Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Perla Ribeiro
Publicado em 30 de abril de 2026 às 11:55
Após anos de expansão impulsionada pela pandemia, o home office entrou em uma fase de revisão. A volta ao escritório já é uma realidade em muitas empresas, com redução dos dias remotos e maior valorização do presencial. Mais do que um fim do trabalho remoto, o movimento indica um amadurecimento dos modelos híbrido e remoto, que passam por ajustes para equilibrar produtividade, engajamento, segurança e conformidade legal. >
Nos últimos meses, o debate sobre o futuro do trabalho ganhou força. Grandes empresas têm reforçado a presença física, enquanto outras mantêm modelos híbridos mais restritivos. Casos de demissões de colaboradores em regime remoto e relatos de baixa produtividade reacendem discussões sobre engajamento e controle. Ao mesmo tempo, histórias de profissionais que tentam “burlar” sistemas de monitoramento ou dividir o tempo entre múltiplas atividades expõem um ponto central. Os modelos que prometiam revolucionar o trabalho agora enfrentam desafios práticos relevantes.>
Home Office
CEO da Moema Medicina do Trabalho, Tatiana Gonçalves considera que a explicação não é simples. “Por mais que os modelos híbrido e remoto sejam atrativos, tanto empresas quanto trabalhadores não estavam preparados para uma mudança tão abrupta. O que vemos hoje é a consequência de falta de planejamento, orientação e adaptação. Não existe um único culpado, é uma falha sistêmica de preparo”, afirma.>
Monitoramento e produtividade>
Uma das principais polêmicas envolvendo o trabalho remoto está na forma como a produtividade é medida. Algumas empresas utilizam métricas digitais detalhadas, como monitoramento de uso do computador, quantidade de cliques, abertura de abas, registro de tarefas e chamados. Para muitos colaboradores, o nível desse acompanhamento ainda causa surpresa.>
“Nem todos percebem que existem ferramentas capazes de medir cada movimento, mesmo fora do escritório. Isso gera desconforto e desconfiança”, explica Tatiana Gonçalves. Esses episódios reacendem um debate importante. O home office e o trabalho híbrido estão realmente em crise ou passam apenas por uma fase de ajuste?>
Desejo versus a prática>
Apesar de ser um modelo desejado por muitos profissionais, a implementação do trabalho híbrido ainda enfrenta desafios estruturais e culturais. A resistência de empregadores continua sendo um dos principais entraves, especialmente após a adoção emergencial do remoto durante a pandemia.>
Segundo o sócio da Boaventura Ribeiro Advogados Associados, Mourival Boaventura Ribeiro, “depois da pandemia, as empresas passaram do trabalho remoto para o híbrido, e agora precisam adaptar-se às novas regras legais”. A Lei nº 14.442/22, que regulamenta o trabalho híbrido e remoto, trouxe avanços importantes, mas sua aplicação prática ainda exige ajustes nas políticas internas, contratos e rotinas corporativas.>
Desafios essenciais>
Outro ponto crítico é a infraestrutura. Para que o modelo híbrido funcione de forma eficiente, é necessário investir em tecnologia, comunicação integrada e revisão de processos. Além disso, a segurança da informação tornou-se prioridade, já que o acesso remoto amplia os riscos cibernéticos.>
Co-founder da Witec, Carol Lagoa alerta: “Quando um colaborador trabalha remotamente, a empresa precisa garantir que seu equipamento esteja protegido contra vírus e outros riscos. Caso contrário, o risco de ataques cibernéticos pode comprometer a segurança da companhia.”>
Reconfiguração da gestão>
A cultura organizacional também pesa. Muitos líderes ainda associam produtividade à presença física, e a distância pode gerar sensação de perda de controle e menor engajamento das equipes. Tatiana Gonçalves reforça que a definição do modelo ideal deve considerar a realidade de cada equipe. “A escolha de quem vai para o modelo híbrido ou home office deve ser feita pelos gestores diretos, avaliando as condições do ambiente de trabalho de cada colaborador.”>
A importância da adaptação>
Além dos desafios culturais e estruturais, há a necessidade de adequação às normas legais. A regulamentação trouxe maior flexibilidade, mas também exige atenção redobrada das empresas na formalização de contratos e políticas internas. Tatiana Gonçalves destaca ainda a importância das Normas Regulamentadoras, especialmente a NR 17, voltada à ergonomia. “Laudos com a NR 17 e o PPRA são fundamentais para garantir a segurança dos colaboradores, minimizando riscos de acidentes ou doenças ocupacionais”, explica.>
Equilíbrio e flexibilidade>
Mesmo com a retomada do presencial, o trabalho remoto não desaparece. Ele passa a ocupar um espaço mais estratégico dentro das organizações, combinado ao modelo híbrido e adaptado às necessidades de cada negócio. O futuro do trabalho aponta para um equilíbrio entre presença física e flexibilidade. Para que isso funcione, será essencial investir em gestão, tecnologia, cultura organizacional e segurança.>
Em última análise, a capacidade de adaptação será o diferencial das empresas. Equilibrar produtividade, bem-estar e conformidade legal não é mais uma opção, mas uma exigência para sustentar modelos de trabalho eficientes e duradouros.>