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Gil Santos
Publicado em 3 de setembro de 2018 às 18:36
- Atualizado há 3 anos
Imagem do meteorito de Santa Luzia e do interior do Museu Nacional (Foto: Reprodução TV Globo) A imagem do meteorito do Bendegó no meio do que restou do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, correu o mundo nesta segunda-feira (3) após o incêndio do dia anterior. Sem brilho, sobre o pedestal de cerâmica, ele expressava o tamanho da tragédia. Mas, depois do 'teste de fogo' da entrada na atmosfera terrestre, essa é a segunda vez que a peça sobrevive ao fogo em terra firme. Quando foi descoberto, em 1784, na tentativa de derreter o material, pesquisadores fizeram uma fogueira e queimaram o meteorito por dois dias.>
A geóloga, professora e pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Débora Rios contou que logo após a descoberta, o governo ficou interessado no caso porque havia a esperança de que existisse uma mina de ferro no local, mas quando foi descartada essa possibilidade, Portugal perdeu o interesse no assunto.“Uma das primeiras missões que foi ao sertão fez uma fogueira para tentar tirar uma amostra do material. Foram dois dias tentando derreter o meteorito, só que o material é muito resistente, são 93% de ferro e 7% de níquel. É o mesmo encontrado no centro de alguns planetas, como a Terra, por exemplo”, explicou ao CORREIO.A peça permaneceu na cidade de Monte Santo até 1887, quando finalmente foi transferida para o Museu Nacional, onde está até hoje. Nas décadas seguintes após a transferência, pequenas amostras foram retiradas para estudo e a peça continuou sendo alvo de interesse de pesquisadores.>
Veja como ficou o interior do museu após o incêndio:>
A professora Débora Rios lamentou o incidente e lembrou que os outros sete meteoritos encontrados na história da Bahia também faziam parte do acervo que queimou. Quando o meteorito do Bendegó foi descoberto, era o maior do mundo. Atualmente, é o 16º. Existem apenas 12 do modelo dele no planeta e a peça continua sendo a maior do Brasil.“Mesmo não sendo destruído pelas chamas, há um estrago porque o fogo modifica a estrutura da peça. Esse incêndio provocou um prejuízo para a história, a cultura e o conhecimento incalculável. Diversas coleções e documentos históricos foram perdidos. A verdade é que todo o patrimônio histórico e cultural do Brasil está em risco”, afirmou.Viagem O vaqueiro Domingos da Rocha Botelho estava em busca de uma vaca desgarrada do rebanho, no sertão de Monte Santo, no Nordeste da Bahia, quando fez o achado pra lá de interessante. Era junho de 1784. O então governador da Bahia, Rodrigo José de Menezes, ordenou imediatamente o translado da pedra para Salvador.>
O meteorito foi encontrado próximo ao Rio Bendegó - daí o nome com que foi batizado. O capitão-mor de Itapicuru, Bernardo Carvalho da Cunha, ficou encarregado da missão. A ordem do governador era para que ele fizesse o possível para conduzir a pedra ao porto mais próximo, de onde ela seria levada primeiro para Salvador e depois para o Rio de Janeiro, então capital da colônia.>
A tarefa não era fácil. Segundo o Museu Nacional, a pedra, de pouco mais de 2,2 metros de comprimento por 1,45 de largura e 0,58 de espessura, pesava mais de 5 toneladas.>
O relatório apresentado pela comissão responsável pelo translado diz que Bernardo mandou construir um carretão de madeira que seria puxado por 12 juntas de bois. Mas, é claro, esse plano não deu certo.>
Na descida da primeira colina, o carro tomou carreira e desceu ladeira abaixo, indo parar 180 metros distante de onde a pedra foi encontrada e encalhando às margens do Rio Bendegó. O governador deu a missão como perdida e enviou algumas amostras do material para Portugal.>
Em 1886, depois de estudos mais avançados, as tentativas de remoção da peça foram retomadas, ainda com alguns fracassos. O transporte finalmente aconteceu no final do ano seguinte – desta vez, num equipamento semelhante a uma carroça, puxado por bois, com o auxílio de trilhos móveis.>
Depois de alcançar Salvador por terra, o meteorito foi colocado num barco a vapor e chegou ao Rio de Janeiro em 1888. Agora, 130 anos depois da complicada mudança, a peça terá que encontrar uma nova casa. A estimativa é de que o meteorito tenha 150 mil anos na terra e 4,5 bilhões de anos de existência.>