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Flavia Azevedo
Publicado em 29 de abril de 2026 às 17:41
Confesso que entrar nessa seara, pra mim, é como caminhar sobre brasas usando salto agulha e sutiã. Ou seja, um real sacrifício. Como alguém que não pisa em igreja (ou templo ou terreiro ou o que for) nem se a promessa for open bar de rum cubano, eu deveria ser a primeira a atirar a pedra no “terrivelmente católico” Juliano Cazarré. Afinal, o "cancelamento" dele virou o esporte favorito de progressistas e feministas nas últimas semanas. E essa é a minha turma, claro. No entanto, existe algo que eu amo mais do que qualquer pauta ideológica. Chama “honestidade intelectual”. Então, em tempos tão esquisitos, acho cada vez mais importante separar o joio do trigo. Mesmo que o trigo venha com um terço na mão e uma bíblia debaixo do braço. >
A confusão começou nas redes quando Cazarré anunciou o evento "O Farol e a Forja", produzido por ele e descrito como o "maior encontro de homens do Brasil". A proposta, voltada exclusivamente para o público masculino, foca em temas como liderança, paternidade, saúde masculina e catolicismo. O ator afirma que vivemos em uma sociedade que "enfraqueceu" a figura masculina e que o projeto nasceu da sua recusa em ficar calado diante de famílias que se desfazem. Imediatamente, colegas de profissão como Marjorie Estiano e Claudia Abreu (e muitos outros, entre homens e mulheres) reagiram, associando o discurso do ator a uma narrativa machista que, nas palavras de Estiano, "mata mulheres todos os dias".>
Juliano Cazarré com mulher, Letícia Cazarré, e filhos
Para não ser a militante caricata que apenas reproduz palavras de ordem, eu me dou a certos trabalhos. Desta vez, foi quase hercúleo para uma agnóstica: assistir a mais de 15 vídeos do ator. Não foi fácil, acredite, mas aqui vai mais uma dose de honestidade: eu não vi misoginia. O que, claro, não pretende ser um selo de qualidade. Mas o que vi foi um homem profundamente católico - convertido após interpretar Jesus na Paixão de Cristo em 2018 - pregando um retorno a valores que ele considera importantes. Ele não prega o ódio às mulheres; ele prega que o homem deve ser a "forja" da própria família, o que significa, nas palavras dele, assumir a responsabilidade de proteger e prover, em vez de abandonar a casa, deixando mulheres sozinhas com os filhos (e se lascando atrás de pensão alimentícia nas varas de família).>
Acho importante, para quem conserva a própria dignidade, desvincular Cazarré da turma do "Red Pill". Enquanto o movimento Red Pill destila ressentimento e ódio contra as mulheres, pregando a submissão e um isolamento hostil, o ator fez questão de classificar essa vertente como "nociva e nefasta". O discurso dele está muito mais alinhado ao tradicionalismo católico pré-iluminista do que a qualquer fórum de homens frustrados da internet. Inclusive, ele argumenta que um "homem forte" é justamente aquele que não bate em mulher, pois quem agride é o "fraco" que não sabe canalizar sua natureza.>
(“Mas os tradicionalistas são estranhos”, você está pensando. Bom, pra mim, toda religião é “estranha”. Só que o que você acha e o que eu acho importa muito pouco. Ou não é aqui que queremos liberdade de crença e culto?)>
Sim, a ideologia de Cazarré é, admitidamente, conservadora e patriarcal. Ele acredita que homens e mulheres têm "papéis diferentes" na estrutura familiar e que a liderança masculina é uma virtude espiritual. Para a minha sensibilidade feminista, isso soa como um disco arranhado de 1950 e eu jamais me interessaria por me relacionar com um homem desse tipo. Só que ser "retrô" nas opiniões não é o mesmo que ser um agente da violência, que merece ódio, denúncia e cancelamento. É claro que sabemos o quanto casamentos tradicionais podem destruir mulheres, mas veja: os “modernos” e “desconstruídos”, que falam a língua “certa” e performam consciência, muitas vezes fazem exatamente o mesmo, só que com uma estética que a gente gosta mais. Não falam em submissão, mas somem no pós-parto. Não defendem hierarquia, mas também não sustentam vínculo, presença nem responsabilidade. No fim, a sobrecarga e a violência resultam iguais. A diferença é que, nesse caso, não tem frase polêmica para recortar nem evento para ser cancelado. E o agravante é que em certas “desconstruções”, as mulheres ainda precisam pagar as contas. Inclusive as deles e as da casa.>
Um ponto que gerou faíscas foi um vídeo onde ele afirma que o filho só aprenderá a rezar se vir o pai de joelhos, pois se apenas vir a mãe, achará que oração é "coisa de mulher". Assisti a esse duas vezes. Algumas pessoas viram no discurso um desprezo pelo feminino, mas, sendo sincera, me pareceu mais um apelo desesperado para que os homens parem de deixar apenas para a mãe a educação moral dos filhos. Educação moral, no caso dele, significa encaminhar as crianças na religião. Cazarré também foca na "crise silenciosa" dos homens: vício em pornografia, ausência paterna e falta de propósito. Não é interessante isso? Se olharmos sem a lente da fúria, ele está pedindo que os homens "virem gente", voltem para dentro de casa e assumam o rojão que é cuidar de uma família.>
A polêmica esbarra, claro, no cenário de altos índices de feminicídio no Brasil, o que torna qualquer debate sobre masculinidade um campo minado. É compreensível que a gente sinta calafrios ao ouvir termos como "liderança masculina" em um país que enterra mulheres vítimas da violência dos homens todos os dias. No entanto, tenho fé (opa!) de que conseguimos pensar, mesmo dentro desse furacão. No fim das contas, olhando os números, um homem que chama outros homens à responsabilidade com suas próprias famílias está contra nós ou a nosso favor? Lembre que se decidirmos lutar apenas com pessoas que são nossas réplicas, cada pessoa vai lutar sozinha. Cazarré defende que a família estruturada é a base da saúde psíquica coletiva. Isso não faz algum sentido também? Independentemente, claro, de como seja a sua família. Aqui, por exemplo, somos eu e meu filho. Não importa o que digam, uma família completinha.>
Minha divergência com ele é total no campo da metafísica. Como eu disse, detesto a lógica religiosa e acho que o mundo seria mais leve sem dogmas. Não há a menor possibilidade de eu sequer me sentir à vontade em um almoço com a família que ele construiu e não entendo uma mulher parir quantos filhos “deus manda”, porque não usa qualquer método anticoncepcional. Sou a favor da legalização do aborto, coisa que eles execram. Mas não posso ignorar que Cazarré é um cara que pratica o que prega: casado há 14 anos, pai de seis filhos (e contando...) e que passou oito meses em uma UTI cuidando da filha pequena. No mercado da influência, onde muitos vendem o que não vivem, ele é uma "referência viva" do que prega e coerência é uma virtude inegável.>
No fim das contas, a "cruzada" contra o ator parece mais um choque de bolhas do que uma denúncia legítima. Acho que nós, feministas, temos lutas muito mais urgentes do que cancelar um homem que quer ensinar outros homens a trocarem fraldas, rezarem o terço e pagarem as contas de casa. Também acho honesto admitir que a masculinidade que o Cazarré propõe pode ser chata, antiquada e não servir pra estar perto de mim. Inclusive, não permitiria meu filho adolescente em um evento como esse (nem em qualquer outro, de qualquer religião). Porém, não me parece ser exaltação à misoginia e ao feminicídio. Que ele siga com o farol, a forja, aquele perfil cafona no Instagram, a missa e fazendo dezenas de filhos. Nós seguimos vivas, livres, atentas e críticas. Mas, sobretudo, espero que aprendendo a escolher melhor as nossas brigas.>
Por @flaviaazevedoalmeida>