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Thais Borges
Publicado em 21 de maio de 2026 às 14:36
Não é qualquer ESG que gera valor. Não adianta uma empresa simplesmente dizer que adota práticas ESG. Essas foram algumas das principais reflexões do diretor-presidente do Instituto Ethos, Caio Magri, durante sua palestra no ESG Fórum Bahia. Com o tema ‘ESG Gera valor? Mito ou realidade', a fala de Magri abriu o segundo dia do evento promovido pelo CORREIO, nesta quinta-feira (21), no Porto de Salvador. >
“ESG que gera valor é aquele que muda a forma como a empresa toma a decisão, transforma e altera prioridades, gestão de risco, relação com trabalhadores e trabalhadoras, fornecedores, comunidade, fornecedores, territórios, acionistas e setor público", pontuou. >
Confira imagens do primeiro dia do ESG Fórum Bahia
Um dos principais focos defendidos por ele é de que o ESG não deve ser superficial, cosmético e desconectado de ações práticas. De acordo com ele, riscos climáticos, escassez hídrica, baixa diversidade, cadeias produtivas frágeis e má governança não são temas externos ao negócio. São, por outro lado, riscos empresariais, financeiros, jurídicos, operacionais e reputacionais. “A empresa que não compreende isso administra apenas uma parte da realidade e quem administra apenas uma parte da realidade geralmente toma as piores decisões”, disse. >
Magri enfatizou pontos que geram valor concretamente com ESG. Um deles é a redução de riscos. Uma empresa deve identificar seus impactos socioambientais com seriedade. “Não se trata apenas de fazer o certo por convicção, embora isso seja essencial. É necessário fazer o certo pelo jeito certo”, pontuou. “ESG não é filantropia empresarial e nem é um departamento de boas intenções. Não é apenas uma forma moderna de comunicação institucional”, reforçou. >
Ele lembrou que, atualmente, há um movimento de reações ao ESG em alguns países, de modo que a sigla passou a ser alvo de disputas políticas e ideológicas. No entanto, ainda que haja mudanças no acrônimo no futuro, os riscos permanecem, assim como essa agenda. Além disso, o ESG deve ser aplicado à realidade brasileira. >
Em meio a cadeias produtivas complexas e desigualdades profundas no Brasil, a ESG é uma forma de ter visão antecipatória. Assim, a transição de carbono, por exemplo, pode ser mais inclusiva. >
“As desigualdades e a mudança de clima no caso brasileiro são muito diferentes de qualquer métrica e plano de ação na Europa e nos EUA. É necessário tropicalizar. Não dá para importar modernos internacionais para um país que tem condições como as nossas”. >
Vantagem corporativa>
De forma geral, todos os palestrantes enfatizaram que ESG não deve ser apenas discurso - e, se for assim, pode ser uma vantagem corporativa real. No primeiro painel, Gefferson Vila Nova (designer fundador da Gefferson Vila Novel Label); Isaac Edington (presidente da Saltur e curador do evento); Loyola Neto (fundador e CEO da Ecoloy) e Thiago Awad (gerente de ESG no Sesc Bahia), discutiram sobre inovação e impacto na construção de cidades, marcas e negócios. O encontro foi mediado pela editora-chefe do CORREIO, Linda Bezerra. >
Os participantes da mesa apresentaram exemplos do que tem sido feito tanto nos setor privado quanto no setor público. “Se você encomenda mil camisas, são 200 quilos de tecido, sendo que 15% vira lixo. O que vai fazer com isso? A gente tem cases que de fato reduzem esse resíduo absurdo da indústria. Estamos falando de um dos maiores resíduos e um dos mais difíceis de resolver”, destacou Loyola Neto, da Ecoloy. >
Empresário do setor têxtil com foco na produção de abadás, ele fundou a Ecoloy, startup que transforma resíduos têxteis em valor sustentável. “O que acontece com o abadá depois de uma semana? Se o material for feito do pior tipo de tecido, a pessoa termina o bloco ou camarote e quer jogar aquela peça no lixo. Mas não tem ‘lixo’. Você está jogando no seu planeta. E a gente lançou um app que conecta o Carnaval ao usuário para que aquela camisa tenha mais vida útil”.>
Já o designer Gefferson Vila Nova pontuou que é possível criar um produto, provocar desejo nos consumidores e, ainda assim, ter sustentabilidade. Ele reconhece que isso é um desafio na moda. “Penso que é possível produzir um design focado na sustentabilidade e que a noção de consumir seja consciente, mas precisa que a sociedade faça a parte dela, comprando de pequenos produtores, que tenham uma cadeia produtiva consciente e não promovam trabalho análogo à escravidão”. >
Thiago Awad, por sua vez, falou sobre a conexão entre estratégia, operação e relacionamento para chegar ao ESG. Para ele, o futuro do comércio sai do desenvolvimento econômico para o desenvolvimento sustentável. “Antigamente, as empresas brigavam por lucro, receita e eficiência operacional. Hoje, isso não traduz totalmente. Tem repuração, impacto, legado e o investidores sabem disso”. >
Já o presidente da Saltur, Isaac Edington, lembrou que grandes eventos produzidos pela administração municipal em Salvador já têm emissões de carbono neutralizadas. “O Festival Virada foi o primeiro evento do Brasil a neutralizar emissões. O Carnaval, com uma operação gigantesca, já tem todas as emissões neutralizadas há mais de quatro edições”. >
Essa iniciativa passou a ser até uma demanda dos patrocinadores do Carnaval. “Eles não só exigem sustentabilidade como uma parte tem uma preocupação muito grande com isso. Não só eles demandam iniciativas, mas se utilizam dos dados produzidos por nós para os seus relatórios”. >
Metas>
Neste contexto, o mercado de carbono surge como uma oportunidade para o Nordeste. Esse inclusive foi o tema da segunda palestra do turno da manhã. O diretor executivo da Pólen - meio ambiente, responsabilidade social e governança, Alexandre Di Ciero, deu início à exposição falando sobre os dois tipos de mercado de carbono - o voluntário e o regulado. “O voluntário é o que a empresa não tem obrigação de fazer. Ela faz por liberalidade. E o mercado regulado é quando o governo vai estabelecer limites de emissão”, afirmou. >
De acordo com Di Ciero, as principais fontes de emissão de carbono no Brasil são o desmatamento, a agropecuária e a energia. No entanto, o país tem vantagens, a exemplo de uma matriz energética predominantemente limpa e emissões menores do que países desenvolvidos. “E tem um potencial enorme de reduzir essas emissões rapidamente se reduzir o desmatamento. Depende muito mais de gestão e controle do que de tecnologia complexa, como em outros países”. >
Por isso, ao debater que realmente importa no ESG, painelistas do último debate da manhã contaram como deixou de ser discurso e passou a influenciar decisões concretas. Na Veracel Celulose, o diretor de sustentabilidade e relações corporativas, Luiz Capia, conta que ela já foi concebida para ser uma empresa sustentável. >
Ainda que seja uma das indústrias com maior uso de água no mundo, ele conta que houve redução de aproximadamente 30%. “A água que a gente capta no rio, a gente também devolve muito mais limpa do que o que foi captado”, diz. “Nosso lema, a partir desse ano, é ser responsável por natureza, não apenas ‘pela’ natureza. Em termos de conservação, hoje, existem espécies endêmicas que saíram do grau de risco, na nossa região, pelo trabalho de monitoramento e cuidado que a gente tem”. >
Na Acelen, também houve investimentos em modernização que levaram à redução do consumo de água na refinaria e ao aumento do reuso de água, segundo o diretor de relações institucionais, Bernardo Araújo. Outra alternativa foi investir na produção de macaúba, uma planta nativa brasileira que é promissora para a produção de biocombustíveis. >
“Hoje, a gente está tendo uma transição energética para diversas fontes de energia, que não vão ser uma só. Novas fontes de energia não abandonam as que existiam anteriormente e o mundo ainda vai usar muito combustível fóssil nos próximos anos, enquanto essas outras ainda estão chegando”, pondera. >
Já o gerente de finanças sustentáveis, clima e biodiversidade do Bradesco, Guilherme Rinco, refletiu sobre como é possível sair de uma agenda de filantropia para uma agenda de negócios. Para ele, é um desafio incorporar aspectos ESG nas decisões de negócios de bancos, mas o Bradesco tem evoluído e foi pioneiro no levantamento de emissões financiadas. >
“(ESD) Deixa de ser discurso quando vira negócio. Eu não posso deixar de citar que, no final do dia, a pergunta é sempre: se eu sou ESG, vou ter benefício na caixa? Hoje, a gente tem trabalhado muito para isso”, explica ele, que reforçou a importância de fazer uma conexão entre os recursos com os projetos preparados. “Tem que ser pragmático. Tem que fazer porque faz sentido e porque vai ter retorno ambiental, social e financeiro”.>
O 5º ESG Fórum Bahia é um projeto realizado pelo Correio, com patrocínio da Acelen, Alba Seguradora - Grupo Aliança da Bahia, Confederação Nacional da Indústria - CNI, Contermas, Neoenergia Coelba, Salvador Bahia Airport, Suzano, Unipar e Veracel com apoio institucional do Alô Alô Bahia, Instituto ACM e Prefeitura Municipal de Salvador, apoio da Blueartes, Bracell, Claro, Grupo Preta, Hexacell, Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Plano Brasil Saúde, Porsche Center Salvador, Salvador Shopping, Sebrae, Sistema Comércio Bahia - Fecomércio, Sesc e Senac, Sotero e parceria com o Grupo Wish e Zum Brazil Eventos. >