Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Flavia Azevedo
Publicado em 30 de maio de 2026 às 08:00
Até que a Operação Catarse dominasse as manchetes nesta semana, Jordan Campos era, para mim, um absoluto desconhecido. Movida pela curiosidade, visitei seu perfil no Instagram e pude confirmar que o conteúdo é aquela sopa de “diagnósticos, verdade e soluções” típica de clássicos charlatões. Porém, a audiência me intrigou: descobri que 94 dos meus “seguidores” (detesto essa palavra) estavam lá. Entre eles, alguns amigos e amigas de longa data, gente inteligente, informada, sensata, pessoas perfeitamente capazes de distinguir o “certo” do “errado”. Foi um “oxe” para cada nome que li. De alguns, demorei a me recuperar. Mas já estou bem, obrigada. Todos nós temos o direito de errar. >
Antes até do tal "conteúdo" que ele produz, ao ver a cara do “guru”, meu primeiro impulso - politicamente incorreto, dane-se - foi a desqualificação estética, porque pelo amor de deus. Jordan habita uma persona saturada por imagens de inteligência artificial, frases cenográficas e uma peruca que me lembrou Zacarias, aquele dos Trapalhões. É tipo uma versão “espiritualizada” de divulgador de bets e similares. Fico sinceramente impressionada que alguém com aquela aparência tenha conseguido convencer pessoas de que vende “cura emocional”, “saúde mental” e “equilíbrio”. >
Repare que não estou falando de “feio ou bonito”, “gordo ou magro”, “novo ou velho”, “moderno ou cafona”. Estou falando de alguém visivelmente inseguro, explicitamente histriônico e sem senso do ridículo. Há um visível excesso de “construção de imagem”, uma necessidade desesperada de parecer "especial". É difícil entender, portanto, como alguém com algum discernimento se entrega à orientação de um "guru" que traz, já na própria imagem, uns três ou quatro sintomas de desequilíbrio. Mas digamos que as pessoas não tenham percebido essa parte. Ou, até, que achem lindo. >
Jordan Campos é investigado por violência sexual e estelionato
Só que superando a aparência e avançando no conteúdo, o negócio piora muito. “Agora que ele foi desmascarado fica fácil julgar”, você pensa daí. Sim, facilita bastante. E tudo bem. Em muitos momentos, também já embarquei em viagem errada, o que imagino que tenha acontecido com alguns dos meus amigos “seguidores” do tal cara. Mas eu nunca tive ídolos, sejam eles religiosos, intelectuais, artistas ou políticos e acho que esse é o pulo do gato. >
Posso gostar, admirar, concordar, achar brilhante até. Mas idolatrar? Jamais. Então, nenhum deles ganha poder para avançar sobre minha autonomia e vontade. Espero que os amigos que encontrei no perfil do "psicoterapeuta" compartilhem comigo do reflexo automático de suspeita diante de qualquer pessoa convencida da própria “iluminação”. Em minha opinião, nos casos mais graves de abusos cometidos por “ídolos”, a falta dessa noção na vítima é condição essencial.>
Como você já sabe, Jordan é acusado de violação sexual mediante fraude, estelionato e assédio. De acordo com as investigações, ele identificava, entre as suas "seguidoras", mulheres em situações de fragilidade emocional. A partir daí, estabelecia a relação de “idolatria” e cometia os crimes. Antes, era o líder religioso de rádio AM. Agora, é o “psicoterapeuta” do Instagram cinematográfico. Mais do mesmo. Nenhuma novidade.>
Nova, pra mim, é a compreensão do fenômeno, frequentemente simplificado. A fala de Tatiana Badaró (@badarotatiana) chegou ao meu conhecimento por meio de um vídeo no mesmo Instagram. Essa pesquisadora baiana é especialista em “abuso de base dogmática”, um termo que eu não conhecia. Dentro desse tema, ela traz o conceito de "persuasão coercitiva" e faz isso de forma genial. Foi ouvindo Tatiana que entendi que o método dos “gurus” e “líderes” é muito (muito!) parecido com o dos homens que cometem violência doméstica. O que esses sujeitos fazem é transformar “amor” em submissão, tal e qual aqueles contra os quais temos a Lei Maria da Penha pra aplicar.>
(Eles também cometem crimes do mesmo tipo contra crianças, adolescentes e até contra outros homens. Não esqueço de um amigo que ficou obcecado por um pai de santo, a ponto de não marcar qualquer viagem sem pedir permissão. Acabei encontrando esse tal “sacerdote” que, evidentemente, depois de uma conversa rápida, já não foi com minha cara. Tomei isso como um atestado da minha boa saúde mental. Não preciso lhe dizer que a história do meu amigo terminou de forma horrível. Conforme esperado.) >
A estratégia deles já está bem explicada: por meio do inicial “acolhimento”, o “terapeuta”, o “mentor”, o “guru” ou qualquer nome gourmetizado passa a ocupar o lugar de alguém que enxerga o que ninguém mais enxerga e sabe o que ninguém mais sabe. Aí, as pessoas entregam a ele, além da confiança, também interpretação de realidade. Aos poucos, a percepção individual vai sendo substituída pela lente do “líder”. O sujeito, então, deixa de pensar “o que eu acho?” para pensar “o que ele acha?”. Pronto, perdeu-se a autonomia e a vontade própria.>
Esse processo acontece aos poucos, com escuta, validação e criação de “pertencimento” ao ambiente controlado pelo "líder". Em seguida, vem o isolamento gradual de quem questiona, a construção da ideia de que “ninguém entende você como eu” e, finalmente, a dependência completa travestida de “processo de cura” ou de "purificação" ou de "aprendizado". Nesse momento, a vítima já não confia mais na própria percepção porque foi treinada a interpretar dúvida como fraqueza, crítica de terceiros como inveja e desconforto como “resistência”. É um processo sofisticado de domesticação psicológica que funciona mais vezes do que gostaríamos. Mas por que?>
Provavelmente, porque nossa sociedade continua eroticamente fascinada por figuras “iluminadas”. A gente gosta demais de gente que fala com convicção absoluta. Existe quase um tesão coletivo por pessoas que parecem ter respostas definitivas para tudo. E isso vale para líderes religiosos, coaches, políticos, terapeutas, "influenciadores" e até certos empresários tratados como filósofos só porque aprenderam a falar olhando fixamente para a câmera. O brasileiro médio vive numa eterna busca por um pai simbólico que organize o caos da existência em quinze slides e uma assinatura premium. Ou dentro de uma igreja. Ou ao redor de uma fogueira, no meio do mato. Minimamente, a imensa maioria procura por alguém sobre quem possam escrever “me representa”, nas redes sociais.>
É importante popularizar o conceito "persuasão coercitiva". Talvez, outras pessoas precisem entender que esse é um fenômeno previsível, que tem o passo a passo já mapeado. Acho urgente que esse conhecimento circule não apenas entre psicólogos, pesquisadores e operadores do Direito, mas também dentro das casas, nas escolas e nas conversas cotidianas. Entender esse processo ajuda a polícia e a Justiça a reconhecerem mecanismos sofisticados de manipulação. Por outro lado, ajuda também a população a entender uma coisa muito simples: nenhum ser humano deve ocupar o lugar de líder supremo da consciência de outro ser humano. O desejo por esse status já e péssimo sinal na personalidade. Pessoas honestas, inclusive, costumam se recusar a assumir esse tipo de “autoridade”. >
Qualquer "tratamento" ou “ajuda” que dependa de submissão, de devoção e obediência cega, já traz, em si, algo errado. Principalmente, pelo óbvio: toda vez que alguém passa a existir acima da crítica e do questionamento, o terreno para o abuso já começou a ser preparado. Poder criticar e questionar é a base de relações saudáveis, seja na vida familiar, espiritual, intelectual ou profissional. A liberdade de ficar ou ir embora também é essencial, seja qual for o ambiente e a configuração hierárquica.>
Cresci numa família onde idolatrias não eram permitidas de jeito nenhum. Mais do que isso, meu pai e minha mãe – lideranças máximas na infância e adolescência - nunca estimularam obediência cega, nem a eles próprios. Lá em casa, perguntar “mas por quê?” nunca foi afronta. Entendemos que respeito é outro papo. Hoje eu sei que crianças educadas para idolatrar pai e mãe tendem a procurar novos “donos da verdade” quando ficam adultas. Essa carência talvez seja das principais vulnerabilidades. O que me faz concluir que, com uma educação livre de "altares", é possível compreender o processo, identificar e punir criminosos. Quem sabe até diminuir a quantidade de casos.>
Por @flaviaazevedoalmeida>