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Publicado em 17 de maio de 2026 às 08:24
O fenômeno dos chamados therians — pessoas que afirmam identificar-se, em sentido espiritual, psicológico ou identitário, com animais — pode parecer, à primeira vista, apenas mais uma extravagância produzida pela internet. Muitos o tomam como curiosidade passageira, um capricho excêntrico de adolescentes entediados ou de comunidades marginais das redes sociais. >
Mas essa leitura mal toca o problema. Quando um número crescente de pessoas passa a organizar a própria consciência em torno de fantasias dessa ordem, já não estamos diante de um simples desvio pitoresco do comportamento, mas de um sintoma eloquente de desagregação cultural e intelectual. O caso dos therians importa porque revela, em miniatura, o colapso das categorias mais elementares com que uma civilização distingue o real do imaginário.>
André Fagundes
mestre em Direito ConstitucionalDurante séculos, a tradição filosófica ocidental apoiou-se numa verdade tão elementar que dispensava demonstração: o ser humano é um ente dotado de razão, e é precisamente por meio dela que lhe é possível reconhecer a realidade, discernir a ordem das coisas e governar a própria vida segundo a ordem do ser, em vez de insurgir-se contra ela com o arsenal pueril das imaginações interiores. >
Em termos simples: a consciência não inventa o mundo; ela o descobre. Pode compreendê-lo com maior ou menor clareza, pode deformá-lo em sua percepção, pode até esquivar-se dele por medo, vaidade ou interesse, mas não tem o poder de alterá-lo pela simples força da fantasia.>
Essa noção, que atravessa Aristóteles, Santo Tomás e praticamente toda a tradição filosófica clássica, foi sendo corroída, nas últimas décadas, por uma sucessão de ideologias que ensinaram exatamente o contrário: que a identidade é uma construção subjetiva soberana e que a realidade objetiva deve, de algum modo, dobrar-se às autodefinições do indivíduo.>
Aceita essa inversão, já não há razão lógica para interromper a escalada. Se o homem já não é aquilo que é, mas aquilo que imagina ser; se a verdade da identidade já não depende da natureza, mas do sentimento; se o foro íntimo se transforma em tribunal supremo do ser, então o aparecimento dos therians deixa de ser um desarranjo pitoresco e passa a revelar-se um sintoma previsível da fuga da realidade.>
André Fagundes
mestre em Direito ConstitucionalA mesma cultura que ensinou o indivíduo a desconfiar do corpo, da razão, da linguagem comum e da experiência objetiva não pode, depois, fingir surpresa quando ele resolve declarar-se lobo, lontra ou lagarto como verdade íntima de si. O absurdo, nesse caso, não está apenas na conclusão; está, sobretudo, nas premissas que a tornaram possível.>
Note-se: não se trata de metáforas poéticas, como as usadas na literatura ou na mitologia. Ao longo da história, comparar o ser humano a animais foi um recurso simbólico perfeitamente compreensível — falar da coragem de um leão ou da astúcia de uma raposa nunca confundiu ninguém sobre a natureza humana. O que distingue o fenômeno atual é que a metáfora deixou de ser reconhecida como metáfora. A imagem psíquica foi promovida à categoria de essência.>
A literatura latina já intuía os perigos inerentes à ruptura entre imaginação e realidade. Vergílio, nas Bucólicas, ao narrar o delírio das Prétides — mulheres que acreditavam haver-se transformado em vacas — descreve-as enchendo os campos com “falsos mugidos” e apalpando a própria fronte lisa em busca de chifres inexistentes, embora temessem “um arado para o pescoço” (Buc. VI, 48–51, trad. Frederico Lourenço). A tragédia, porém, não consistia numa metamorfose real, mas precisamente na dissolução da capacidade de reconhecer a própria natureza. As Prétides imaginavam-se animais; não o eram. O grande poeta romano compreendia, com a lucidez própria da tradição clássica, que a consciência humana pode alienar-se da realidade, obscurecer a percepção do real e até revoltar-se contra a ordem do ser, mas não tem o poder de transformar fantasia em verdade sobre aquilo que alguém é. Há, nessa passagem, uma intuição profundamente atual: a imaginação pode deformar a consciência, mas não substitui a realidade.>
É precisamente essa fronteira — tão clara para os antigos — que parte da cultura contemporânea parece ter perdido. O deslocamento pelo qual a fantasia deixa de ser reconhecida como fantasia e passa a reivindicar o estatuto de identidade não surgiu do nada. Ele é fruto de décadas de dissolução das categorias fundamentais do pensamento. Quando a distinção entre realidade objetiva e construção subjetiva é apagada, abre-se a porta para qualquer forma de autoidentificação imaginária.>
André Fagundes
mestre em Direito ConstitucionalO problema, portanto, não é o indivíduo que, em um fórum obscuro da internet, diz sentir-se identificado como um esquilo ou um furão. O problema é o ambiente cultural que já não dispõe de instrumentos intelectuais para dizer a ele, com clareza e sobriedade: “isso é apenas uma fantasia”.>
Uma civilização sadia dispõe dos recursos morais, filosóficos e espirituais necessários para acolher o sofrimento humano — muitas vezes agravado pelo isolamento, pela ansiedade e pela fragmentação próprios da vida moderna — sem, por isso, falsificar a estrutura do real. Pode compreender os conflitos interiores e até reconhecer as condições sociais que os intensificam, sem se ajoelhar diante deles nem abdicar da verdade objetiva.>
O que se vê hoje, ao contrário, é uma cultura tão embriagada de subjetivismo que já não sabe ajudar o indivíduo a voltar à realidade. Em vez disso, inventa novos rótulos para que ele possa permanecer no devaneio sem ser contrariado.>
Mais do que uma teoria sobre supostas conexões intrínsecas com animais, o fenômeno dos therians expõe uma desordem mais profunda: a perda dos critérios pelos quais o homem reconhece a própria natureza. Seus adeptos insistem em dizer que não se trata de fantasia, mas de identidade; a dificuldade, porém, permanece intacta, porque trocar o nome da coisa não altera a sua natureza.>
A intensidade de uma autopercepção, por mais sincera e dramática que seja, não tem o poder de converter sentimento em verdade sobre o que a pessoa é. Alguém pode julgar-se ligado a um guaxinim ou a uma tartaruga, adornar essas impressões com explicações espirituais ou psicológicas, e até transformá-las numa narrativa estável de si mesmo; nada disso prova que tal vivência exprima a sua natureza, mas somente que a imaginação, em algum ponto, tomou o governo da consciência.>
No máximo, explica como ela se percebe — ou, mais exatamente, a maneira como aprendeu a narrar-se a si mesma —, mas não a sua condição real. Entre sentir e ser permanece um abismo que nenhuma autodeclaração, nenhum jargão psicológico e nenhuma cumplicidade coletiva têm o poder de abolir.>
Quando a pergunta “o que sou?” deixa de encontrar resposta na ordem do ser e passa a ser resolvida pela construção subjetiva, desaparece qualquer critério estável capaz de conter a autoinvenção. O resultado é a multiplicação indefinida de autodefinições arbitrárias — corvo, besouro, estegossauro, mamute —, todas assentadas na mesma ilusão: a de que o sentimento pode ocupar o lugar da verdade.>
André Fagundes
mestre em Direito ConstitucionalOra, nenhuma civilização pode sobreviver por muito tempo com base nesse princípio. A ordem social, moral e espiritual depende de uma confiança mínima na inteligibilidade do real. Os therians, nesse contexto, não são a origem do problema; apenas o tornam mais visível. O que neles há de verdadeiramente inquietante não é a excentricidade da autoimagem que adotam, mas a passividade com que o mundo ao redor já não se sente autorizado a contradizê-los. Uma sociedade que desaprendeu a dizer “isso não corresponde à realidade” está intelectualmente indefesa. E uma sociedade assim é capaz de acreditar em qualquer coisa, exceto naquilo que está diante de seus olhos.>
André Fagundes é professor da pós-graduação em Direito Religioso na UniEvangélica/IBDR, doutorando em Direito Público, mestre em Direito Constitucional, parecerista e pesquisador do Centro Brasileiro de Estudos em Direito e Religião (CEDIRE).>