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Ilha dos Gatos: paraíso de felinos abandonados vira preocupação ambiental e de saúde no litoral brasileiro

Com mais de 700 gatos vivendo isolados em uma ilha do Rio de Janeiro, pesquisadores investigam impactos sobre o ecossistema marinho e riscos de transmissão de doenças

  • Foto do(a) author(a) Mariana Rios
  • Mariana Rios

Publicado em 1 de junho de 2026 às 11:08

Mais de 700 gatos vivendo isolados em uma ilha de Mangaratiba
Mais de 700 gatos vivendo isolados em uma ilha de Mangaratiba Crédito: Freepik

Conhecida como "Ilha dos Gatos", a Ilha Furtada, localizada entre Mangaratiba e Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio de Janeiro, abriga uma população estimada em mais de 700 felinos. O que para muitos turistas parece uma curiosidade da natureza se transformou em um desafio ambiental, sanitário e de bem-estar animal que mobiliza universidades, pesquisadores, veterinários e autoridades públicas.

Segundo reportagem do jornal O Globo, a origem da colônia remonta à década de 1950, quando os primeiros gatos teriam sido deixados no local após a passagem de uma família pela ilha. Com o passar dos anos, o abandono de animais se tornou recorrente, contribuindo para o crescimento descontrolado da população felina.

O abissínio é um gato ativo e se dá bem com cães enérgicos (Imagem: ZCOOL HelloRF | Shutterstock) por Imagem: ZCOOL HelloRF | Shutterstock

A cerca de oito quilômetros da costa de Mangaratiba, a ilha não possui fontes naturais de água doce nem oferta natural suficiente de alimento para sustentar tantos animais. Por isso, os gatos dependem da ajuda de voluntários e organizações de proteção animal, que realizam ações periódicas para levar água, ração e assistência veterinária.

A gravidade da situação levou à criação do projeto "Uma Só Saúde na Ilha Furtada", uma força-tarefa que reúne pesquisadores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio de Janeiro (CRMV-RJ), do Instituto Boto Cinza e da Prefeitura de Mangaratiba. O objetivo é entender os impactos da presença dos animais no ecossistema e buscar soluções para reduzir os danos ambientais e sanitários.

De acordo com os pesquisadores, a preocupação vai além do bem-estar dos gatos. Estudos identificaram uma circulação significativa do protozoário Toxoplasma gondii, causador da toxoplasmose. Em pesquisa publicada na revista científica EcoHealth, cientistas encontraram anticorpos contra o parasita em cerca de 40% dos gatos analisados na ilha.

A professora e pesquisadora da UFRRJ Andressa Ferreira da Silva, presidente da Rede Brasileira de Pesquisa em Toxoplasmose, alerta que os oocistos eliminados nas fezes dos animais podem ser levados pelas chuvas até o mar. Isso pode contaminar organismos filtradores, como ostras e mexilhões, que posteriormente podem ser consumidos por humanos.

Os impactos também podem atingir a fauna marinha. Segundo o biólogo Leonardo Flach, coordenador do Instituto Boto Cinza, estudos realizados após episódios de mortalidade de golfinhos na Baía de Sepetiba identificaram casos de toxoplasmose em parte dos animais analisados. Embora ainda não exista comprovação de ligação direta com a Ilha Furtada, pesquisadores investigam se a elevada concentração de gatos pode contribuir para a disseminação do parasita no ambiente costeiro.

Especialistas ressaltam, porém, que os gatos são vítimas da situação. O problema teria sido criado pelo abandono contínuo de animais ao longo de décadas. Segundo os pesquisadores, o simples contato com gatos não transmite toxoplasmose, e os riscos estão relacionados principalmente à exposição a fezes contaminadas ou ao consumo de alimentos contaminados.

Em 2024, a União retomou a posse da Ilha Furtada por interesse público. Desde então, a Prefeitura de Mangaratiba aprovou normas específicas para o manejo populacional dos animais e endureceu as punições para abandono de bichos em ilhas da região.

A expectativa dos pesquisadores é que os estudos ajudem a encontrar soluções que conciliem proteção animal, preservação ambiental e saúde pública para um dos casos mais peculiares do litoral brasileiro.

Tags:

Saúde