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Publicado em 15 de maio de 2026 às 14:11
É quase sempre comum na Bahia ofertar a qualquer um(a) inexperiente que se aprecie alguma iguaria baiana, como acarajé ou abará, como forma de boas-vindas ou de simplesmente introduzir o modo de ser baiano.>
A arte de elaborar um bom acarajé ou abará tem seus segredos. Um dos primeiros a divulgá-los foi o pintor, escritor e abolicionista brasileiro Manuel Raimundo Querino, fundador do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia e da Escola de Belas Artes, na magnífica obra “A Arte Culinária na Bahia” publicada postumamente em 1928. >
Para elaborá-lo, Querino sugeria começar empregando “o feijão fradinho, depositado em água fria até que facilite a retirada do envoltório exterior, sendo o fructo ralado na pedra. Isto posto, revolve-se a massa com uma colher de madeira, e, quando a massa toma a fôrma de pasta, addicionam-se-lhe, como temperos, a cebola e o sal ralados. Depois de bem aquecida uma frigideira de barro ahi se derrama certa quantidade de azeite de cheiro (azeite de dendê), e, com a colher de madeira vão-se deitando pequenos nacos da massa, e com um ponteiro ou garfo são rolados na frigideira até cozer a massa. O azeite é renovado todas as vezes que é absorvido pela massa, a qual toma exteriormente a cor do azeite. Ao acaragé acompanha um molho, preparado com pimenta malagueta secca, cebola e camarões, moido tudo isso na pedra e frigido em azeite de cheiro, em outro vaso de barro”.>
Inspirado pela obra de Querino, o escritor, advogado e político brasileiro Jorge Amado começou a publicar, desde seu primeiro livro, “O País do Carnaval” (1931), belas estórias e causos envolvendo deliciosos pitéus da culinária baiana, como na passagem do seu pioneiro romance: “Uma preta, na rua, rebolando as ancas, gritava: – Amendoim torrado! Acarajé, abará”.>
Para quem nunca provou, a decisão de se deliciar com um acarajé ou abará não se baseia na experiência, ou seja, em já ter provado alguma vez, até pelo desconhecimento de seus sabores inigualáveis.>
Assim, a decisão sobre tal escolha recai sobre o que se apresenta no momento de se decidir. Dito de outra forma, a decisão ocorre após alguma informação a respeito, como: qual das iguarias é mais apreciada, de que forma é feita, qual é a mais vendida, etc. Considerando que a pessoa seja inexperiente, nenhuma informação anterior lhe servirá de valia para sua decisão de degustar pela primeira vez. Nesta perspectiva, haveria uma probabilidade natural de 50%, ou seja: tal pessoa poderia escolher tanto acarajé quanto abará.>
Para quem já provou, vamos supor que o acarajé seja a opção preferencial, e que a probabilidade disto ocorrer num certo dia é de 80%. Assim, a probabilidade de escolha do abará é menor, de 20 %. A partir disto, poderíamos também sugerir que para qualquer um que já tenha provado abará tem probabilidade de 60% de continuar provando-o, e de apenas 40% de se decidir a trocar e comer acarajé. Vamos admitir que isto seja o padrão inicial da população que conhece e gosta destes quitutes. Isto se configura numa situação markoviana clássica.>
Vamos considerar novamente uma pessoa inexperiente. Por estar indecisa, existe 50% de probabilidade de se escolher acarajé ou abará. Posto isso, é possível estender o raciocínio acima e estimar ao longo do tempo qual seriam as escolhas sucessivas desta pessoa, que após provar deverá manter o padrão geral da população que já conhece as iguarias e que obedeça a situação ilustrada anteriormente.>
Para quem desconhece, a denominação markoviana nada tem a ver com psicologia, pois é atribuída ao matemático russo Andrey Andreyevich Markov. Qualquer um(a) numa situação de primeira experiência entre decidir sobre provar acarajé ou abará, ou ainda qualquer outra coisa, está literalmente preso a um problema matemático denominado cadeia de Markov.>
Não é difícil de entender o processo, pois ele é similar ao da compra e degustação destes mesmos quitutes. Analisando uma situação similar antes de se resolver o problema, ao se desejar comprar dois acarajés e um abará, suponha que cada acarajé custe nove reais e cada abará, sete reais. Qual é o valor total da compra?>
Pode-se efetuar o cálculo da seguinte forma: dois acarajés vezes nove reais mais um abará vezes sete reais, totalizando dezoito mais sete, ou seja, vinte e cinco reais.>
O produto, ou multiplicação efetuado, é dito cruzado, ou ainda externo, onde os pares quantidade e preço são calculados separadamente para cada quitute, e depois somados. Matemáticos(as) dão o nome de produto matricial a este procedimento.>
Ao se verificar o preço das mesmas quantidades em dois estabelecimentos diversos com preços diferentes oferecidos por duas baianas quituteiras, é possível observar esta mesma estrutura. Novamente, desejamos comprar dois acarajés e um abará. Já sabemos os preços do primeiro estabelecimento. O do segundo seria mais caro: cada acarajé custa dez reais e cada abará, oito reais.>
A comparação entre valores procede da mesma maneira: no primeiro estabelecimento, o valor do preço de dois acarajés vezes nove reais mais um abará vezes sete reais, totaliza dezoito mais sete, ou seja, vinte e cinco reais. Já no segundo estabelecimento, dois acarajés vezes dez reais mais um abará vezes oito reais, totaliza vinte mais oito, ou seja, vinte e oito reais. Tais dois resultados seriam dispostos numa matriz linha de dois elementos, sendo que cada coluna representa cada um dos respectivos estabelecimentos.>
Voltando as possibilidades de escolhas, e preso ao dilema markoviano inicial de se provar uma iguaria soteropolitana pela primeira vez, após decidir-se, tal pessoa irá reproduzir a tendência da população. Num primeiro momento, tal pessoa, tendo decidido pelo acarajé, teria metade de 80% somado a metade de 40%, ou seja, 60% de preferência pelo quitute frito no azeite de dendê. E tendo escolhido o abará, teria metade de 20% mais metade de 60%, ou seja, 40% da preferência pelo acepipe cozido e embalado numa folha de bananeira. Em ambas situações há também a condição de multiplicação cruzada, agora envolvendo porcentagens vinculadas a cada iguaria.>
Numa segunda vez, tal pessoa, reproduzindo a mesma tendência anterior, e tendo decidido pelo acarajé novamente, agora teria 60% de 80% somado a 60% de 40%, ou seja, 64% de preferência reforçada pela escolha do acarajé. E tendo escolhido o abará, teria 40% de 20% mais 40% de 60%, ou seja, 40% da preferência, reforçando a escolha pelo abará.>
Continuando esta tendência, a partir da sexta vez, ou ainda, sexta rodada, a preferência de acarajé seria de quase dois terços, enquanto a de abará, de um terço. Isto parece ocorrer em boa parte das vendas dos tabuleiros das baianas, conforme uma observação meramente qualitativa.>
Esta seria uma solução ao dilema soteropolitano de qualquer pessoa que estaria irremediavelmente numa prisão markoviana a decidir entre acarajés e abarás. Após prová-los, não há como escapar!>
Professor Titular da Escola Politécnica, Departamento de Engenharia Química da UFBA e pesquisador do SENAI-CIMATEC>