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Profissões com maior número de vagas têm maior número ocorrências de acidentes de trabalho

Alta rotatividade, demanda do mercado e falta de cumprimento de normas contribuem para o cenário

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 30 de março de 2026 às 05:00

Profissões com maior número de vagas lideram ocorrências de acidentes de trabalho
Profissões com maior número de vagas lideram ocorrências de acidentes de trabalho Crédito: Pexels

Uma intersecção amarga conecta dois rankings do mercado de trabalho: as profissões que lideram o número de acidentes laborais também são as que mais têm vagas de emprego formal na Bahia. Sete das ocupações com maior número de vagas anunciadas na última semana estão entre as 30 ocupações com maior número de acidentes de trabalho entre 2020 e 2025.

Entre essas vagas, setores como a construção civil e a área de saúde, além de segmentos industriais, se destacam na liderança. A ocupação com maior número de acidentes de trabalho - pedreiro, com 6025 ocorrências ao longo do período analisado - é também a quinta profissão com mais vagas anunciadas até a última quinta-feira (26).

Engenharia Civil, construção, obras e pedreiros por Shutterstock

Eram 11 postos apenas com esse termo, sem considerar aquelas colocadas como servente de obras (10 vagas) e ajudante de obras (4). Os números consideram os atendimentos em saúde segundo o Datasus em relação às vagas anunciadas no Sine Bahia a partir de um levantamento feito pela reportagem.

Além de pedreiro, a lista com as 10 ocupações com maior número de acidentes segue com soldador, trabalhador agropecuário em geral, técnico de enfermagem, operador de máquinas fixas, enfermeiro, trabalhador volante da agricultura, servente de obras. faxineiro e mecânico de manutenção de automóveis. Esses números dizem respeito aos registros de atendimentos em unidades de saúde e são diferentes, portanto, dos números de afastamentos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Já o maior número de vagas foi para costurador de calçados (que pode ser contabilizado entre os acidentes de ‘trabalhador polivalente da confecção’), receptador de pneu, repositor, pedreiro, servente de obras, fiscal de prevenção e perdas, carpinteiro, vendedor e auxiliar instalador de sistemas elétricos.

“A persistência de altos índices de acidentes de trabalho em setores como a construção civil, a área da saúde e a agricultura não é uma coincidência, mas sim o resultado de uma complexa interação entre a natureza inerente das atividades, as condições em que o trabalho é executado e, muitas vezes, uma cultura de prevenção insuficiente. Cada um desses setores possui um conjunto específico de fatores de risco que, quando não gerenciados adequadamente, culminam nos tristes números que observamos”, diz a advogada Dervana Coimbra, presidente da Comissão Especial de Meio Ambiente e Segurança do Trabalho da Ordem dos Advogados do Brasil - Seccional Bahia (OAB-BA).

De acordo com a procuradora Rosângela Lacerda, coordenadora da Área de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho e da Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora do Ministério Público do Trabalho (MPT) na Bahia, o número de acidentes laborais no Brasil é elevado principalmente por uma cultura de não cumprimento das normas regulamentadoras. Isso porque o Executivo federal, por meio do Ministério do Trabalho, indica condutas que devem ser adotadas para que os empregados não tenham doenças ocupacionais, doenças de longo prazo ou acidentes em si.

“Essas normas são fundamentais, mas muitas vezes a observância delas tem um custo elevado e a empresa não cumpre. Muitas acham mais interessante descumprir, porque não vai ter o custo com a norma e vão ter eventuais reclamações trabalhistas. Para as empresas, elas (as reclamações) vão custar mais barato que as normas, porque a implementação exige aquisição, instalação e revisão”, pontua.

Custos

Em geral, equipamentos de proteção individual - como botas, capacetes e óculos - são baratos. Segundo a procuradora Rosângela Lacerda, do MPT, geralmente as empresas cumprem essa parte. Já os de proteção, como os Guard rail (defensas metálicas), balancins e telas, por outro lado, são mais custosos.

Além disso, a falta de treinamento constante também leva ao alto número de acidentes nessas áreas. Na construção civil, por exemplo, é preciso haver treinamentos para trabalho em altura, operação em máquinas e instalações elétricas de forma periódica. Ainda de acordo com a procuradora, no entanto, muitos empregadores não fazem isso. “Muitos não fazem porque acham que não devem investir em mão de obra, talvez por uma descartabilidade do ser humano mesmo, e por ter uma rotatividade muito alta. São trabalhadores que muitas vezes ficam pouco tempo naquelas funções e mudam muito de um emprego para outro”, explica.

Isso está diretamente ligado à maior oferta de vagas. “Tem mais vagas pela rotatividade. É uma mão de obra que não costuma ficar. E a gente observa também que o Brasil está vivendo um período de aquecimento econômico, então novas vagas vão surgindo e não vão sendo preenchidas, porque muitas vezes não é uma mão de obra especializada”, acrescenta Rosângela.

Além disso, há fatores como o envelhecimento da população e a expansão dos serviços, a exemplo da saúde, que geram uma demanda contínua de postos de trabalho, como lembra a advogada Dervana Coimbra, da OAB-BA. “Contudo, essa demanda se choca com a dura realidade das condições de trabalho. O desgaste físico, os baixos salários em funções de entrada, a informalidade e, principalmente, a alta exposição a riscos de acidentes e doenças fazem com que muitos trabalhadores não permaneçam por longos períodos nessas ocupações", pontua.

A alta rotatividade, segundo ela, cria um vácuo constante de vagas que precisam ser preenchidas e acaba por inflar artificialmente a oferta. Para a advogada, a própria rotatividade se torna um fator que potencializa os acidentes de trabalho.

“A pressa em colocar o novo empregado para produzir, sem a devida integração e capacitação em segurança, e melhoria das condições de trabalho como um todo, fecha um ciclo vicioso: a periculosidade gera rotatividade, e a rotatividade aumenta a periculosidade. Portanto, entendo que a grande oferta de vagas certamente decorre também, direta ou indiretamente, da ausência de condições de trabalho dignas e seguras oferecidas ao trabalhador", reforça.

Na construção civil, há um alto índice de acidentes envolvendo quedas, choques elétricos e desabamentos, segundo o diretor de saúde e segurança do Sintracom (sindicato que representa os trabalhadores da indústria da construção), Arilson Ferreira.

“É importante buscar sempre as ações e proteções coletivas, individuais e cumprimento das normas reguladoras", diz ele. Segundo Ferreira, é preciso buscar ações rápidas de órgãos públicos, com mais fiscais de trabalho. "Por fim, temos que qualificar grupos de trabalhadores bem treinados para esses exercícios de risco grave de acidente. Não são os EPIs que vão mudar, são ações e proteções coletivas bem aplicadas", enfatiza.

O Sinduscon, que representa a indústria da construção, foi procurado, mas ainda não enviou posicionamento. O espaço segue aberto.

O que fazer

Quando o trabalhador sofre um acidente de trabalho, após procurar atendimento médico imediatamente, deve guardar também todos os documentos médicos, como atestados, laudos, receitas e pedidos de exames. De acordo com a advogada Dervana Coimbra, presidente da Comissão Especial de Meio Ambiente e Segurança do Trabalho da OAB, eles serão a prova material da lesão sofrida.

A empresa deve emitir uma Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), que registra o acidente perante o INSS, até o primeiro dia útil seguinte ao da ocorrência do acidente. Se o trabalhador for afastado do trabalho por mais de 15 dias, deve receber o benefício de auxílio por incapacidade temporária acidentário (antigo auxílio-doença acidentário).

“A luta pela segurança no trabalho não se esgota na responsabilização individual de uma empresa após um acidente. É fundamental pensar em mecanismos de responsabilização coletiva e, mais importante, no cumprimento rigoroso das obrigações preventivas que visam, justamente, evitar que as tragédias aconteçam", diz ela. É possível responsabilizar as empresas de forma coletiva e qualquer pessoa pode fazer uma denúncia à Superintendência Regional do Trabalho ou ao MPT.

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Trabalho Vagas Trabalhadores Saúde Saúde no Trabalho