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Como baleias jubartes viajaram entre Brasil e Austrália e quebraram um recorde mundial

A baleia 'baiana' tinha sido vista pela primeira vez em Abrolhos em 2003

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 22 de maio de 2026 às 11:07

Frequentadora de Abrolhos, a baleia jubarte 'baiana' foi avistada na Austrália em 2025
Frequentadora de Abrolhos, a baleia jubarte 'baiana' foi avistada na Austrália em 2025 Crédito: Silke Stuckenbrock/ Happywhale/Reprodução

Duas baleias-jubartes com ligação com o Brasil - inclusive uma ‘baiana’- quebraram o novo recorde mundial de natação. Enquanto um dos animais saiu da Austrália para o Brasil, uma baleia frequentadora do Banco de Abrolhos, no Sul da Bahia, chegou à Austrália. Esse feito - que é independente, é preciso ressaltar - tem sido considerado por pesquisadores como o maior intercâmbio cultural de que se tem registro na espécie.

Uma migração entre populações de jubarte numa distância tão significativa é algo tão inusitado que acabou de ser publicada na revista científica revista Royal Society Open Science, na última quarta-feira (20). Os pesquisadores identificaram que a baleia baiana, que foi fotografada em Abrolhos em 2003, foi localizada em Hervey Bay, litoral da Austrália, em setembro do ano passado. Assim, a distância mínima que ela teria percorrido para chegar lá foi de cerca de 15,1 mil quilômetros.

Frequentadora de Abrolhos, a baleia jubarte 'baiana' foi avistada na Austrália em 2025 por Silke Stuckenbrock/ Happywhale/Reprodução

Já o mamífero australiano, que foi registrado tanto em 2007 quanto em 2013 na mesma Hervey Bay, aportou em Ilhabela, no Brasil, em 2019, como mostram fotos dela feitas na época. Pelo cálculo dos pesquisadores, a menor distância que ela percorreu entre os dois pontos foi de cerca de 14,2 mil quilômetros.

Assim, elas ocupam, respectivamente, a primeira e a segunda posição no ranking de maiores distâncias percorridas a nado. No entanto, nos dois casos, é possível que o número seja muito maior, uma vez que não se sabe quais foram as rotas exatas percorridas por elas.

“Fazia 22 anos que a gente não via essa nossa baleia até ela ser vista na Austrália. É lógico que ela não foi direto, nadando em linha reta. Ela pode ter subido, ido se alimentar. Mas a menor distância seria essa e já é um recorde”, diz o médico veterinário Milton Marcondes, que é coordenador de pesquisa do Projeto Baleia Jubarte e um dos autores do artigo.

Segundo ele, ainda que essa movimentação não seja muito expressiva, no número de baleias - ou seja, são poucos os indivíduos que nadam distâncias como essas - a importância é grande para a espécie.

“Quando você tem uma caçada muito intensa de uma população, como ocorreu no Brasil, ela fica com menos variabilidade genética. Os animais têm menos chance de, em caso de uma mudança climática, ter genes para aquela mudança. A entrada de bichos de outras populações aqui e a entrada de animais daqui em outras populações têm esse potencial. Claro que ela tem que se reproduzir e deixar descendentes, então você tem indivíduos deixando patrimônio genético na população”.

A baleia jubarte australiana saiu de Hervey Bay e foi avistada em Ilhabela. É a segunda maior distância percorrida pela espécie por ARLAINE FRANCISCO/Happywhale Reprodução

Genes

Essa variação genética pode ser identificada em dois aspectos, no caso das jubartes. Um deles é o canto. Cada população de jubartes tem um canto distinto. Quando um macho migra para uma nova população, ele canta diferente e, assim, os outros machos começam a incorporar pedaços daquele canto - o que, no fim, termina por mudar o canto daquele grupo.

“A nossa baleia foi fotografada num grupo com nove bichos. Na época, o sexo não foi determinado, mas ela participava de um grupo competitivo, ou seja, vários machos disputando uma fêmea. Geralmente, eles ficam muito machucados, um bate no outro e causa arranhão”, explica Marcondes. Ao chegar na Austrália, a baleia ‘baiana’ foi vista sozinha.

Por sua vez, o animal australiano tinha sido fotografado em um grupo com três baleias anteriormente. No Brasil, ela foi vista nadando sozinha. Em geral, segundo o médico veterinário, baleias de barbatana, tais como a jubarte e a azul, são animais mais isolados. Enquanto bichos com dentes (golfinhos, orcas, cachalotes, baleias-piloto) vivem em grupo pelo resto da vida, as de barbatana se agrupam em situações específicas, como para se alimentar ou para se reproduzir.

A australiana em Ilhabela poderia estar sozinha em direção a Abrolhos, porque a região é parte do caminho que elas fazem. Isso porque Abrolhos é a principal região de reprodução da espécie no litoral brasileiro.

Ao todo, há sete populações de baleias-jubarte conhecidas no hemisfério Sul. Os cientistas já sabem que a população brasileira já teve contato com outras quatro, incluindo a australiana agora.

“O lado ruim (da migração) é o potencial de passar doenças de uma população para outra. Apesar de que, para conseguir fazer uma viagem tão longa, o animal deve estar sadio, existe o risco de carregar uma doença para uma população que não tinha”, pondera o coordenador de pesquisa.

Recordes

Desde 1989, o Projeto Baleia Jubarte faz fotos de caudas de baleia, o que permite identificar cada indivíduo pelas marquinhas na cauda. No entanto, até alguns anos atrás, esse trabalho era totalmente manual. A comparação, feita por pessoas, era um processo que demorava cerca de oito a nove meses e sempre comparando fotos de até três anos antes. Isso mudou com a criação da plataforma Happywhale, em 2018. Desde então, isso acelerou os processos e permitiu a comparação fotos do mundo inteiro.

“A gente começou a ter mais resultados de para onde as baleias vão quando saem do Brasil. Normalmente, o que se tinha era uma baleia ir para a África do Sul ou de lá para cá, às vezes para o Equador. De repente, a gente teve essas duas informações (sobre o intercâmbio com a Austrália)”, conta Milton Marcondes.

Além das jubartes, só há registro de uma baleia cinzenta que fez uma migração maior no mundo. A espécie, que já comumente faz um longo percurso na Costa Oeste americana, com mais de 10 mil quilômetros, tem registro de um indivíduo que, uma vez, apareceu na Namíbia. Até então, essa é a maior migração de uma baleia já registrada na história.

A Happywhale é uma plataforma que usa dados científicos e de ciência cidadã para a fotografar e identificar cetáceos no mundo. O algoritmo compara dois aspectos nas jubartes: o padrão de distribuição de branco-preto da face ventral da cauda da baleia

(todas as marcas e riscos) e o padrão do serrilhado da borda da cauda. Essas características são únicas para cada animal.

“Qualquer pessoa pode mandar fotos para o Porjeto Baleia Jubarte ou entrar no Happywhale, criar uma conta e publicar as fotos. Inclusive, as fotos na Austrália não foram feitas por pesquisadores, mas em barcos de observação de baleias, por turistas", acrescenta Marcondes.