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Publicado em 3 de maio de 2026 às 13:26
Dias desses encontrei com um dono de restaurante num hortifruti da vida. Ele tinha um assunto urgente na ponta da língua: a dificuldade de encontrar “gente para trabalhar”. >
Ele dizia, indignado, a plenos pulmões, e buscando a minha concordância, com o seu olhar arregalado, que “ninguém queria mais trabalhar aos fins de semana! Como isso é possível? Como os restaurantes vão poder funcionar?”>
Eu senti um enorme cansaço tomando conta do meu ser, mas ainda assim, involuntariamente, fui respondendo - mentalmente, que eu não sou doida – aos seus “aforismos” coloniais, já tão desbotados.>
Mentalmente, e por trás da minha cara de paisagem bucólica, eu dizia pra ele que, esse modelo de europeu chegando aqui pra ficar rico às custas de suor preto e pobre, sob condições indignas, fim de semana e madrugada adentro, estava, finalmente, ruindo, impiedosamente, sob o jugo de saturno em áries. >
Na minha cabeça, eu sacudia os seus ombros e lhe perguntava, se ele estava a par do mundo; se estava acompanhando as notícias sobre política, economia, e mudanças de hábito e comportamento do trabalhador brasileiro. E de fontes limpas, por favor. >
Mentalmente, perguntava-lhe se já tinha ouvido falar, ao menos, em escala 5X2 – porque 4X3 poderia causar-lhe um infarto ali mesmo, em meio aos caixotes de tomates (que estavam lindos, por sinal). Eu queria recomendar-lhe o Foro de Teresina, e desejei que ele fosse esbofeteado pela Erika Hilton, mesmo sabendo que, nem assim, despertaria pra vida.>
O problema é nosso >
E como é que o seu restaurante vai funcionar? Quem sabe? O problema é seu. É nosso. Somos nós que temos que dar os nossos pulos, e nos reinventar – pra usar uma palavra tão cansada quanto perfeita – todos os dias. Porque o mundo mudou. É fazer de conta que não viu, ou trazer o assunto pra mesa, como espera-se dos adultos. Mas culpar gente oprimida, por defenderem o seu direito de viver e dizer não, não vai rolar. >
Os trabalhadores estão cansados. Cansados da opressão do regime CLT, e da instabilidade da pejotização. A classe trabalhadora chegou num ponto, em que não dá mais pra pensar em aposentadoria, porque o futuro é mais incerto do que nunca. É um dia de cada vez, não tem futuro certo pro trabalhador. É tudo imediato demais: as contas, a comida, a saúde. É imediata a sede por uma cerveja gelada; é imediata a vontade de ficar em casa com a família no fim de semana. Imediata e legítima. >
CLT OU PEJOTIZAÇÃO?>
Eu fico ouvindo essas comparações, como se nos restasse apenas decidir entre um destes dois modelos, quando na verdade, nenhum dos dois é capaz de garantir uma vida digna. Nem um e nem outro, mas ambos, e muitos outros, até que cada trabalhadora e trabalhador, que fazem esse mundo girar, possam encontrar um ponto de equilíbrio, uma zona de conforto, para viver com o mínimo de dignidade. Mínimo não, máximo de dignidade. E quem quiser que lute por eles, pelos trabalhadores, e não o contrário.>
Epílogo >
Durante os dez minutos desse encontro, eu nada falei. O discurso dele foi tornando-se mudo para mim. Eu observava-lhe os trejeitos e o mexer da boca, mas só ouvia os meus próprios pensamentos. Até que ele acabou, meio que esperando algo de mim, e a única frase que me veio à mente, foi um meme, que eu achei super oportuno:>
- Meu amigo, o povo quer gozar!>
Ele não entendeu. >
Dei-lhe um abraço, e fui tomar uma imediata cerveja.>
FIM>