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Publicado em 28 de abril de 2026 às 05:00
Há histórias que não cabem nos autos. Nos processos judiciais, vemos números, valores, execuções. Mas raramente vemos o que existe por trás deles: vidas atravessadas por perdas, tentativas de reconstrução e, muitas vezes, um esforço silencioso de continuar existindo com dignidade. >
Durante anos, atuei como empresária. Construí uma estrutura sólida, com cinco salões de beleza, mais de 90 colaboradores formalmente registrados e inúmeros profissionais que, direta ou indiretamente, dependiam daquela atividade. Não era apenas um negócio, era uma rede de trabalho, renda e formação de pessoas.>
Paralelamente, desenvolvi projetos com o poder público que ampliavam esse impacto social. Mas, como acontece com muitos empreendedores no Brasil, a estrutura ruiu.>
A inadimplência de contratos públicos desencadeou um efeito em cadeia. O que antes sustentava dezenas de famílias colapsou. Em 2017, encerrei definitivamente as atividades. Com isso, perdi não apenas empresas, mas todo o patrimônio construído ao longo de anos, incluindo minha própria moradia e a de minha filha.>
Ainda assim, segui. Busquei honrar compromissos dentro do possível. Muitos colaboradores foram quitados, outros receberam compensações viáveis à época. Fiz o que estava ao meu alcance.>
Mas o tempo não encerrou o processo. As execuções trabalhistas continuam.>
E aqui começa uma reflexão que precisa ser feita, não apenas por mim, mas por toda a sociedade. Até que ponto a Justiça, ao buscar reparar um direito, pode acabar inviabilizando a vida daquele que deve?>
Hoje, já não sou empresária. Atuo na área terapêutica, reconstruindo minha trajetória com esforço, estudo e dedicação. No entanto, as execuções que se prolongam por anos não apenas atingem patrimônio - elas atingem a possibilidade de recomeço.>
E quando não há possibilidade de recomeço, o que resta? Minha filha, que foi minha sócia, conseguiu se reinserir no mercado. Mas também é constantemente impactada por medidas que comprometem sua estabilidade e até sua mobilidade profissional. O passado insiste em se impor sobre o presente, criando um ciclo difícil de interromper.>
Esse cenário nos leva a perguntas incômodas - e necessárias. É justo que o insucesso empresarial resulte em uma responsabilização que se estende indefinidamente, impedindo qualquer reconstrução?>
É razoável que a execução ignore a condição atual de quem já não exerce atividade empresarial, sua idade, sua capacidade real de gerar renda ou seu histórico de boa-fé?>
A legislação brasileira é clara ao afirmar que a execução deve ocorrer pelo meio menos gravoso ao devedor, sempre que possível. E a própria Constituição estabelece a dignidade da pessoa humana como fundamento central.>
Mas, na prática, esses princípios têm sido aplicados de forma equilibrada? Não se trata de negar direitos trabalhistas - eles são legítimos e essenciais. Trata-se de refletir sobre a forma como esses direitos são executados ao longo do tempo, especialmente em contextos onde a realidade já se transformou profundamente.>
Há um ponto que precisa ser encarado com honestidade: A quem serve uma execução que impede o devedor de produzir, trabalhar e, consequentemente, pagar?>
Se o objetivo da Justiça é reparar, ela não pode, ao mesmo tempo, inviabilizar qualquer possibilidade de cumprimento da própria obrigação. A Justiça que apenas cobra, sem considerar a realidade concreta, corre o risco de se afastar de sua função maior: equilibrar.>
Porque justiça não é apenas exigir. Justiça é também compreender. É olhar para o contexto, reconhecer trajetórias, considerar limites humanos. É garantir direitos sem produzir novas formas de sofrimento desproporcionais.>
Hoje, já em uma fase mais madura da vida, enfrento não apenas desafios financeiros, mas também o impacto emocional de um processo que parece não ter fim. Houve momentos em que o peso foi tão grande que pensamentos de desistência surgiram - não como escolha, mas como expressão do limite humano diante de um sofrimento prolongado.>
E isso não aparece nos autos. Por isso, este não é apenas um relato pessoal. É um convite. Um convite à Justiça do Trabalho, aos operadores do Direito e à sociedade para refletirem:>
Estamos promovendo justiça ou perpetuando desequilíbrios? Porque a verdadeira Justiça não é apenas aquela que cobra. É aquela que enxerga. Que pondera. Que equilibra. E, sobretudo, que permite recomeços.>
Sheila Lima é terapeuta e escritora>