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Flavia Azevedo
Publicado em 2 de maio de 2026 às 05:00
Até bem pouco tempo, uma mulher sentada sozinha em um restaurante era vista como um enigma ou, no pior dos cenários, um fracasso social à espera de resgate. Hoje, a mesma cena significa apenas uma agenda bem resolvida. Finalmente, começamos a entender que quem ocupa as mesas da cidade sem um par a tiracolo geralmente aceitou o convite mais disputado da semana: o da própria companhia. >
Essa independência do espírito tem lastro no cartório e, principalmente, no orçamento. Os dados mais recentes da PNAD Contínua mostram que a Bahia assumiu a segunda posição nacional em lares unipessoais, com cerca de 1,263 milhão de pessoas que perceberam que dividir o teto é apenas uma possibilidade na vida. Outro fato que redesenha o mapa social é que, mesmo quando há mais gente em casa, a chefia de 53,1% das residências é oficialmente feminina. >
Ou seja, não se trata apenas de ser só, mas do direito de quem paga os próprios boletos decidir cada vez mais o que fazer com o tempo livre, sem precisar, necessariamente, de companhia. Fato é que, em 2026, mulheres circulam cada vez mais por nossa cidade com a leveza de quem não presta contas nem à tradição, nem ao garçom e, finalmente, nem ao marido.>
Sala de estar>
Lise Silvani, guia de turismo aposentada, é uma entusiasta desse trânsito livre. “Adoro sair sozinha. A vida toda tive muita companhia, mas hoje, com horários irregulares, nem sempre consigo conciliar agendas. Por isso saio e adoro”, conta ela, que faz questão de ressaltar sua rotina urbana. “Vou muito para cinema sozinha, vou aos shows da Concha Acústica. Como tenho alguns problemas de visão, pego meu lugar ali na frente e, para voltar, já tenho todo o esquema de Uber e metrô. Circulo na cidade muito tranquilamente e adoro essa experiência de anonimato”.>
Esse mesmo anonimato também pode ser proteção e inspiração. Margot Azevedo, diretora da Véli, utiliza suas saídas solo como uma ferramenta criativa. “Sinto que o anonimato me protege das urgências do dia e me aconchega. De vez em quando, dou uma escapada sozinha para trabalhar ou simplesmente desenvolver novas ideias em lugares que me aguçam os sentidos. As pessoas ao redor fazem parte da dinâmica; às vezes inspiram, às vezes eu nem noto”.>
Prazer e imersão >
Para muitas, a companhia de terceiros pode, inclusive, ser um ruído indesejado em algumas situações. A advogada Thiciane Rebouças, por exemplo, é taxativa ao preferir o cinema e o teatro como programas individuais. “Gosto de ficar muito imersa no que está sendo apresentado e não dispersar minha atenção com uma conversa paralela. Não tenho nenhum problema com isso, assim como também viajo sozinha. Já fui para o Amazonas fazer esportes de aventura com guia por uma semana inteira”, revela. Thiciane admite que, embora tome cuidados com a segurança, não se priva de frequentar bares e restaurantes. “Sento, tomo um vinho ou uma cerveja e me sinto muito bem”.>
A fisioterapeuta Clarissa Maltez compartilha dessa filosofia de não depender de agendas alheias para garantir sua diversão. “Nos shows, costumo comprar o ingresso assim que decido ir. Depois vejo se alguém vai também. Se não for, tudo bem, já garanti meu lugar”, afirma. Para ela, a autonomia está ligada ao controle do próprio tempo. “Me sinto livre para ocupar espaços e não depender de ninguém para viver o que tenho vontade”.>
Mercado e acolhimento>
O setor de serviços começou a perceber que essa cliente não é exceção, mas uma tendência consolidada. Maria da Conceição, proprietária do tradicional restaurante Pedra da Sereia (Rio Vermelho), observa que o comportamento da mulher desacompanhada tem peculiaridades. “Elas ocupam o espaço de forma mais imersiva. Apreciam o mar com calma, trazem um livro ou simplesmente aproveitam para se desconectar do caos urbano”, explica. Segundo Maria, o restaurante acaba funcionando como um refúgio. “O tempo de permanência delas costuma ser maior; elas não têm pressa de ir embora. Nossa equipe é treinada para oferecer um atendimento acolhedor sem ser invasivo, respeitando esse momento de solitude”.>
No bar Bagacinho (Barra), o cenário é semelhante. Karla Baqueiro, a dona do estabelecimento, relata que mesas individuais ocupadas por mulheres já fazem parte do cotidiano da casa. “Elas procuram sempre mesas no canto ou as mais discretas. Aqui elas se sentem bem à vontade sabendo que nada e nem ninguém irá importunar, já que o espaço foi construído com esse olhar cuidadoso”, conta Karla. Segundo ela, a presença de mulheres sozinhas é encarada com naturalidade inclusive pelas outras mesas de grupos e casais.>
Política e subjetividade>
A psicóloga e psicanalista Laiz Cardozo analisa que o aumento da independência feminina, também no lazer, implica em uma ruptura com a submissão histórica. “Isso que advém como ato político e social é também subjetivo e pessoal, na medida em que elas fazem escolhas com base no próprio desejo”, explica. Para a psicanalista, a experiência de estar só pode variar, individualmente, da solidão ao retorno positivo que consolida a posição da mulher no mundo.>
Além da liberdade, em tempos de hiperconectividade, a própria definição de "estar só" foi atualizada. A escritora Aninha Franco pondera sobre essa nova realidade. “É difícil ficar só atualmente. Com um celular na mão, estamos sós? Não. Estou sempre com ele e com, no mínimo, três livros na bolsa. Às vezes adoraria estar apenas com eles em todos os lugares que frequento”, reflete.>
No fim das contas, aos poucos, Salvador ganhou uma nova dinâmica, na qual a autonomia feminina cria outros códigos e espaços. Companhias e afetos continuam importantes, claro. Mas há cada vez mais mulheres descobrindo que certos momentos podem ficar bem mais interessantes quando não são compartilhados. >
Mas fique ligada na segurança:>
Distração significa vulnerabilidade. Manter a cabeça erguida e os ombros para trás não é apenas uma questão de elegância, mas uma ferramenta de dissuasão. Guarde o celular e evite fones de ouvido com volume alto, pois o isolamento acústico impede a percepção de veículos ou pessoas se aproximando. Ao sair de qualquer transporte, caminhe de forma decidida.>
Se uma pessoa, um carro ou uma rua específica despertar um desconforto inexplicável, mude o curso imediatamente. Não hesite em entrar em um estabelecimento comercial movimentado ou acenar para uma direção vazia como se tivesse avistado um conhecido. Na dúvida, o seu bem-estar é a única coisa que importa.>
Antes de sair, informe seu trajeto a um contato de confiança e compartilhe sua localização em tempo real. Manter o celular com bateria carregada e os contatos de emergência acessíveis é o básico.>
Sempre que possível, varie seus caminhos e horários para não criar um padrão fácil de seguir. Priorize ruas bem iluminadas, com comércio ativo e fluxo de pessoas. Tenha as chaves de casa ou do carro já em mãos antes de chegar à porta, evitando a exposição desnecessária enquanto procura objetos dentro da bolsa.>
Ao ocupar bares e shows, conheça os seus direitos garantidos pela Lei "Não é Não", que obriga os estabelecimentos a oferecerem apoio imediato em casos de assédio. Vigie seu drink e, claro, nunca aceite bebidas de estranhos.>
Por @flaviaazevedoalmeida>