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Quando a fé e violência se cruzam: o improvável encontro entre Irmã Dulce e o cangaceiro Volta Seca dentro de uma prisão baiana

A futura santa se encontrou com um dos cabras mais temidos do bando de Lampião, preso quando ainda era uma criança e cumpriu pena em Salvador. Dulce tocou sanfona pra ele

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 29 de novembro de 2025 às 05:00

Foto histórica de Irmã Dulce e o cangaceiro Volta Seca
Foto histórica de Irmã Dulce e o cangaceiro Volta Seca Crédito: Acervo Valber Carvalho

No meio da insistência em rotular vítimas e atores do cangaço, numa divisão artificial de contos de fada limitados a mocinhos e bandidos, estava uma freira que pregava a importância de amar aqueles que ninguém quer amar. Talvez não tenha pisado em terras baianas uma figura com a capacidade de ignorar currículos de assassinos para pregar o perdão. E foi neste cenário, entre fé e violência, que as histórias de Irmã Dulce e o cangaceiro Volta Seca, um dos mais ardilosos cabras de Lampião, se cruzam. Este encontro, e por que não amizade, aconteceu na antiga penitenciária de Salvador que poderia ser tema da melhor literatura de cordel da vida real: a santa e o cangaceiro.

O ano era 1939. Um ano depois da morte de Lampião, em Angicos. Dulce ainda dava os primeiros passos na sua missão e tinha 24 anos. Volta Seca tinha 21 anos e já estava há sete preso. Isso mesmo, a conta não está errada. O bandoleiro permanecia detido desde os 14 anos no Presídio Engenho da Conceição, onde hoje é o Hospital de Custódia e Tratamento do Estado da Bahia. Falaremos disso mais adiante. Aos sábados, o Anjo Bom da Bahia passou a visitar o presídio para levar a palavra de Deus, conforto, amor, música e alguns cigarrinhos (dizem que até um licorzinho também). Dulce era mãe, não madrasta. Eis que ela descobre que tinha um cangaceiro preso. E, logicamente, mandou chamar. Depois de relutar, o bandoleiro acabou indo até o pátio ver quem era. Ficou de longe observando.

“Venham pra cá meu filho, eu não mordo”, disse Dulce para Volta Seca, que contava isso em vida e está no livro ‘As Quatro Vidas de Volta Seca’, de Robério Santos. A santa baiana tinha sua arma infalível: uma sanfona. Ela começou a tocar no meio de bandidos, assassinos e outros criminosos (ou não). Naquela hora, ninguém era perigoso. Como Daniel na cova dos leões. Todos em volta de Dulce, calados, incluindo Volta Seca, que já estava próximo dela, escutavam atentos ouvindo a freira tocar.

Naquele momento, nem os guardas faziam proteção, tamanha paz. No repertório, Dulce cantou ‘Mulher Rendeira’, canção em que é atribuído a cangaceiros. Alguns dizem, inclusive, que o próprio Lampião fez. Logo Volta Seca lembrou do seu tempo e começou a dialogar (e cantar) com Dulce. A admiração foi imediata e um dos cabras mais perigosos de Lampião estava rendido. Dizem que, após o encontro, foi possível ver um sorriso no rosto dele, que voltava para cela assobiando.

Volta Seca, após solto, sempre relatou este encontro, mas não existia registro, até que o jornalista e escritor, Valber Carvalho, encontrou uma única foto do dia histórico. Ele achou enquanto escrevia a biografia de Dulce, que se transformou no livro ‘Além Da Fé - A Vida De Irmã Dulce’. A garimpada de Valber foi além dos territórios brasileiros. Indo a fundo, que resultou inclusive num segundo livro, fez conexão com a sede da Congregação da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, na qual Dulce pertencia, e começou a pedir documentos e fotos de lá, escaneadas. Foi aí que o registro deste encontro chegou, em plena pandemia da Covid-19.

“Muitas fotos chegavam sem indicação, como essa. Fui olhando, olhando, reconheci que se tratava de um penitenciário e depois identifiquei que era Volta Seca. Algumas fotos vinham com legenda, outras apenas diziam ‘irmã com pobres da Bahia’, e aí entra o olhar do pesquisador. Muitas vezes nem eu mesmo percebia no primeiro momento, mas com o tempo, estudando a foto, isso vai aparecendo”, lembra Valber.

O encontro até era conhecido por historiadores, mas zero registro. Na foto, Volta Seca está bem próximo dela, que tem um ar sereno no meio dos detentos e ao lado de outra freira que não foi possível identificar quem era. Poderia, inclusive, ter outros registros, pois a que viria se tornar santa passou a visitar com frequência Volta Seca e outros cangaceiros presos no local.

“Na cabeça dela, exercer a cristandade era exercer o amor pela humanidade. De uma maneira muito interessante: o verdadeiro amor não é amar seu pai, sua mãe, sua mulher ou sua filha. Por favor, isso é fácil. O mais difícil é amar aqueles que ninguém quer amar. E ela levou isso ao pé da letra. Ela colocou na cabeça que precisava ir até a penitenciária para exercer essa ação missionária com aquelas pessoas que estavam lá, jogadas. O caso de Volta Seca é muito simbólico”, conta Valber.

O cangaceiro

Antônio dos Santos nasceu num povoado sergipano conhecido como Saco Torto, em 1918. Volta Seca fugiu de casa em 1928, aos 10 anos e entrou no cangaço em fevereiro de 1929, na mesma idade. Na época, era menino de recado e limpava os cavalos, além de outros afazeres. Por “merecimento”, não demorou muito para se tornar bandoleiro de fuzil marchetado, facão de três palmos e cartucheira cruzada.

Volta Seca passou a ser temido no sertão após uma invasão dos cangaceiros, a Chacina de Queimadas, aqui mesmo na Bahia, em dezembro de 1929. Foi um dos atos mais sanguinários de Lampião, onde sete soldados foram mortos a sangue frio. Volta Seca estava e ainda participou das mortes.

Toda cidade de Queimadas foi saqueada, que se fosse converter para a moeda atual, daria uns R$ 2 milhões. Mesmo depois da chacina, Lampião mandou fazer uma festa na cidade e até assistiu um filme que estava sendo exibido, já que era período natalino. E o que mais chamava atenção na cidade era que uma criança estava sempre ao lado do capitão. Era justamente Volta Seca, que passou a ser temido, mesmo com menos de 12 anos.

Em 1932, Volta Seca foi preso, na época com 13 anos, quase 14. Sua fama já se espalhava e sua chegada a Salvador foi “recepcionada” por cerca de duas mil pessoas na estação ferroviária de Periperi. Mesmo menor, ficou entre os adultos na penitenciária e acabou condenado a 145 anos de prisão. Após cumprir sete anos e tentar a fuga algumas vezes, se encontrou com Dulce.

A freira também já tinha sua fama na Bahia de ajudar os pobres, crianças e marginalizados, inclusive dentro da prisão. Como lembra Valber Carvalho, ela chegou a ser proibida de entrar em penitenciárias, sob acusação de levar coisas para os detentos, como cigarros e licor. Nunca foi provado nada. Até que aconteceu uma rebelião na antiga penitenciária da Coreia, justamente quando ela estava proibida de entrar em qualquer presídio. Não teve jeito: chamaram Dulce, que acabou com a confusão sem precisar derramar uma gota de sangue.

Bando de Lampião. Na esquerda, Lampião. No outro lado, Volta Seca, em pé e com menos de 11 anos completos
Bando de Lampião. Na esquerda, sentado, Virgulino. No outro lado, Volta Seca, em pé e com menos de 11 anos completos Crédito: Acervo Robério Santos

A fé

Dulce não foi a primeira cristã a tentar dialogar com Volta Seca. “Há pelo menos três momentos emblemáticos em que sacerdotes tiveram papel direto nas narrativas ligadas ao cangaço. O primeiro ocorreu em abril de 1929, quando Lampião visitou o povoado Poço Redondo e participou de uma missa celebrada pelo padre Arthur Passos. O sacerdote, impressionado com a presença do bando, anotou de próprio punho o nome de vários cangaceiros e aconselhou-os a abandonar aquela vida. Dirigiu-se especialmente à Volta Seca, sugerindo que o jovem retornasse à família”, conta Robério Santos.

Inclusive, outro líder religioso também teve um encontro histórico com um cangaceiro. Santo popular, Padim Ciço ficou cara a cara com Lampião, que evitava matar padres. Curiosamente, ele tinha um respeito muito grande por líderes católicos.

Lampião entrou em Juazeiro do Norte, onde ficou 4 dias (4, 5, 6 e 7 de março de 1926) como uma celebridade a convite do sacerdote. No encontro com Padre Cícero, o religioso aconselhou Virgulino a largar o cangaço, mas também tinha outra missão para ele: combater, desta vez em nome do governo, a Coluna Prestes, que transitava pelo Ceará. Foi nesta época que Lampião ganhou a patente de capitão e a promessa de anistia. “Infelizmente, nada se concretizou como esperado, a anistia não veio, a patente não tinha validade e Lampião acabou retornando ao cangaço”, completa Robério, autor do livro “O Santo e o Cangaceiro”, uma referência para nosso título.

“O cangaceiro era profundamente devoto de diversos santos, como Santo Antônio, Santa Luzia e o próprio Padre Cícero, ainda que este não fosse oficialmente canonizado. Basta observar que, nas roupas dos cangaceiros durante a passagem pelo Juazeiro, em 1926, muitos já exibiam bottons com a imagem do santo padre. Uma década depois, nas filmagens de Benjamin Abrahão em 1936, há inclusive uma cena marcante em que o bando aparece rezando de joelhos diante de um estandarte do Sagrado Coração de Jesus”, completa Robério.

Foto histórica de Irmã Dulce e o cangaceiro Volta Seca por Acervo Valber Carvalho

A santa

Certamente, antes mesmo de virar santa, Dulce passou a ser cultuada por Volta Seca. O Anjo Bom ainda tentou interceder por Volta Seca, tentando diminuir sua pena. Na época, o já ex-cangaceiro dava entrevistas da cadeia para diversos jornais, num momento em que o cangaço era assunto espalhado pelo país, principalmente com filmes e novelas. Em 1950, em entrevista ao Diário da Noite, do Rio de Janeiro, ele falou de Dulce.

“Há uma figura nobre que tem olhado esse meu caso. É a Irmã Dulce, Freira do Círculo dos Operários. É uma Santa criatura, que constantemente intercede por nós aqui na Penitenciária. Prometem a ela também, mas nada cumprem. O senhor vê que nem a figura dos santos consegue ajeitar a boa vontade dos homens. Mas eu espero que, daqui em breve, eu deixarei esta casa onde enterrei uma grande parte do meu passado”, disse Volta Seca. Ele cumpriu 20 anos, até receber indulto de Getúlio Vargas. Saiu da cadeia em 1952.

Já como Antônio, chegou a morar um tempo em Salvador, mas não conseguia emprego e seu passado ainda o condenava. Da passagem dele em Salvador, apenas uma foto com o Elevador Lacerda ao fundo. Não há mais registro se ele teve algum encontro com Irmã Dulce ao ser solto. Acabou se mudando para Santa Cruz, no Rio de Janeiro, e depois para Estrela D’Álva-MG. Morreu em 1997, em Pirapetinga-MG e foi enterrado em Estrela. Antes, chegou a gravar um disco com canções da época do cangaço, em 1957, incluindo "Mulher Rendeira", música que o aproximou da santa. É possível encontrar este álbum no Spotify ou Youtube.

Dulce morreu em 1992, na mesma data de nascimento de Volta Seca, que tinha o nome de Antônio, santo em que nossa santinha era devota. Coincidência? “Procuremos viver em união, em espírito de caridade, perdoando uns aos outros. É necessário saber desculpar para viver em paz e união”, disse, um dia, a santa dos pobres. E de um cangaceiro também…

Irmã Dulce e sua sanfona
Irmã Dulce e sua sanfona Crédito: OSID / divulgação

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