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Onde a espiritualidade senta à mesa: o bar de Stella Maris que virou ponto de encontro de fé, samba e Zé Pilintra

Espaço criado por João Paulo,  Boteco D’ Rua virou ponto de encontro para clientes que compartilham histórias, fazem pedidos às entidades e tentam vencer o preconceito religioso

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 23 de maio de 2026 às 05:00

Fé e boemia  dividem a mesma mesa em Stella Maris
Fé e boemia dividem a mesma mesa em Stella Maris Crédito: Sora Maia/ CORREIO

Sora Maia e João Paulo estavam lá e não me deixam mentir. O Vitória ganhou do Flamengo, por 2x0, graças ao Bar Boteco D’ Rua, em Stella Maris. Sem desmerecer a garra dos atletas e a força sobrenatural da torcida rubro-negra, mas, na ajuda do lado oculto, com certeza houve influência da cerveja e dos R$ 2 que dei a Zé Pilintra no estabelecimento. Conto isso mais tarde, pois esta não é uma matéria sobre esporte, mas sobre espiritualidade. Estamos falando do lugar onde a espiritualidade senta à mesa.

Tem gente que chega apenas para beber uma cerveja. Há quem vá pelo caldo servido em copo americano, pelo samba de mesa, ou forró, ou pelo camarão fumegando na frigideira. Mas também existe quem atravesse a rua, veja uma imagem de Zé Pilintra, como se tivesse sido chamado, guardando o espaço com chão de areia, árvores ao redor, imagens de orixás e caboclos, além das tradicionais mesas de plástico, uma entidade material dos botecos.

No meio do comércio do Petromar, em Stella Maris, o Boteco D’ Rua virou mais do que um bar temático de matriz africana. Entre imagens de entidades, altares improvisados e mesas espalhadas ao ar livre, o espaço criado por João Paulo Melo Borges se transformou em um ambiente onde fé, memória afetiva e religiosidade de matriz africana convivem sem cerimônia, sem liturgia formal e sem a obrigação de explicar nada para ninguém. Ali, o sagrado não interrompe a boemia. Divide espaço com ela.

“Eu costumo dizer que o Boteco D’ Rua é o resgate da fé das pessoas”, afirma João, com sua camiseta de basquete estampando a palavra Oxóssi, sentado sob as árvores que ajudam a compor a atmosfera quase ritualística do espaço. “Tem gente que chega aqui, bota a moeda, deixa a cachaça e vai embora. Tem gente que diz: ‘eu vi ele no meu sonho’. Outros falam: ‘eles me trouxeram até aqui’. E outros apenas sentam, bebem e vão embora”, disse.

A história do bar começou antes de a umbanda ganhar espaço na vida de João. Antes das imagens, dos altares e da fama nas redes sociais, João trabalhava com uma loja de roupas chamada “Deixa Lá Que a Vida Leva”, marcada por frases da velha baianidade. “Boca de zero nove”, “velha própria” e outras gírias populares estampavam peças vendidas dentro de um trailer que ainda hoje permanece estacionado no local. Mas veio a famigerada pandemia. “Parou-se tudo”, resume.

Primeiro, a do santo! por Sora Maia

A interrupção forçada virou oportunidade para uma antiga ideia reaparecer. João já havia tido um bar em Brotas, numa escadaria da Djalma Dutra. Quando encontrou o espaço em Stella Maris, um pequeno trailer de cachorro-quente de frente para um terreno baldio, enxergou além.

“Aqui era uma barraca pura, banca de cachorro-quente. Onde você vê hoje, eu tirei duas carretas de lixo, folhas, amêndoas, de tudo. Isso aqui ninguém usava”. O cenário era improvisado. O orçamento também. Mas a estética já existia inteira na cabeça dele. “Eu já tinha a ideia de fazer um bar com temática de umbanda, candomblé, de matriz africana”. A primeira imagem surgiu quase por acaso. João procurava uma representação de um Exu conhecido como Pantera Negra quando encontrou um pequeno Zé Pilintra. “Eu falei: ‘porra, Zé Pilintra é o homem do bar’”.

Na época, ele ainda engatinhava na umbanda. O espaço tinha apenas duas imagens, o pequeno Zé e São Jorge, além de um cinzeiro onde os clientes começaram espontaneamente a deixar moedas. Foi ali, segundo ele, que tudo começou a mudar. “Eu falei: se Seu Zé tiver aceitação, eu vou fazer o grande”. E teve. Com o crescimento e a procura, João mandou produzir uma imagem maior de Zé Pilintra, inspirada nas próprias feições.

Pouco tempo depois, descobriria que a entidade incorporada em seus trabalhos espirituais era justamente Zé Pilintra, que ganhou um local próprio. O bar cresceu junto com a relação dele com a espiritualidade. Vieram outras imagens, altares, referências aos orixás e demais figuras sacras, como Jesus Cristo. “Aqui você pode entrar com sua bíblia, com seu guia, com seu alcorão. O que não admito aqui é preconceito. É, como disse, um bar ecumênico”, garante. Contudo, nem tudo é sagrado. Junto com a temática também veio o preconceito.

“Já fui denunciado por tudo que você imaginar. Desmatamento, fossa a céu aberto, de tudo. Mas os fiscais chegavam aqui, olhavam e entendiam que o problema era outro, o preconceito”. João, inclusive, evita transformar o espaço em terreiro, de forma literal. Faz questão de separar as coisas. “Não existe assentamento aqui. Não existe ritual. São imagens que se transformam em energia, porque tudo no mundo é energético”. Com isso, surgiu talvez a única regra da casa: “Se beber, não incorpore”.

Pela liberdade, é natural os clientes se emocionarem. Alguns choram. Outros apenas ficam em silêncio olhando para os altares improvisados entre garrafas, copos, cadeiras de plástico e um sonzinho ambiente. E talvez aí esteja o diferencial do Boteco D’ Rua: o espaço não exige pertencimento religioso. Apenas convivência. E casos emblemáticos também.

João lembra de um rapaz que observava o bar do lado de fora, mas se recusava a entrar. Não se sabia se era preconceito ou medo, nunca ficou explicado. Certo dia, o senhor precisou usar o banheiro e o bar é o único da avenida com sanitário. Ele entrou, fez suas necessidades e resolveu ficar olhando para as imagens, principalmente a de Zé Pilintra. Até que decidiu depositar uma moeda, derramou uma cachaça e pediu para um contrato de sociedade, aguardado havia algum tempo, fosse concretizado. “Ele me disse que ficou bravo, pois sonhou com Zé Pilintra dizendo que a parceria não seria fechada. Mas, depois de um tempo, descobriu que, na verdade, seria vítima de um golpe”, lembra João.

Primeiro, a do santo!
Primeiro, a do santo! Crédito: Sora Maia

João insiste o tempo inteiro na palavra “ecumênico”. “A proposta é fazer as pessoas entenderem que o preconceito está dentro de cada um. Não é religioso, não é sexual. O preconceito é das pessoas”. Curiosamente, segundo ele, o público mais frequente nem é formado por praticantes assíduos de umbanda ou candomblé. “Muita gente que vem aqui são pessoas que já foram de terreiro e se afastaram. Aí chegam aqui, olham uma imagem, escutam uma música e dizem: ‘meu Deus, eu precisava disso’. E acabam voltando”. O bar opera quase como uma memória afetiva da fé.

O caldo servido no copo americano, o samba sem pressa, a cerveja estupidamente gelada, as mesas compartilhadas, os comerciantes locais trabalhando juntos. João fala do lugar com nostalgia de uma cidade que, segundo ele, perdeu parte da essência. Para ele, Salvador precisa resgatar o boteco de rua, o bairro repleto de gente à noite, curtindo sua própria vizinhança. No bar, promove muitas coisas típicas desse tipo de estabelecimento. Música ao vivo, como samba de roda e forró, além de eventos especiais, como o festival de churrasco, que vai ocorrer no próximo dia 31 de maio, em parceria com outros comerciantes locais do Petromar. Na Copa do Mundo, ele vai colocar um telão para exibir os jogos. Também é possível assistir partidas em geral, como Bahia e Vitória, na TV do local. Foi justamente nessa televisão que João viu a magia acontecer….

Lembra do início da matéria? Pois bem. Da pauta, eu iria direto para o Barradão ver Vitória e Flamengo, pela Copa do Brasil. O Leão precisava vencer por dois gols de diferença para eliminar o Urubu. Enquanto fazia a matéria, senti uns calafrios internos e resolvi pedir uma cerveja e pegar R$ 2 da carteira. Despejei a cevada, coloquei o dinheiro e pedi, quase em letras garrafais: “Seu Zé, aqui é para abençoar meu Vitória. Vai ser 2x0 para o rubro-negro baiano. Ajuda aí, Pilintra!”, disse, enquanto sacudia o dinheiro na frente da imagem. O resto é história…

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Stella Maris Axé