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Como saber se uma foto ou vídeo foi criado por IA? Startup baiana lança ferramenta de verificação

Fundadora da InspireIP fala explica funcionamento da plataforma e risco da inteligência artificial durante as eleições deste ano

  • Foto do(a) author(a) Maysa Polcri
  • Maysa Polcri

Publicado em 8 de junho de 2026 às 06:00

Caroline Nunes, fundadora da InspireIP
Caroline Nunes, fundadora da InspireIP Crédito: Edu Moraes/Divulgação

Golpes, desinformação, montagens e vídeos falsos produzidos por inteligência artificial (IA) estão cada vez mais presentes no ambiente digital. Com ferramentas capazes de gerar conteúdos altamente realistas em poucos segundos, identificar o que é verdadeiro se tornou um dos principais desafios da era da IA. A preocupação ganha ainda mais relevância às vésperas das eleições de 2026, diante do potencial de uso de imagens e vídeos manipulados para influenciar o debate público e disseminar informações falsas.

É nesse contexto que surge a SIGNAIP, plataforma criada pela startup baiana InspireIP para certificar a autenticidade e a procedência de imagens digitais por meio de registros auditáveis em blockchain. Em entrevista ao CORREIO, a fundadora da empresa, Caroline Nunes, especialista em propriedade intelectual formada pela USC Gould School of Law, nos Estados Unidos, explica como a ferramenta pode ajudar a identificar conteúdos manipulados, combater a desinformação e ampliar a segurança digital em um cenário marcado pelo avanço da IA. 

O que motivou a criação da SIGNAIP?

Como minha formação base é em Direito, as questões que envolvem os riscos do uso da IA de forma indiscriminada me incomodavam, principalmente com relação às manipulações criminosas que as ferramentas permitem. O uso indiscriminado de imagens retroalimentando este ambiente poderoso de desinformação precisa ser combatido.

No âmbito pessoal, outra questão me movia. Eu sempre quis ser mãe, mas quanto mais eu pensava nisso, mais eu percebia os riscos que a IA poderia trazer para meu futuro filho. Pode parecer paranóia, mas tem modelo sendo treinado com bilhões de imagens de pessoas sendo coletadas sem pedir permissão e quem postou não fica sabendo. Só no Brasil os deepfakes cresceram 126% em 2025. Foi por isso que criei a SignaIP, para que qualquer pessoa consiga dizer não por conta própria, de um jeito que dá pra verificar e que a máquina lê. 

Qual foi o principal problema identificado pela empresa no ambiente digital atual?

Hoje, se alguém usa sua imagem para treinar uma IA ou monta um deepfake com seu rosto, você não tem como provar que aquela imagem era sua ou que as restrições de uso já existiam, nem que o arquivo é anterior à violação. Não existe um jeito simples de dizer "não" numa linguagem que a máquina entenda.

O 'poder de falar não' de algumas plataformas depende da boa-fé delas e não gera prova nenhuma. A SignaIP resolve isso gravando a recusa dentro do próprio arquivo, usando um padrão internacional de autenticidade digital que Adobe, Microsoft e Google já adotam, e ancorando tudo numa blockchain pública. Se alguém desrespeitar a restrição, a prova de que ela existia já está lá, com data que ninguém consegue alterar.

Como a plataforma funciona na prática para um usuário comum?

É bem simples e não precisa entender nada de tecnologia. Você sobe a imagem, coloca seu nome, site e redes sociais se quiser, e marca se permite ou não a IA usar aquilo para treinamento, mineração de dados ou geração de imagem nova. Clicou em registrar, a SignaIP grava tudo dentro do arquivo, emite um certificado de proveniência em PDF com valor de prova, e registra isso numa blockchain pública que ninguém controla, nem a gente.

Depois é só baixar a imagem assinada e publicar onde quiser. Assim, se acontecer alguma coisa, a prova já existe. Tem também a parte de verificação. Qualquer um sobe uma imagem e vê se ela tem credencial de autenticidade, quem registrou, quando, se foi editada, se virou ingrediente de outra obra, formando uma árvore "genealógica" invertida. 

Em um ano eleitoral, qual pode ser a contribuição da plataforma para combater a disseminação de conteúdo falso?

Pode ser enorme. Em 2024, a Justiça Eleitoral condenou só 20% dos casos de deepfake, justamente porque provar tecnicamente que a imagem foi manipulada é difícil. A resolução do TSE [Tribunal Superior Eleitoral] de 2026 proíbe deepfake e exige rotulagem de IA, mas proibir não resolve a questão na prática.

É aí que a SignaIP entra. Candidato, assessoria e veículo de imprensa podem registrar as imagens oficiais antes de elas circularem. Se alguém mexer depois, a prova de que o original existia daquele jeito já está na blockchain. E a verificação mostra a árvore de ingredientes da imagem, de onde veio cada parte, se foi a IA que gerou, ou se usou outras imagens de base. A gente já usa aqui para identificar imagem suspeita e ajuda bastante.

Quais dicas você daria para as pessoas desconfiarem de conteúdos nas redes sociais?

Está cada vez mais difícil saber se uma imagem é real. Acho que já passamos do ponto em que o olho humano dá conta disso sozinho. O que eu mais repito é para conferir a fonte, desconfiar de imagem com apelo emocional forte que aparece sem contexto nenhum, e procurar a original antes de sair compartilhando. As pessoas podem usar nossa ferramenta de verificação também para saber se uma imagem foi ou não gerada por IA. E pra quem cria conteúdo, registrar antes de postar, ainda mais quando tem criança envolvida. Se você postou sem registro e alguém usa, depois vai ter que provar que era seu, e isso é caro e demorado. Se registrou antes, a prova já está feita.