Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

O fenômeno “Mercury retrógrado” no Troféu Armandinho & Irmãos Macêdo

Sobre o descompasso entre a urgência da pauta feminista e a falta de liturgia que expõe a luta das mulheres ao ridículo

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 2 de maio de 2026 às 13:00

Daniela Mercury e Edson Gomes
Daniela Mercury e Edson Gomes Crédito: Reprodução

Já passou? De jeito nenhum. Na noite da última terça (28), no Teatro Sesc Casa do Comércio, o que deveria ser uma celebração da música e da tradição baiana se tornou palco de um dos episódios mais constrangedores da nossa história cultural recente. Negócio foi tão grave que o caso não deve perder esse lugar tão cedo. Acontece que a "Rainha do Axé", Daniela Mercury, decidiu que a melhor forma de celebrar o prêmio recebido no Troféu Armandinho & Irmãos Macêdo seria aplicar um corretivo ético, ao vivo, no "Rei do Reggae", Edson Gomes. Então, o que era pra ser uma ode à tradição carnavalesca se transformou em um exemplo sobre como a falta de liturgia pode tornar uma causa nobre em um número de entretenimento de péssimo gosto.

Diz o povo da astrologia que esse tipo de pane envolvendo comunicação costuma acontecer quando Mercúrio está retrógrado. Não sei exatamente o que isso significa, mas na certa ele estava, porque saiu tudo ao contrário. Pra começar, a lista dos premiados não sei se alguém sabe dizer, mas “cantar uma zorra!” já virou meme, estampa de camiseta e interjeição pra um bocado de situações. Pois a frase mais lembrada da noite é a resposta de Edson a Carlinhos Brown, que tentava contornar a situação propondo um dueto amoroso entre “as partes”.

Daniela Mercury e Malu Verçosa por Reprodução/Redes Sociais

Não deu certo, claro. Nada resolveria o problema criado pelo descumprimento de uma das primeiras regras do manual mais básico de etiqueta social: convidados devem evitar, ao máximo, causar qualquer desconforto para anfitriões. Ou seja, a casa (ou a festa) dos outros não é lugar adequado para tirar nada a limpo, provocar (ou alimentar) discussões e, muito menos, confrontar outros convidados. Portanto, uma premiação de artistas jamais seria o foro adequado para acusar Edson Gomes de violência contra a mulher, por mais que isso possa ser verdade e eu, sinceramente, acredito que seja.

(“Mas Daniela não queria compactuar”, pensa a sua cabeça. Excelente! Eu, sabendo, jamais estarei ao lado de um agressor de mulheres. Então, por ocasião do convite, ela respondesse com uma nota agradecendo, mas afirmando que não se sentiria confortável em dividir o espaço com um homem acusado de violência contra a mulher. Divulgasse em suas próprias redes e quem criticasse estaria errado, porque nas redes dela ela faz o que quiser. "Ah, mas ela não soube antes". Então, quando visse o homem, se retirasse e explicasse os motivos em seus próprios canais.)

O show de Edson Gomes teve público majoritariamente feminino por Sora Maia

Outra coisa é a questão da maturidade. Daniela não é uma novata , mas uma artista com quarenta anos de carreira. De uma mulher que já cruzou a barreira dos 60 anos, espera-se a sabedoria estratégica de quem sabe que a indignação, para ser transformadora, não pode chamar mais atenção para a denúncia do que para o fato denunciado. Ao se comportar com a impulsividade de uma adolescente, ela desperdiça autoridade e abre espaço para a acusação mais comum: “lacração”. Entendo que ela não se importe, mas isso reforça um estigma injusto e incômodo que chega a todas nós.

Do mais absoluto nada, Daniela mirou em Edson e o acusou de violência doméstica. Depois disso, foi ladeira abaixo. Se existe a convicção - respaldada por relatos de figuras como Olívia Santana e Laurinha Arantes sobre episódios que remontam a 1999 - para confrontar publicamente um suposto agressor, o imediato pedido de perdão, ainda no palco, fez o "constrangirômetro" explodir. Ao recuar dizendo "me desculpe" diante da fúria de Edson que exigia provas, Daniela ofereceu ao acusado o papel de vítima de uma injustiça, permitindo que ele deixasse o evento como vencedor do embate. “Todo mundo sabe, Edson”, “me processe que as provas vão aparecer”, “tenho testemunhas”, "me deixe, Binho", "procurem saber em Cachoeira"… qualquer frase seria melhor do que aquele “me desculpe”. Ali eu quase morri.

(Daniela ainda teve a chance de dizer "oxente, vai me agredir?", enquanto ele caminhava irritado perguntando pelas tais "provas". Porém, diante da reação do "acusado", ela retirou a denúncia. Que recado fica, no fim?)

Daniela Mercury no Crocodilo no domingo de Carnaval por Celia Santos/@celiasantosfotos

Não parou por aí. Ainda mais inusitada foi a nota oficial emitida pela assessoria da cantora no dia seguinte. Tentar convencer o público de que a fala tinha um "caráter amplo e simbólico" e era dirigida a "todos os homens brasileiros" é um exercício de subestimação da nossa inteligência. Não há simbolismo genérico quando nomes são citados e dedos são apontados. Diluir uma acusação direta em sociologia barata é o tipo de malabarismo retórico que apenas mostra que a artista não estava preparada para sustentar o peso das próprias palavras. "Peço desculpas aos anfitriões e ao público, mas não consigo me calar diante de certas situações", ou algo assim, remediaria bem melhor.

A luta contra a violência doméstica masculina é a nossa maior urgência. Sombras pairam sobre Edson Gomes, sustentadas por relatos de gente confiável. Porém, confrontos desse nível atrapalham muito mais do que ajudam a causa. Se a militância se torna tão performática, ela expõe a luta das mulheres ao ridículo e oferece munição para quem sempre quis deslegitimar nossas pautas. O risco é que, em um momento tão dramático, a sociedade passe a encarar nossas manifestações não como uma demanda de sobrevivência, mas apenas como um elemento de entretenimento “disruptivo”, onde a denúncia vira só mais uma "treta" nas redes sociais. Agora, vamos respirar e torcer para que Mercúrio demore a aprontar de novo. Dessa vez foi forte. Crendeuspai.

Por @flaviaazevedoalmeida