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Pacientes que perderam a visão após mutirão de catarata em Salvador iniciam reabilitação

Onze pessoas tiveram de passar por evisceração ocular após complicações em cirurgias realizadas na clínica Clivan

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 14 de março de 2026 às 05:00

Clivan permanece interditada e com o contrato suspenso enquanto os desdobramentos seguem sendo acompanhados pelas autoridades sanitárias
Clivan permanece interditada e com o contrato suspenso enquanto os desdobramentos seguem sendo acompanhados pelas autoridades sanitárias Crédito: Arisson Marinho

A rotina de dezenas de famílias baianas mudou drasticamente após o mutirão de cirurgias de catarata realizado pela clínica Clivan, localizada na Avenida Garibaldi, no fim de fevereiro. O que deveria ser um procedimento relativamente simples terminou em tragédia para um grupo de pacientes. Ao todo, 11 pessoas perderam a visão após complicações graves nas cirurgias e tiveram de passar por evisceração ocular, procedimento extremo que remove o conteúdo interno do olho. Agora, após a fase inicial de tratamento médico, começa uma nova etapa marcada por reabilitação, apoio psicológico e adaptação à vida com deficiência visual.

Segundo a Secretaria Municipal da Saúde de Salvador, a unidade permanece interditada e com o contrato suspenso enquanto os desdobramentos seguem sendo acompanhados pelas autoridades sanitárias. Dos pacientes submetidos ao procedimento, 26 continuam em acompanhamento pela rede pública de saúde, sem previsão de alta neste momento.

Entre eles estão os 11 casos mais graves, nos quais as complicações evoluíram para a perda definitiva da visão. Esses pacientes precisaram passar pelo procedimento de evisceração ocular e seguem sob acompanhamento especializado. De acordo com a secretaria, todos continuam sendo assistidos pela rede pública, com revisões periódicas definidas individualmente conforme o quadro clínico de cada pessoa.

Se o impacto físico já é enorme, o emocional costuma ser ainda mais profundo. Tanto que das famílias que procuramos, ninguém quis falar, pois estão ainda muito abalados com a situação. A perda repentina da visão exige um processo complexo de adaptação, que envolve não apenas tratamento médico, mas também suporte psicológico e reabilitação funcional. É justamente essa etapa que começa agora, com o encaminhamento das vítimas para atendimento especializado no Instituto de Cegos da Bahia, uma das principais instituições do estado voltadas à reabilitação de pessoas cegas ou com baixa visão.

A rotina de dezenas de famílias baianas mudou drasticamente após o mutirão de cirurgias de catarata realizado pela clínica Clivan, localizada na Avenida Garibaldi, no fim de fevereiro por Arisson Marinho

Para quem trabalha diariamente com esse tipo de situação, o impacto de casos como esse também é grande. “Receber uma demanda como essa nos mobiliza muito, tanto do ponto de vista profissional quanto humano. O Instituto de Cegos da Bahia tem uma longa trajetória na habilitação e reabilitação de pessoas com deficiência visual, mas cada caso de perda súbita da visão traz uma carga emocional muito grande”, afirma a coordenadora médica do instituto, Fátima Neri.

Segundo ela, o primeiro passo é garantir acolhimento e avaliação clínica completa para cada paciente. “Em situações como essa, precisamos oferecer acolhimento, suporte oftalmológico por especialista em baixa visão para avaliar as perdas funcionais, além de suporte técnico e humano para que essas pessoas consigam reorganizar suas vidas da melhor forma possível. Nosso papel é mostrar que, mesmo diante de uma mudança tão brusca, é possível reconstruir autonomia, dignidade e qualidade de vida”, explica.

O atendimento dos pacientes seguirá um fluxo estruturado entre a rede municipal de saúde e o instituto. Após o encaminhamento pela Secretaria Municipal da Saúde, cada pessoa passará por uma avaliação oftalmológica detalhada antes de seguir para outras etapas do acompanhamento. O Instituto vai preservar a identidade de todos e todas.

Esse cuidado, segundo a médica, vai muito além do aspecto clínico. “O acompanhamento começa pelo cuidado médico e oftalmológico para avaliar o quadro e verificar se existe alguma possibilidade de recuperação visual ou de estabilização da condição. Também avaliamos as perdas funcionais e orientamos o retorno às atividades diárias. Mas é fundamental oferecer apoio psicológico, porque a perda repentina da visão gera um impacto emocional enorme, com sentimentos de medo, insegurança e luto pela perda da acuidade visual”, afirma.

O processo de reabilitação costuma envolver diferentes profissionais. Psicólogos, terapeutas e especialistas em baixa visão ajudam os pacientes a reconstruir gradualmente a autonomia no cotidiano. Esse trabalho inclui desde a adaptação às atividades básicas até o uso de recursos de acessibilidade que auxiliam na locomoção, comunicação e acesso à informação.

A avaliação clínica também busca identificar se existe algum nível de visão preservada que possa ser aproveitado no processo de reabilitação. “Primeiro fazemos uma avaliação oftalmológica completa para analisar a condição visual, a acuidade em ambos os olhos e a possibilidade de algum tratamento clínico. Depois realizamos uma avaliação psicossocial e, caso exista baixa visão no outro olho, elaboramos um plano terapêutico individual de reabilitação”, explica a médica.

Cada paciente terá um acompanhamento específico, definido a partir das necessidades individuais. O objetivo é permitir que a pessoa consiga retomar atividades diárias com o máximo de independência possível.

“Já temos uma programação estruturada. Vamos fazer uma avaliação oftalmológica minuciosa, analisar a condição visual dos dois olhos e, quando necessário, prescrever correção óptica. Também avaliamos perdas funcionais relacionadas à mobilidade ou ao tipo de trabalho que a pessoa exercia, principalmente quando a atividade exige visão binocular. A partir disso, toda a equipe multidisciplinar participa da definição do plano de reabilitação”, detalha Fátima Neri.

Para especialistas da área, a reabilitação visual é um processo que exige tempo, acompanhamento constante e apoio familiar. Em muitos casos, os pacientes precisam reaprender atividades básicas, desenvolver novas formas de orientação espacial e utilizar tecnologias assistivas para manter a independência.

Enquanto essa nova etapa começa, o caso segue sob investigação e acompanhamento pelas autoridades de saúde. A clínica responsável pelo mutirão permanece interditada, e a Secretaria Municipal da Saúde afirma que continua monitorando todos os pacientes envolvidos.

Para as vítimas e suas famílias, no entanto, o desafio mais imediato está na reconstrução da vida a partir de agora. O processo de reabilitação pode levar meses ou até anos. Será um caminho gradual, feito de adaptação, aprendizado e apoio especializado. É justamente nesse percurso que entram as equipes de reabilitação e acolhimento. Com o encaminhamento para o Instituto de Cegos da Bahia, os pacientes começam agora uma nova fase: transformar uma tragédia médica em um processo de reconstrução da autonomia, da autoestima e da qualidade de vida.

Tags:

Clínica