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André Uzeda
Publicado em 17 de maio de 2026 às 08:33
A proximidade fonética realmente facilita a confusão, ainda que o mínimo de conhecimento geográfico pudesse rapidamente desfazer o equívoco. Isso irritou, por muito tempo, o cantor e compositor Tom Zé. >
Era comum, ao dizer que tinha nascido na cidade de Irará, ouvir a réplica: “Irajá? Nossa! Você é da Zona Norte do Rio de Janeiro?”. O comentário era disparado mesmo diante da fama que Tom Zé alcançou como um artista nascido na Bahia, e que desde a década de 1960 já era reconhecido como um dos principais nomes do movimento tropicalista, ao lado dos conterrâneos Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil. >
“Eu não aguentava mais alguém me perguntando se eu era de um bairro carioca. Até que um dia tudo mudou…”, disse Tom Zé, ao revelar essa história na segunda edição da Feira do Rocha, realizada no bairro do Bixiga, em São Paulo. O artista foi um dos convidados para uma das mesas do evento na capital paulista.>
Para entender o começo desta mudança é preciso retroceder até o final da década de 1960. Nesse período, os agricultores da cidade de Irará começaram a apostar no plantio de abacaxi, substituindo o tradicional cultivo do fumo, predominante na região, mas que andava em baixa desde que a cidade de Arapiraca, no interior de Alagoas, passou a assumir o controle das vendas no Nordeste. >
A tentativa fazia todo sentido. O abacaxi precisa de sol pleno – mínimo de seis horas diárias – para se desenvolver, além de altas temperaturas alcançadas e mantidas por longo tempo no solo, aliado à umidade moderada. Exatamente tudo o que esse naco encravado no sertão da Bahia podia oferecer, com qualidade e precisão.>
O sucesso foi imediato. O abacaxi de Irará ganhou fama como o mais doce da região. Para incrementar as vendas, alguns comerciantes e agricultores ainda sustentaram a tese de que a fruta possuía faculdades afrodisíacas, ressuscitando corpos indolentes e entregando horas de divertimento libidinoso.>
Até hoje a cidade ainda produz a fruta, embora atualmente em uma escala reduzida, voltada para a agricultura familiar. Foi Itaberaba, na Chapada Diamantina, que se estabeleceu como o grande polo produtor no estado, com a variedade do tipo pérola. O município até pleiteia na Câmara dos Deputados, em Brasília, o título de Capital Nacional do Abacaxi.>
Itaberaba até pode – com o perdão do trocadilho – ter ficado com a coroa do abacaxi, mas foi Irará que imortalizou a fruta no cânone musical brasileiro.>
Em 1972, Tom Zé lançou ‘Se o Caso é Chorar’, seu terceiro álbum de estúdio. O disco saiu pela gravadora Continental, no mesmo ano em que Caetano e Gil regressaram ao Brasil, após três anos de exílio na Europa por imposição da Ditadura Militar.>
O trabalho é uma obra-prima, com músicas memoráveis, a exemplo de ‘Happy End’, ‘Menina, Amanhã de Manhã’ e ‘Senhor Cidadão’. A nona faixa do LP traz a canção ‘Abacaxi de Irará’.>
Tom Zé abre a letra parodiando a famosa carta-testamento de Pero Vaz de Caminha, quando chegou ao Brasil na esquadra de Pedro Álvares Cabral, em 1500. “Minha terra é boa. Plantando dá. O famoso abacaxi de Irará”. >
Depois, o tropicalista avança para as supostas propriedades sexuais que notabilizaram a espinhosa fruta plantada na cidade. “Moça emperrada namora. E o noivo não quer casar. Se apega ao bom Santo Antônio. E o noivo este ano ainda vai pensar”.>
E continua: “Véio viúvo com setenta anos. Ainda quer casar. Pergunto pra ele o segredo. E peço pra me contar”.>
Só então vem a resposta, em versos entrecortados e repetidos: “Falou véio. Dá um chá de abacaxi. De Irará. Que é pro noivo se animar”. Ou então: “Falou o véio. Vá comendo… De Irará. Você vai se animar”>
A canção, com sua batida divertida e sincopada, ganhou destaque, mas ficou em segundo plano diante de outras citadas acima, como letras mais elaboradas e críticas sociais mais assertivas. >
Mas alguém ainda viria a descascar esse abacaxi…>
Em 2020, no último Carnaval antes da pandemia, nasceu no bairro de Perdizes, em São Paulo, o bloco Abacaxi de Irará. A proposta do grupo é justamente celebrar Tom Zé, cantando suas músicas e engrandecendo suas invencionices artísticas. Até um boneco alegórico, no melhor estilo das escolas de samba da Sapucaí, sai às ruas estampando o rosto do querido compositor.>
“O bloco surgiu de um grupo de amigos que queria muito homenagear Tom Zé e também tocar suas músicas em uma versão mais carnavalizada, a partir do frevo, samba reggae e afoxé. A gente queria um nome tropicalista e chamativo. Daí, um um amigo lembrou da música Abacaxi de Irará, que é excelente, porque remete às origens do nosso querido tropicalista”, diz David Galasse, co-fundador do bloco e ritmista.>
A devoção é tamanha que até o circuito de rua foi definido a partir do endereço de Tom Zé. “A gente escolheu o local da concentração e a saída para passar embaixo da casa onde ele mora, no bairro de Perdizes. No primeiro ano, já foi uma loucura. Ele desceu e colocamos uma coroa de abacaxi na cabeça dele. A partir disso, ele passou a apadrinhar nosso bloco”, relembra Galasse.>
Tamanha homenagem não é à toa. Tom Zé é o tropicalista mais identificado com a cidade de São Paulo. Apesar de Caetano e Gil também terem composições sobre a maior metrópole brasileira, foi o artista de Irará quem gravou hinos como ‘São, São Paulo, Meu Amor’ e ‘Augusta, Angélica e Consolação’ – esta última um samba meloso nomeando algumas das principais ruas da cidade.>
Em setembro de 2022, Tom Zé foi eleito como imortal da cadeira 33 da Academia Paulista de Letras, sucedendo o apresentador e escritor Jô Soares. Três anos depois, recebeu da Câmara Municipal o título de Cidadão Paulistano.>
“Foi só quando o bloco Abacaxi de Irará, aqui em São Paulo, começou a ficar famoso que ninguém mais me perguntou se eu tinha nascido em Irajá. Eu tenho muito a agradecer a eles por isso. Fizeram minha música e minha cidade ficarem famosas”, disse Tom Zé, em claro sinal de generosidade.>
Assim falou o véio. De Irará.>
Esta coluna é dedicada à memória do meu bisavô Ubaldino de Almeida, que plantou abacaxi em Irará.>