou: “mães, precisamos de um carro em vinte minutos”, “mães, alguém consegue uma caixa de som?”. Não houve debate teórico sobre função materna ou paterna. Na prática, filhos pedem ajuda a quem responde. Eles aprendem cedo quem é o porto seguro e quem comparece apenas nas horas vagas, “quando é possível”.

Além de muito prazer e certa agonia, estrear como “mãe de gincanista” me trouxe mais um lembrete da profunda desigualdade, entre pais e mães – mesmo daqueles em formatos tradicionais de família -, de implicação afetiva. Cuidar de um filho é também estar mentalmente disponível para perceber quando algo importa para ele. É entender que o sucesso de uma tarefa aparentemente “boba” pode ser o alicerce da autoestima de um adolescente naquele momento da vida. O abandono do pai “presente” acontece justamente quando ele está ali, mas delega à mãe a função de perceber o mundo do filho. Nesses dias eu vi isso acontecer repetidas vezes.

Já que falamos de competição, ganhou a gincana todo mundo que decidiu jogar junto. Presença, também nesses momentos, é o que define quem participa da vida do filho e quem só transita por ela. Ao se retirarem dessas cenas, muitos pais acham que estão apenas evitando o cansaço, mas abrem mão de um lugar que não se recupera depois. Algumas experiências não se repetem e, quando passam, reorganizam quem é central e quem vai ficando dispensável dentro da família. Dito isto, cada qual que siga com as próprias escolhas, porém cientes das consequências delas.

Flavia Azevedo é articulista do Correio, editora e mãe de Leo