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Moyses Suzart
Publicado em 9 de maio de 2026 às 05:00
Já comecei pecando. Mesmo casado, fui procurar flerte em um aplicativo de encontros. Nunca nem usei o Tinder, pois meu matrimônio é anterior a 2012. Mas, se existe julgamento no Juízo Final, adianto minha tese de defesa: avisei a patroa antes. “Olhe, se alguma amiga sua católica me achar em um aplicativo de relacionamento, a culpa foi de Linda Bezerra, minha editora, que pediu para fazer uma matéria sobre o app”. Certo de que eu não iria achar nada, Olívia olhou de canto de olho e voltou aos seus afazeres diários. Ali com certeza era um sinal de aprovação. Ou seria um atestado de que sou um arame liso e não meto medo em ninguém? >
Há menos de 15 dias, o aplicativo Encontro Católico, também conhecido como “Tinder Católico”, estreou em alguns estados do Nordeste, incluindo a Bahia. Com a promessa de “namoro com propósito, casamento como sacramento”, o app está disponível tanto para Android quanto para iPhone (iOS). E, obviamente, foi instalado no meu telefone. No meu perfil, uma frase simples: “reze e beba muita água”. No começo, um cadastro normal, mas deixando claro que ali o relacionamento é heteroafetivo, sem opção de orientação. Mas na verdade acabou não funcionando foi nada. >
O aplicativo simplesmente não funciona direito. Dificuldades para colocar fotos, conversar com pessoas, um bug atrás do outro. Sem sequer curtir as pessoas, apenas rolando os perfis, o próprio programa barrou o acesso, alegando que eu tinha chegado à minha cota diária de matchs. Precisaria me tornar premium e pagar um valor, mas nem o preço para se tornar assinante apareceu no app, que é lento e trava direto. Não parecia ser coisa de Deus.>
Depois de muita insistência e dias tentando, foi possível curtir alguns perfis, como o de uma moça de 19 anos que já era viúva (melhor não arriscar). Tive até um match, mas não foi possível ver quem deu, pois o Tinder católico simplesmente não abria a mensagem que a pessoa me mandou.>
Nas redes sociais, a reclamação é geral. “O app precisa de reparos, não está funcionando devidamente, não consigo colocar minhas fotos nem usar os botões de navegação, eles não aceitam os comandos. Poderia nos dar um retorno, por gentileza? Fiquei interessada em usar, mas assim não tem como. Desde já agradeço”, disse uma seguidora do perfil no Instagram.>
Outra até já desistiu: “não consegui colocar minhas fotos, só preenchi o cadastro, algumas perguntas e depois não consegui fazer mais nada. Aí eu desinstalei”, escreveu. Outros preferiram fazer piada com o aplicativo. “Massa, as varoa vão entrar na chapa”, escreveu um rapaz, que teve resposta imediata do perfil oficial: “Então o app não é para você. O foco é o altar, não ‘entrar na chapa’”, replicou.>
Foram cinco dias tentando explorar o programa, sem sucesso. Procuramos os desenvolvedores e os responsáveis, mas, até o fechamento da edição, ninguém retornou. No perfil, apenas frases de efeito, mas nenhum feedback sobre os bugs apresentados. “Com a proposta de unir tecnologia e fé, o Encontro Católico pretende criar uma comunidade onde os usuários possam construir relações duradouras, pautadas no respeito, na convivência e nos princípios cristãos”, escreve o perfil oficial do aplicativo no Instagram.>
Mesmo assim, insistimos na fé. Afinal, se muita gente encontra amor em aplicativos cheios de golpe, foto de três anos atrás e bio escrita com emoji de copo de whisky, por que um aplicativo voltado para católicos não poderia dar certo? A proposta, no papel, é até interessante. Em tempos de relações líquidas, ghosting e gente que pede pix antes do “oi, sumida”, encontrar alguém que queira casar na igreja e discutir liturgia no primeiro encontro pode parecer um verdadeiro milagre contemporâneo.>
O problema é que, antes de encontrar a alma gêmea, o usuário precisa primeiro encontrar o botão que funciona. Em vários momentos, a sensação era de que o aplicativo estava em retiro espiritual profundo, em voto de silêncio absoluto. E foi perceptível. Na última segunda-feira, quando fiz o cadastro, até a sexta-feira, o número de perfis caiu consideravelmente. Também continuavam os mesmos erros: não carregava perfil, não enviava mensagem, não mostrava curtida. Talvez seja uma metáfora moderna sobre a paciência cristã. Talvez seja só bug mesmo.>
O Encontro Católico ainda parece viver um purgatório tecnológico. Tem discurso, proposta, nicho e até público interessado, mas falta o principal: funcionar. Enquanto isso, os usuários seguem numa espécie de via-sacra digital, tentando dar match sem travar a tela. E eu sigo casado, graças a Deus, sem conseguir sequer flertar virtualmente. O que, pensando bem, talvez tenha sido o único milagre do aplicativo até agora. Minha esposa sequer me perguntou se achei alguma católica no Tinder litúrgico. Coçando a cabeça, me indaguei: será que ela já sabia que não funcionava?>