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Moyses Suzart
Publicado em 30 de maio de 2026 às 08:06
É uma mistura de Oscar Freire, Avenida Sete, Santa Ifigênia e Passarela do Álcool, mas com um gostinho de bairro do interior. Sem contar a vantagem de estar bem pertinho do mar, o Petromar, em Stella Maris, é um dos centros comerciais mais interessantes que temos na capital baiana, que nasceu sem planejamento, mas hoje abastece milhares de famílias, seja no negócio próprio ou na praticidade de não precisar sair de lá pra nada. Quer figurinha da Copa? Lá tem. Quer consertar o ar condicionado do seu carro? Tem também. Serraria, ateliê de arte, salão de estética, beleza, peixaria, açougue, bar temático do candomblé, igreja batista, veterinário, bar… Tudinho. >
Somente na rua Euller de Pereira Cardoso, contamos 104 estabelecimentos comerciais dos mais variados tipos, como academia, moda, entre outros. O melhor de tudo é que o bairro, apesar desta característica, é também moradia. Na verdade, os dois. Um só imóvel consegue ser casa e comércio, quase simultaneamente. É como morar no trabalho e vice-versa. >
“Aqui nasceu um bairro para trabalhadores da Petrobrás. Com o tempo, as casas foram invadindo espaço e crescendo verticalmente. Aí uma pessoa colocou um comércio embaixo e a moradia em cima. O outro fez a mesma coisa, foi pegando, agora somos assim. Um bairro de moradia e comércio no mesmo lugar”, disse o comerciante e morador local, Paulo Barros. Ele é um dos poucos que não mora no trabalho. Seu ponto comercial é uma tradicional banquinha de revista, hoje cobiçada por conta das figurinhas da copa. Contudo, ele mora no local, bem próximo.>
“Temos tudo aqui, é meu mundo. Podemos encontrar de tudo no próprio lugar que moramos, praticamente não temos isso mais em Salvador. Sem contar que temos uma praia belíssima ao lado. Vou sair daqui para quê?”, resume Paulo, interrompido pela sogra que chegou bem na hora. “Sai, sim. Ele sai daqui para almoçar ou jantar na minha casa”, retruca dona Pérola Bensabath. “Isso aqui é algo impressionante, que não vejo em lugar nenhum. E nunca foi valorizado. Minha filha leva um presente para mim, sempre acho que ela comprou no shopping, mas foi aqui. Moro mais no centro e não vejo isso”, disse Pérola, que mora na região do Salvador Shopping. >
Parece que todo mundo tem um comércio lá. Luana Reis e sua família possuem ao menos sete imóveis no local. Alguns alugados e outros com pontos comerciais deles mesmo, como um que vende produtos de celular, o Capas Bahia, além de um restaurante que está em reforma, entre outros. Reformado por eles mesmos, que quebravam os azulejos ativos para rejuntar os novos quando chegamos ao local. >
Avenida 7 à beira mar
“Aqui é assim, um ajudando o outro. É como se o próprio bairro alimentasse ele mesmo. Um morador, que tem um comércio de produtos de limpeza vai na minha loja comprar capa para o seu celular ou almoçar no restaurante. Eu vou na loja dele comprar uma vassoura. E todos moram aqui mesmo, geralmente em cima do ponto. Moramos onde trabalhamos”, conta Luana, dando uma pausa no quebra-quebra do futuro restaurante. Ela decidiu deixar de ser assalariada para ter seu, ou melhor, seus próprios negócios no próprio lugar em que ela e sua família moram. >
“Essa rua mesmo, a maioria das pessoas mora em cima e trabalha embaixo. Foi uma coisa que aconteceu naturalmente, conversando um com o outro, vendo um abrir, o outro abrir também. Não tem uma data fixa para dizer quando começou. Foi acontecendo. E explodiu, porque hoje praticamente todas as ruas daqui têm comércio. Você roda uma do lado da outra e encontra tudo. Se tiver uma residência embaixo sem comércio, é raro. A maioria é loja embaixo e casa em cima. O pessoal aproveita o espaço para ganhar dinheiro, posso dizer que dá pra ganhar dinheiro, sim”, completa. O bairro é formado em blocos e todos, sem exceção, tem comércio fervilhando. Mas a Euller de Pereira Cardoso supera os demais.>
Se sobra lojas variadas, ainda faltam serviços. Não que não tenha, pois lá contamos dois pontos de reforço escolar. Os moradores sentem falta, por exemplo, de um SAC, postos da Embasa, de energia e mais bancos, apesar de ter um Caixa Eletrônico em um dos mercadinhos. >
“No dia que chegar estes tipos de serviço, já pode separar o Petromar de Salvador”, brinca Diva Machado, enquanto tomava uma cervejinha no bar, que também é mercadinho e depósito de bebida. Ela não tem comércio local, trabalha fora do bairro, mas todo dia tem que passar na rua. “É comercial, residência, mas também um lugar para ver os amigos, ainda temos aquela coisa do bairro, de conhecer todo mundo, de ficar de prosa na rua. Sábado aqui é preciso caminhar na rua por causa de tanta gente no passeio”, conta. >
Há 35 anos como morador, Roberto conta que a rua surgiu para suprir o isolamento do Petromar, que na época era longe do centro de Salvador. “Não surgiu apenas da necessidade de abrir um negócio, mas porque não tinha também. Os primeiros moradores estavam isolados. Nem ônibus tinha, comprar comida, só em Itapuã ou São Cristóvão. Aí o bairro começou a crescer, chegaram mais moradores e o comércio foi surgindo. Aí virou essa Avenida Sete à Beira-mar”, conta Roberto Miranda, carreteiro. “Fico dias fora, pensando nisso aqui. Não precisa sair para nada. Adoro pingar de bar em bar, conversar com todo mundo, tomando minha cerveja… E ainda volto com o pão!”, brinca. Geralmente os mercadinhos do local vendem pão. Panificadora, ao menos na Euler, não vimos. >
Os dias com maior movimento são sexta e sábado, este último mais movimentado do que a Avenida Sete, como garante moradores/comerciantes. “Aqui é o mundo. Esqueceu o presente dos dias das mães, vem com a mamãe, ela se produz, você compra o presente, almoçam aqui, tomam sobremesa e ainda podem tomar um banho de mar”, completa Roberto. >
Em uma Salvador cada vez mais marcada por condomínios fechados, shoppings e ruas esvaziadas de convivência e movimento, o Petromar segue na contramão. O bairro cresceu sem projeto urbanístico, mas criou algo que muitos lugares planejados perderam: senso de comunidade. Ali, comércio e moradia se misturam de forma quase inseparável. Quem vende também compra do vizinho e quem trabalha também mora.>
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