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Da Redação
Publicado em 14 de maio de 2018 às 08:59
- Atualizado há 3 anos
O preparo do almoço na casa da dona Vera Lúcia dos Santos, 61, não se restringe à escolha do que vai ser servido à mesa ou dos temperos a serem utilizados. Moradora da localidade de Minguaú II, em Caucaia, ela separa alguns punhados de carvão e despeja no fogareiro de alvenaria antes de tudo, para fazer a brasa “pegar logo”. >
A alternativa em usar o carvão como combustível para cozimento de alimentos, em vez do mais convencional gás de cozinha, se dá pelo peso que este último tem no orçamento de sua família. >
Dados de 2017 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados no final de abril apontam que 23,4% dos lares cearenses usam como combustível para cozimento de alimentos matérias-primas como carvão ou lenha. Isso representa um aumento de 6,8% em relação à mesma pesquisa feita em 2016 (21,9%). O Ceará está entre os dez estados com maior uso de carvão ou lenha em casa para cozinhar. A média nacional é de 17,6%. Na cozinha de Vera Lúcia, o botijão de gás está lá na cozinha, ao lado do fogão, e funcionando. >
Segundo o PNAD, esse é o método utilizado em 96,9% dos domicílios do Estado, enquanto no País é 98,4%. A escolha do combustível a ser utilizado, segundo Vera Lúcia, depende do que vai ao fogo. >
“Uso o gás mais para esquentar uma água para um café ou alguma coisa que vá para o fogo mais rápido. Compro o gás aqui por R$65 e às vezes R$75. Assim dura mais. O saco de carvão sai a R$20 e dá para uns 15 dias”, conta a aposentada, que cozinha diariamente para uma família de dez pessoas. Marido, filhos, noras e netos não costumam reclamar. “Fica até melhor. O fogo do carvão dá um gosto especial na comida. É bom quando tem uma carninha de porco que assa na brasa”, conta o esposo, seu Francisco Rosa Nascimento, 66, após saborear satisfeito carne cozida e baião preparados no carvão. O percentual de lares que usam carvão ou lenha é maior no Interior que na Capital. Em Fortaleza, o método de queima está presente em apenas 1,8% dos domicílios.>
Ao se ampliar a amostragem para a Região Metropolitana, o dado sobe para 5,4% das casas. Também em Caucaia, no distrito de Tucunduba, a cozinha da dona de casa Maria Stela da Silva, 59, fica iluminada na hora do almoço com a brasa incandescente do fogareiro. Ela, que também tem fogão a gás além de um forno microondas, conta que costuma alternar a forma como cozinha as refeições. >
“Acontece muito de ficar sem gás e sem dinheiro para trocar o botijão. Fica muito pesado usar só o gás”, explica, complementando que o uso da lenha já não é mais tão comum no local, ao contrário do carvão. “Dá mais trabalho porque tem que cortar. E nesse período de chuva, ela molha e o fogo não pega”, acrescenta.>
Nordeste: Fortaleza tem 2º gás de cozinha mais caro da região O preço médio que o cearense tem que desembolsar para comprar um botijão de 13kg de gás de cozinha é R$70,43. O levantamento referente a maio feito pela Agência Nacional do Petróleo mostra que a tarifa do Estado é a segunda mais cara do Nordeste. No topo da lista fica Sergipe (R$75,67) e o gás mais barato pode ser encontrado na Bahia (R$ 57,71). >
Ao olhar para as maiores metrópoles da Região, o panorama é semelhante. Fortaleza fica atrás apenas de Aracaju entre as cidades onde é necessário desembolsar mais para comprar o botijão. Na capital sergipana, o produto chega perto dos 80 reais (R$79,08), quase quatro reais a mais que Fortaleza (R$75,43). Valores bem superiores aos observados em Salvador, onde o botijão custa R$53,38. >
Fortaleza é também a cidade que apresenta a maior tarifa entre as avaliadas pela ANP no Ceará. Enquanto o preço médio da Capital gira em torno de 75 reais, em outros municípios como Juazeiro do Norte, o preço médio está em R$62. Entre maio de 2013 e agora, o preço médio do gás de cozinha em Fortaleza quase dobrou. Há cinco anos, ele custava R$42,84. A variação de 88,43% supera e muito a inflação registrada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para o período, que foi cerca de 34%.>
Segundo Bruno Iughetti, especialista em petróleo em gás, o elevado preço praticado no Ceará é explicado por uma logística onerosa no transporte do GLP até a distribuidora. >