Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

O chocolate que você come pode não ser chocolate: baiana cria marca pura que resgata o verdadeiro sabor do fruto

Do pé à barra, a professora Aline Rangel revela os segredos do cacau fino e como a produção artesanal no sul da Bahia está desafiando os padrões da indústria

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 9 de maio de 2026 às 11:00

Sabor de ouro baiano
Sabor de ouro baiano Crédito: Sora Maia

Até para um paladar pouco aguçado, o sabor é diferente. Nem o amargo é tão amargo assim. O chocolate da marca baiana Tiê Puro Cacau começa muito antes da barra. Seu sabor aprimorado nasce do pé, onde o fruto de ouro cresce. O sabor começa na memória de família, na roça preservada no sul da Bahia, no cheiro da fermentação da amêndoa, na escolha manual do fruto maduro e numa vontade antiga de transformar tradição em propósito. Recém-lançada no mercado, a marca aposta no modelo “Tree to Bar”, da árvore à barra, conceito que vem crescendo entre produtores de chocolate artesanal no Brasil e que acompanha todas as etapas do processo: do cultivo do cacau até o produto final. Tudo feito pela própria família. Um chocolate genuinamente baiano.

Quem comanda o projeto é a professora Aline Rangel, que trocou parte da rotina de duas décadas na educação infantil por um mergulho profundo no universo do cacau fino. O caminho, no entanto, já estava desenhado há muito tempo. O sogro dela é produtor de cacau no sul da Bahia e há anos insistia para que a família aproveitasse a qualidade da produção para fabricar chocolate.

“Meu sogro já falava: ‘Vocês precisam entrar nisso, produzir chocolate, beneficiar esse cacau’. Mas eu tinha minha profissão, meu marido também, a gente estava naquela dinâmica de trabalho e criação dos filhos. Agora eles cresceram, ficaram mais independentes, e sobrou um tempo para pensar em novos projetos. E eu estava com uma vontade muito grande de fazer alguma coisa nova”, conta.

Aline é professora de educação infantil há cerca de 20 anos. O marido, Sérgio, atua como arquiteto e construtor. O chocolate apareceu justamente na interseção entre o desejo de mudança, o histórico familiar ligado ao cacau e uma paixão antiga pelo sabor. “Eu sou chocólatra. Não faço questão de doce nenhum, doce para mim é chocolate. Tenho um paladar muito criterioso, gosto muito dessa área da gastronomia. Aí eu pensei: a família já tem essa história com o cacau, eu amo chocolate… está faltando o quê?”, relembra.

A resposta veio em forma de marca. O Tiê Puro Cacau começou a ser pensado no ano passado, ainda em fase de testes, formulações e experimentações. Há apenas dois meses, as barras começaram a chegar aos pontos de venda em Salvador. A produção ainda é artesanal e controlada de perto pela família. Mas o diferencial não está apenas no sabor. Está no processo inteiro.

No universo do chocolate artesanal, o modelo “Tree to Bar” significa rastreabilidade total. O produtor acompanha desde o cultivo do fruto até a fabricação da barra. Diferente das grandes indústrias, que compram cacau commodity em larga escala, sem controle rigoroso de origem, o Tiê utiliza cacau fino cultivado nas próprias fazendas da família, no sul da Bahia. Cada cacau é cuidado do jeito certo para se tornar chocolate.

“É um chocolate totalmente puro. Só leva cacau, açúcar e manteiga de cacau. Não tem gordura hidrogenada, aromatizante, emulsificante. A grande indústria trabalha com cacau commodity, pega tudo de qualquer jeito, torra na fumaça, mistura. Por isso, depois precisa colocar um monte de coisa para corrigir o sabor e textura”, explica Aline.

O mito do chocolate caro

Ela faz questão de separar o conceito de chocolate nobre do chocolate apenas caro. “O Lindt, por exemplo, é muito cremoso, mas não é um chocolate nobre. Ele é caro porque é importado. Quando você olha o rótulo, tem quase trinta ingredientes. Nosso chocolate é um alimento funcional, puro mesmo”, afirma.

Sabor de ouro baiano por Sora Maia

A diferença começa ainda no pé. Enquanto o cacau commodity é colhido sem critérios rigorosos, o cacau fino exige tempo, maturação correta e acompanhamento constante. Cada etapa influencia diretamente o sabor final. “O cacau precisa estar maduro. Depois da colheita ele ainda descansa um tempo antes de ser aberto. A fermentação é fundamental. É nela que surgem as notas sensoriais da amêndoa. O cacau fica cerca de sete dias fermentando e a gente acompanha a temperatura, abre a amêndoa, observa tudo”, detalha.

Outro cuidado está na secagem. Antigamente, o processo era feito em barcaças com exposição à fumaça, algo que alterava o sabor. Hoje, o Tiê aposta na secagem natural ao sol. “Tudo interfere no terroir do chocolate, igual ao vinho. Você pode usar o mesmo processo em outro lugar e ainda assim o sabor será diferente, porque depende do ambiente, do tipo de cacau, do clima, da terra.”

O nome da marca também nasce dessa relação com a natureza. O tiê-sangue, pássaro vermelho símbolo da Mata Atlântica, inspirou a identidade do chocolate. “O nosso cacau é de cabruca, plantado em sistema agroflorestal, embaixo da Mata Atlântica. O cacau, no sul da Bahia, ajudou a preservar muita mata. Então a gente quis trazer esse símbolo da preservação também”, conta.

A escolha pelo sistema cabruca não é apenas estética ou ambiental. É histórica. O cacau foi responsável por grande parte da economia do sul da Bahia e moldou a cultura da região durante décadas, especialmente no auge das fazendas cacaueiras antes da devastação provocada pela vassoura-de-bruxa, praga que atingiu duramente os produtores nos anos 1990. A fazenda e a produção são feitas justamente nesta região, em Ipiaú.

O renascimento após a vassoura-de-bruxa

O que muda na história é justamente na produção. Se antes era apenas a venda, agora comerciantes locais querem também fazer o chocolate. É uma nova maneira de redescobrir o cacau desde a vassoura-de-bruxa que devastou o estado, antes o maior produtor do mundo.

Aline viu isso de perto através da família do marido. “A vassoura-de-bruxa foi devastadora. Famílias inteiras quebraram. Meu sogro continuou trabalhando na roça, persistiu. E eu comecei a pensar que aquilo ali era um legado. Uma vida inteira dedicada ao cacau. Nenhum dos filhos tinha seguido esse caminho diretamente, então o chocolate acabou surgindo também como uma forma de continuidade”, lembra.

O projeto hoje envolve até o filho mais velho do casal, Gabriel, de 22 anos, que mergulhou no estudo da produção de chocolate e atualmente faz cursos na área em São Paulo. Foi ele, inclusive, quem ajudou a empurrar a ideia para frente. “Meu sogro já provocava Gabriel desde pequeno: ‘Faça chocolate com nosso cacau’. Um dia ele pegou um processador e fez. Aí aquilo ficou na cabeça da família”.

Sabor de ouro baiano
Sabor de ouro baiano Crédito: Sora Maia

Apesar do perfil empresarial, Aline insiste que o Tiê nasceu também como projeto de educação. E talvez seja justamente aí que a professora e a chocolatier mais se encontram.

“Eu penso muito nessa ideia de educar o paladar, ensinar as pessoas a lerem rótulos, entenderem o que estão consumindo. As crianças não conhecem o cacau. Outro dia os amigos da minha filha viram os frutos e perguntaram: ‘Mas o chocolate não é marrom?’. Então eu penso muito em projetos em escolas, mostrando todo esse processo do cacau até o chocolate”. Ela acredita que o mundo está saturado de marcas, mas carente de propósito.

“O mundo precisa de projetos. Não é só vender chocolate. É pensar em preservação, qualidade da alimentação, valorização da região produtora e das pessoas que trabalham nela”. Enquanto o e-commerce da marca ainda está em fase final de preparação, o Tiê já começa a circular em alguns pontos de Salvador, carregando muito mais do que barras de chocolate. Carrega uma cadeia inteira de cuidado, memória e identidade baiana. É possível fazer pedidos por meio do Instagram oficial da marca @tie.purocacao ou pelo WhatsApp (71) 98218-6083

Na Bahia, até o ouro é diferente. Aqui, o termo que mudou o rumo do estado sequer é metal nobre. É fruta. Aquele ouro que nasce no sul baiano, da árvore do cacau, já foi símbolo de riqueza, de luta, conflitos e muitas vezes adubado com sangue, como escreveu Jorge Amado em suas obras sobre o ciclo do cacau. Agora, tem aroma e sabor de chocolate genuinamente baiano, com recheio de sustentabilidade e conservação.

Tags:

Chocolate tiê Puro Cacau