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Jorge Cajazeira
Publicado em 23 de maio de 2026 às 17:00
Existe uma pergunta politicamente incômoda, mas economicamente fascinante: por que Neymar, que nunca ganhou uma Bola de Ouro da FIFA como melhor jogador do mundo, vende infinitamente mais camisas da Seleção Brasileira do que Marta, eleita diversas vezes a melhor jogadora do planeta? >
A resposta irrita ideólogos, mas encanta economistas: porque o mercado não funciona com decretos morais. Funciona com desejo humano.>
Marta talvez represente uma história mais admirável. Sua trajetória é extraordinária. Ela venceu preconitos, rompeu barreiras históricas e construiu um currículo esportivo monumental. Tecnicamente, foi mais dominante em sua modalidade do que Neymar jamais conseguiu ser na dele. Ainda assim, quando uma loja esportiva coloca as duas camisas lado a lado, o consumidor reage de forma brutalmente simples: compra muito mais a camisa ligada a Neymar.>
Isso ocorre porque o mercado não premia virtude abstrata. Ele premia atenção, identificação emocional, espetáculo e capacidade de mobilizar massas. O capitalismo possui inúmeros defeitos, mas tem uma característica quase científica: ele mede comportamento real, não intenções nobres.>
Durante décadas, teorias políticas tentaram convencer o mundo de que o coletivo deveria se sobrepor ao indivíduo, que o protagonismo pessoal seria uma construção burguesa ou que carisma e idolatria seriam distorções sociais. A realidade, porém, insiste em desmentir os manuais ideológicos. As multidões continuam procurando heróis. Continuam consumindo símbolos. Continuam pagando mais por aquilo que desperta emoção.>
O fenômeno Neymar não é apenas esportivo. É econômico, cultural e psicológico. Ele vende porque gera conversa, paixão, controvérsia, admiração e ódio na mesma intensidade. Em linguagem de mercado, Neymar concentra atenção. E atenção, no século XXI, talvez seja o ativo mais valioso da economia mundial.>
O mais curioso no fenômeno Neymar é que ele ultrapassou há muito tempo a fronteira do desempenho esportivo puro. Em muitos jogos recentes, mesmo sem apresentar o melhor futebol do mundo, continua atraindo multidões aos estádios, movimentando audiência global, patrocinadores bilionários e uma máquina emocional que poucos atletas da história conseguiram construir.>
Há algo quase irracional na relação das pessoas com Neymar. Os argentinos, historicamente os maiores rivais do futebol brasileiro, frequentemente gritam seu nome nos estádios. Em qualquer excursão internacional, crianças se amontoam para vê-lo passar. Em aeroportos, hotéis ou centros de treinamento, o frenesi é semelhante ao de estrelas do rock dos anos 1980. Não se trata apenas de futebol. Trata-se de magnetismo humano.>
E aqui surge uma ironia extraordinária para os defensores das teorias que tentam reduzir o indivíduo ao coletivo: até mesmo sociedades organizadas sob fortes tradições socialistas se rendem ao fascínio pelo craque brasileiro. Em Cuba, onde o discurso oficial durante décadas exaltou a primazia do coletivo sobre o estrelismo individual, jovens usam camisas de Neymar como símbolo de status e admiração. Na China, país que mantém forte controle estatal sobre a sociedade, Neymar é tratado como um ícone pop global. Seu rosto aparece em campanhas publicitárias, videogames, redes sociais e produtos de consumo com uma força impressionante.>
Por quê? Porque o ser humano não funciona como imaginam os manuais ideológicos. Pessoas não se apaixonam por planilhas sociais. Pessoas se conectam com personagens, talento, irreverência, drama, estilo e emoção. Neymar vende porque representa entretenimento em estado bruto. Ele simboliza o garoto que jogava seu baba na Praia Grande que virou celebridade planetária, o improviso brasileiro, a ousadia estética, a vida espetacularizada das redes sociais e até mesmo a imperfeição humana transformada em narrativa pública.>
É exatamente por isso que ele vale tanto dinheiro. Não apenas pelos gols que marca, mas pela atenção global que captura. O mercado não remunera somente eficiência técnica. Remunera capacidade de gerar desejo coletivo. E Neymar, gostem ou não seus críticos, talvez seja um dos maiores geradores de atenção da história recente do esporte mundial.>
E é exatamente aqui que a doutrina marxista começa a tropeçar na realidade.>
Karl Marx imaginava um mundo movido essencialmente por estruturas econômicas coletivas, classes sociais e relações materiais de produção. O indivíduo seria apenas uma peça do sistema. O heroísmo pessoal, o culto às celebridades e a concentração extrema de valor em torno de uma única figura seriam quase distorções do capitalismo. A prática mostrou outra coisa: seres humanos são profundamente atraídos por indivíduos excepcionais.>
O mercado do futebol talvez seja uma das maiores derrotas práticas da lógica marxista. Nenhuma teoria conseguiu eliminar o fascínio popular pelo talento raro, pelo ídolo improvável, pela figura carismática que mobiliza multidões. O consumidor não compra apenas utilidade. Compra narrativa, emoção e pertencimento simbólico.>
A própria Nike entende isso perfeitamente. Empresas globais não operam movidas por romantismo ideológico, mas por métricas frias de mercado. Atenção gera desejo. Desejo gera consumo. Consumo gera lucro. Simples assim.>
Quando especialistas afirmam que a presença de Neymar vai aumentar significativamente as vendas da camisa da Seleção Brasileira, não estão fazendo militância esportiva. Estão apenas descrevendo o funcionamento da natureza humana dentro da economia contemporânea. O mercado pode até parecer injusto aos olhos dos teóricos da igualdade absoluta. Mas ele possui uma honestidade brutal: remunera aquilo que mobiliza paixão coletiva.>
E poucas pessoas no planeta mobilizam tanta paixão quanto Neymar.>
Claro que os críticos do capitalismo moderno adoram usar Neymar como símbolo máximo da decadência moral contemporânea. Afinal, ele desfila entre mansões cinematográficas, carrões italianos que custam mais do que apartamentos inteiros, relógios suíços absurdamente caros, jatinhos particulares e festas cercadas por modelos estonteantes que fariam qualquer militante anticapitalista sofrer um colapso ideológico instantâneo. Neymar parece viver dentro de um videoclipe permanente onde o excesso virou rotina e a discrição morreu atropelada por uma Lamborghini.>
E talvez seja exatamente isso que provoque tanto ódio disfarçado de superioridade moral. Porque, no fundo, milhões de pessoas que passam o dia criticando “a desigualdade estrutural do sistema” param secretamente alguns minutos para acompanhar no Instagram justamente a vida que fingem condenar. O ser humano possui essa contradição deliciosa: denuncia o luxo enquanto sonha silenciosamente em experimentá-lo. Mundo injusto e desigual? E eu aqui morrendo de inveja dele.>
Carlão Ancelotti, meu lindo, grato por levar o nosso craque no seu time. Afinal, o diabo quer vestir Nike. Já vou comprar uma camisa oficial com o nome dele.>
Jorge Cajazeira é Ph.D. pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP) e consultor internacional de empresas>