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Publicado em 23 de maio de 2026 às 07:30
Há quase 12 anos, eu vivo uma ausência que não se explica e não se encerra. Desde 2014, meu filho Davi Fiuza foi levado do bairro de São Cristóvão, em Salvador, e desde então eu caminho entre o silêncio, a espera e a falta de respostas. Não existe palavra que dê conta do que é ver o tempo passar sem saber onde está o seu filho, sem verdade, sem justiça e sem a possibilidade de viver o próprio luto.>
O que deveria ter sido uma busca imediata e coordenada se transformou em anos de lacunas, atrasos e falhas que marcaram profundamente não apenas a investigação, mas a minha vida como mãe. Houve demora, houve ausência de respostas, houve momentos em que tudo pareceu parar, menos a minha dor.>
O reconhecimento tardio de que se tratava de um desaparecimento forçado não apagou o que já havia sido perdido no caminho. Pelo contrário, apenas confirmou o que eu, como mãe, já sabia na prática do sofrimento diário, que meu filho não desapareceu por acaso, e que a forma como o Estado lidou com o caso não foi suficiente para protegê-lo nem para me dar respostas.>
Em nenhum momento eu tive o direito pleno de participar, de ser informada devidamente, de acompanhar de perto cada passo da investigação. E isso também é violência. Porque quando uma mãe é afastada da busca pelo próprio filho, o que se perde não é só informação, é dignidade.>
Foram quase 12 anos em que cada dia de espera se somou ao anterior, criando uma dor que não arrefece, apenas se acumula. Eu não pude viver o luto, porque o luto exige verdade, e a verdade nunca chegou.>
Esse caso não é apenas sobre o meu filho. É sobre um padrão que precisa ser enfrentado. Quando se trata de jovens negros, quando se trata das periferias, o tempo da justiça parece ser outro, mais lento, mais distante, mais indiferente. E essa desigualdade também machuca, também fere, também marca.>
Hoje, enquanto mais uma audiência se aproxima em Salvador, eu sigo com a mesma pergunta que me acompanha desde 2014: onde está Davi?>
Não é apenas uma pergunta de uma mãe. É uma pergunta que o Estado ainda não respondeu. E enquanto não houver resposta, não haverá encerramento, não haverá paz, não haverá justiça.>
Eu sigo porque não posso desistir dele. E sigo porque nenhuma outra mãe deveria viver o que eu vivo há quase 12 anos.>
Diante da audiência marcada em Salvador, não busco apenas andamento processual. Busco humanidade, responsabilidade e compromisso real com a verdade. Cada passo dessa caminhada deveria ser sobre resposta, não sobre repetição da dor.>
E ainda assim, sigo. Porque desistir não é uma opção quando se trata de um filho. Enquanto não houver verdade, continuarei buscando justiça e recusando o esquecimento imposto pelo Estado e pela justiça. Porque sem resposta não há justiça, e sem justiça não há futuro possível para quem ficou.>
Rute Fiuza é pesquisadora do CAAF ( Centro de Antropologia e Arqueologia Forense), coordenadora do movimento Mães de Maio da Bahia, integrante da Coalizão Negra por Direitos e mãe de Davi Fuiza>