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O adeus ao gravata-vermelha? Estudo alerta que aves da Chapada estão "encurraladas" pelo calor

Pesquisa publicada na Biodiversity and Conservation revela que o aumento das temperaturas empurra espécies para o topo das montanhas; projeções indicam perda irreversível de habitat até 2050

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 9 de maio de 2026 às 05:00

Beija-flor-de-gravata-vermelha está ameaçada
Beija-flor-de-gravata-vermelha está ameaçado Crédito: Divulgação

Existem privilégios que só existem na Chapada Diamantina. Curtir uma trilha em picos, enfrentar aquele frio da altitude e, se der sorte, ter a honra de encontrar uma das aves mais bonitas do mundo, que só existem por lá: o Beija-flor-de-gravata-vermelha. Acontece, nobre leitor, que não adianta apenas apreciar. É preciso cuidar também. Num futuro não muito distante, existe a possibilidade de você deixar de curtir as trilhas, o frio e os animais também, tudo graças ao famigerado homem, ou melhor dizendo, ao que ele faz para acelerar o aquecimento global.

O papo é reto e muito preocupante. Um estudo recente realizado na Chapada Diamantina, publicado este mês na revista científica Biodiversity and Conservation, aponta que o clima, com destaque para a temperatura, é um fator determinante na organização das comunidades de aves nas áreas montanhosas da região. A pesquisa mostra que, à medida que a altitude aumenta e as temperaturas caem, há alterações consistentes não só na quantidade de espécies, mas também no papel que elas exercem no equilíbrio dos ecossistemas, conhecido como diversidade funcional. Aí vem o problema…

Com o aquecimento, a temperatura aumenta também nas montanhas da Chapada. Abre aspas: antes de você chamar este jornalista de ignorante, a tese antiga de que o Brasil não tinha montanha caiu por terra. Temos, sim, incluindo aqui na Bahia. Fecha aspas. Imagine que a temperatura elevada está subindo o pico. E as espécies que vivem por ali começam a escapar, subindo até o topo. Quando o aquecimento chegar lá em cima, as espécies não terão mais para onde ir. E não basta falar apenas na quantidade de espécies que estão ameaçadas, mas nas consequências que isso pode levar ao equilíbrio do ecossistema do qual elas fazem parte. É um efeito dominó.

Voltemos ao Beija-flor-de-gravata-vermelha. Digamos que ele tem um papel fundamental, entre outros, de distribuir sementes pelos lugares, mantendo a flora local. Se ele desaparece, não tem mais aquela paisagem linda que você vê nas trilhas.

“A perda dessas funções pode gerar efeitos em cadeia no ecossistema. Sem polinizadores, muitas plantas deixam de se reproduzir; sem dispersores de sementes, a regeneração da vegetação fica comprometida e, com a redução do controle de insetos, podem ocorrer desequilíbrios populacionais. No longo prazo, isso pode levar à perda de biodiversidade, à alteração da estrutura da vegetação e até à degradação dos próprios ambientes da Chapada”, alerta Maisa Teixeira Alves, bióloga e doutoranda em Biodiversidade e Evolução pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). Ela é autora do estudo.

O trabalho integra o projeto “Biodiversidade nas montanhas: desvendando padrões e processos ecológicos e evolutivos da biota da Chapada Diamantina – fase dois”, que monitora a biodiversidade e suas respostas às mudanças ambientais ao longo do tempo. Ele faz parte do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração da Chapada Diamantina (PELD DIAM), uma iniciativa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em parceria com as Fundações de Amparo à Pesquisa dos estados, incluindo a FAPESB.

A pesquisa avaliou mais de 170 espécies ao longo de um gradiente altitudinal no Parque Nacional da Chapada Diamantina, ou seja, uma faixa da montanha em que as condições ambientais variam conforme a altitude. As coletas foram realizadas em áreas situadas entre 400 e 1300 metros, permitindo observar como as comunidades de aves mudam ao longo desse intervalo.

Segundo Maisa, os ambientes de altitude têm sido amplamente estudados por sua importância para a biodiversidade e funcionam como laboratórios naturais para entender os efeitos das mudanças ambientais. É algo que ocorre no mundo todo. Aqui na Chapada, em especial, outras ações também podem acelerar esse processo de degradação da área.

“A Chapada Diamantina é uma região extremamente diversa, com diferentes tipos de vegetação que abrigam muitas espécies, incluindo várias endêmicas e ameaçadas de extinção. Ao mesmo tempo, é uma área que vem sofrendo pressões crescentes, principalmente com o desmatamento para a agricultura e a intensificação do turismo. Isso torna a região não só muito interessante do ponto de vista científico, mas também urgente para estudos voltados à conservação”, conta.

Genuinamente baiano e nativo da Chapada, o Beija-flor-de-gravata-vermelha já está na lista vermelha de ameaçado de extinção, justamente por suas particularidades e seu habitat restrito nos lugares mais altos. Pense como uma fuga. De um jeito simples, com as devidas proporções, esse beija-flor, assim como outras espécies, está correndo do calor e sua rota de fuga é subir a montanha. Mas ele chega ao pico e o aquecimento continua. Ele simplesmente não tem mais para onde ir.

“Em geral, essas espécies são mais vulneráveis. Como são altamente especializadas e adaptadas às condições específicas das áreas mais altas, além de terem uma distribuição restrita, elas têm menor tolerância a mudanças ambientais. Além disso, muitas já vivem próximas ao limite das montanhas, o que reduz as possibilidades de deslocamento para áreas ainda mais altas”, completa Maisa Teixeira.

A ameaça já está em curso. Segundo estudos com projeções para o futuro com espécies endêmicas da Chapada Diamantina, há indícios de perda de habitat até 2050 e, principalmente, até 2070, com risco de desaparecimento de áreas adequadas para várias espécies. Pior: dificilmente há reversão.

“Infelizmente, a forte pressão antrópica global tem intensificado as mudanças climáticas, o que dificulta reverter totalmente o risco de extinção dessas espécies endêmicas. Ainda assim, é possível desacelerar essas perdas com a redução da fragmentação dos habitats, do desmatamento e dos impactos das queimadas, que agravam a degradação ambiental na região”, completa Maisa. Se continuar assim, o privilégio de curtir a Chapada Diamantina, ao menos para nossos netos e bisnetos, vai ficar somente nas fotos e registros.

Tags:

Chapada Diamantina