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O dia em que um pássaro no 6º andar salvou a minha sanidade

Quando meu marido acordou, contei sobre a visita inesperada, torcendo que acreditasse. Ele acolheu meu delírio. Ponderou que talvez ele tivesse com fome

Publicado em 31 de maio de 2026 às 07:47

Eu vivia uma crise daquelas. Não lembro especificamente qual. E se lembrasse, confesso que não traria aqui miúdos do caos íntimo que me assolava. Por mais que me desnude em palavras, tem detalhes que não precisam escapar do nosso ninho.

Sufocada por sentimentos, me afogava na cama com um pedido silencioso de socorro. Engasgada com os não ditos acumulados. O sono não vinha fácil, mas era um alívio saber que, por algumas horas, o mundo podia parar um pouco. Diminuir a marcha. Cessar fogo. O colchão me abraçava com tanta força que eu julgava que seria incapaz de dar um passo sequer para cumprir a longa jornada do dia seguinte. Talvez não conseguisse pegar nem no tombo.

No fundo, eu tinha a esperança de que um pombo correio me trouxesse boas novas para amenizar o deserto particular. E não é que veio. Chegou embalado com raios do amanhecer. Fez barulho na janela do meu quarto. Despertei assustada. Moro no sexto andar.

Um pássaro voava levemente no horizonte dos meus olhos. Era pequeno, cor de sol. Sobrevoava com delicadeza pela rede de proteção e batia com o bico no vidro da janela. Repetiu o feito algumas vezes diante do meu olhar perplexo. Extasiado. Parecia me encarar. Bem dentro dos olhos. Me encantou e partiu. Deixando de novo o vazio.

Quando meu marido acordou, contei sobre a visita inesperada, torcendo que acreditasse. Ele acolheu meu delírio. Ponderou que talvez ele tivesse com fome. Meses atrás, nós tentamos trazer a natureza para perto. Compramos essência e colocamos o líquido em um recipiente apropriado para atrair passarinhos do lado de fora da janela. Na época, espécies variadas apareceram. Muito de vez em quando. Chegamos a eternizar em vídeo algumas visitas. Mas era sempre no entardecer. Nunca tinha visto na alvorada.

Acho que a crise tinha contribuído para que deixássemos de alimentar os pássaros. Outras coisas mais foram sendo abafadas pela rotina. O novo dia se impôs e as demandas não tiraram do meu pensamento a beleza do pássaro vestido de sol. À noite, me joguei na cama. Sonhava acordada com a leveza daquela ave para afugentar o pesadelo dos problemas cotidianos. Enxergava um precipício. Tinha muito medo e tentava me manter com as asas em movimento.

Você pode não acreditar, mas ele veio de novo. No amanhecer seguinte, despertei com a batida suave na janela. Sorri como quem recebe um amigo de longo voo. Dançou diante dos meus olhos ainda mais fascinados. Bateu com o bico na janela algumas vezes trazendo um punhado de alegria consigo. Em êxtase, movi os braços bem devagar para despertar André. Queria que ele se encantasse também. Acho que, na verdade, precisava de testemunha diante daquele presente da natureza. O pássaro continuou se exibindo para nós dois.

E se foi. A memória do nosso encontro jamais será perdida. Deixou um lembrete. Um convite para celebrar a vida com outros olhos. Com leveza e a simplicidade que torna tudo, tudinho extraordinário. Até o caos. Levantei, vesti um biquíni e fui agradecer a visita com um delicioso banho de mar. O pássaro, o mar, a natureza… sempre nos dando sinais de como escapar da gaiola, voar mais alto e desfrutar a liberdade da existência. Com mais encantamento. E, mesmo na crise, criar espaço para vestir o lado de dentro de sol. Ainda que por alguns instantes.

Fernanda Carvalho é jornalista, escritora, autora dos Livros A Luz da Maternidade e Entre Bolhas e Marés