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“Essa porra vai desabar!”: abandono do Cine Jandaia preocupa comerciantes no Centro de Salvador

Patrimônio histórico da capital baiana sofre com infiltrações, árvores crescendo na estrutura e ausência de projetos concretos

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 3 de maio de 2026 às 08:00

Abandonado há mais de 30 anos, Cine Jandaia vira símbolo da decadência do Centro de Salvador
Abandonado há mais de 30 anos, Cine Jandaia vira símbolo da decadência do Centro de Salvador Crédito: Sora Maia

Quando o assunto é Cine Jandaia, talvez não tenha uma testemunha ocular melhor que José Nunes. Ele desafia qualquer historiador, garantindo que ninguém viveu ou sabe mais sobre aquele imponente prédio da Baixa dos Sapateiros do que o próprio. Nunes foi baleiro, pipoqueiro, segurança, comerciante, espectador, praticamente tudo do lugar. Sem contar sua rotina diária de todo santo dia ver seu antigo centro de lazer, hoje fadado a uma ruína abandonada de uma Salvador nostálgica que insiste em não ser preservada. Também conhecido como Zé das Bolsas, sua loja fica de frente para o Cine, onde ele se senta na sua cadeira de plástico, olha para o prédio e resmunga: “Essa porra vai desabar”.

Não é apenas ele que canta esta pedra arriscada. É um esparro querer passar por debaixo do Jandaia. Finos ferros de contenção tentam segurar a estrutura abandonada. Duas árvores cresceram de tal maneira, com suas raízes entrando pelas frestas do cimento, que podem derrubar a qualquer momento a fachada do prédio. Quase como uma voz de José Nunes nas redes sociais, o produtor cultural e publicitário, Sérgio Siqueira, também avisou com uma tarja preta no seu perfil: “O ex cine Jandaia pode desabar”, resumiu, como um profeta. Na sua publicação no Facebook, os comentários são de lamento e adjetivos como “bomba”, “horror”, “apunhalada no coração dos sensíveis”, desleixo, entre outros.

“Aquilo virou uma floresta. Quando o mato toma conta, dá aquela sensação das ruínas que a gente vê em filme, aquelas cidades perdidas, de algo que já foi grandioso. Quando você vê a fachada cheia de mato, passa justamente essa impressão: de algo muito grandioso”, conta Siqueira, preocupado com as consequências por trás dessa “beleza” de filmes apocalípticos. “Quando você vê as árvores entrando pelas frestas do cimento, olhando de longe, é uma coisa até bonita para uma rave, mas está ficando perigoso, porque as paredes podem cair a qualquer momento”, avisa.

Curiosamente, há 10 anos o prédio foi doado definitivamente para o Governo do Estado. Desde então, comerciantes locais passaram a ter esperança que o gigante da Baixa dos Sapateiros se reerguer, mas a única coisa que evoluiu ali foi o mato invadindo o cenário. Muitos projetos foram elaborados, até os vitrais históricos foram retirados, mas absolutamente nada foi feito para revitalização. O prédio fica sob os cuidados do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, ou melhor, de Chorão, um comerciante local que tem a chave do Cine e, por ordens expressas do Ipac, não deixa ninguém entrar. Procuramos o Instituto, mas não obtivemos retorno até o fechamento da edição.

“Nunca mais vi ninguém aqui. Eu não tenho esperança nenhuma. Ano passado veio gente aí, tiraram foto e foram embora. É só isso. Já soube que estão querendo vender para os chineses, a Baixa dos Sapateiros toda, incluindo o Jandaia. Não tenho esperança não, quem curtiu o Jandaia curtiu, agora resta só cair e causar um desastre, pois nem isso eles estão preocupados”, disse José Nunes, que fala com ódio sobre o abandono, só abrindo o sorriso quando lembra do passado.

“Dá pena ver isso assim, sem futuro. Foi aí que vi pela primeira vez um filme do Bruce Lee. Eu era baleiro quando moleque, via todo aquele povo entrando, amava ver os filmes e as peças, isso pulsava de alegria. Era o lazer de todos, a matinê do domingo tinha fila de dobrar o quarteirão. Quando chegava aqueles militares do exército, procurando as garotas, rolava briga, gritaria, era confusão. Até isso era divertido”, lembra.

Abandonado há mais de 30 anos, Cine Jandaia vira símbolo da decadência do Centro de Salvador por Sora Maia

Em 2024, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, chegou a visitar o local, mas não falou sobre projetos para o Cine.

O primeiro Cine-Teatro Jandaia surgiu em 1911, funcionando inicialmente como um galpão para cerca de 400 pessoas, voltado à exibição de filmes mudos. O espaço pertencia ao comerciante sergipano João Oliveira, dono também de outros estabelecimentos comerciais do local. Após sucessivas interdições, o primeiro cinema foi fechado em 1927. No mesmo ano, João Oliveira comprou terrenos vizinhos e iniciou a construção de um novo e mais ambicioso Cine Jandaia, mesmo sem a concretização das promessas da Prefeitura da época de ampliar a via e construir uma praça no entorno. O novo prédio foi inaugurado em 3 de julho de 1931, mas até hoje a autoria do projeto arquitetônico é um mistério.

Com capacidade para mais de 2 mil pessoas, o Cine-Teatro Jandaia rapidamente se tornou o maior e mais sofisticado cinema de Salvador. Foi, inclusive, o primeiro a exibir um filme com som em todo Nordeste. O prédio se destacou pela imponência arquitetônica e pela intensa programação cultural. Além de filmes e peças teatrais, o local recebeu bailes carnavalescos, lutas de boxe, concursos de beleza e shows circense. Até Carmen Miranda fez show lá.

Apesar do sucesso de público, o Jandaia enfrentou dificuldades financeiras ao longo de sua trajetória. Na década de 1970, acompanhando a crise dos cinemas de rua, passou a exibir filmes pornôs numa tentativa de sobreviver economicamente. O cinema funcionou até 1993, quando encerrou definitivamente as atividades. Desde então, passou a ser um prédio abandonado e deteriorado.

Vizinha de José Nunes, Jaciara Teles também tem sua loja de artesanato de frente para o Cine Jandaia. Contudo, ao contrário de Zé, ela deposita todas as esperanças dela no retorno do prédio que ela nunca viu funcionar, mas quer.

“Qualquer coisa que fizerem nesse prédio muda a história da Baixa do Sapateiro. Aqui é o centro entre a Barroquinha e o Pelourinho, uma via crucial para o Centro Histórico. Então, se esse prédio fosse reaberto, mudaria completamente a história daqui. Você olha para ele todos os dias e vê a imponência, vê o quanto está se perdendo de patrimônio histórico”, conta Teles, que já teve vários tipos de comércio no local e deposita o retorno do Jandaia como ponto de partida para a Baixa dos Sapateiros se reerguer.

“Uma revitalização do Jandaia seria o ponto inicial, o principal passo para revitalizar toda a Baixa do Sapateiro. Muitos turistas chegam aqui admirados com a estrutura do prédio e me perguntam o motivo de estar abandonado. Nem eu sei dizer”, diz. Sérgio Siqueira também se pergunta o que falta para o Jandaia ter a devida atenção.

“O que espanta é terem deixado cair uma construção tão imponente, tão maravilhosa. Porque podia ter sido reformado há muito tempo. Hoje vai custar uma fortuna. Mas tudo é possível. O homem está indo a Marte, está com robô em Marte. Então eu acho que, com boa vontade e força de vontade, dá para fazer”, completa. O Cine leva o nome de um pássaro típico do Nordeste. Sua característica é fazer muito barulho, muito canto. Na época do Jandaia em pleno funcionamento, justificada a nomenclatura. Hoje, só tem uma semelhanças: ambos estão seriamente ameaçados de extinção.

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Cine Jandaia