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O peso da palavra do Papa diante da instabilidade de Trump

A resposta de Leão XIV deve ser lida menos como desafio pessoal a Trump e mais como resistência ética à normalização da guerra

Publicado em 16 de abril de 2026 às 05:30

A reação de Donald Trump às manifestações do Papa Leão XIV sobre a guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel expõe mais do que um choque verbal entre duas figuras globais. Expõe o atrito entre duas formas de exercício de poder: de um lado, a lógica da escalada, do personalismo e da intimidação; de outro, a lógica da contenção e da diplomacia institucional.

Em sua rede social, Trump atacou publicamente o pontífice, chamando-o de “fraco” e “terrível” em política externa, após críticas do Papa ao conflito e às ameaças contra populações civis. Ao ser questionado por um jornalista sobre se temia a administração Trump, Leão XIV afirmou que não e reiterou seu dever de continuar falando em favor da paz. A declaração foi dada durante o voo para a Argélia, primeira etapa de sua viagem apostólica à África, em abril de 2026.

O ponto central não está na aparência de embate pessoal, mas no lugar institucional de fala ocupado pelo Papa. Quando o pontífice se pronuncia sobre guerra, sofrimento civil, uso desproporcional da força ou degradação moral da política internacional, ele não fala apenas como líder religioso. A Santa Sé é sujeito soberano de direito internacional público e ocupa a condição de Estado observador não membro na Assembleia Geral das Nações Unidas.

Sua intervenção em crises internacionais, portanto, não é extravagância nem incursão indevida na política: é exercício de personalidade internacional, tradição diplomática e autoridade moral. Esse dado afasta a leitura de que o Papa teria “entrado na política” de forma imprópria.

A resposta de Leão XIV deve ser lida menos como desafio pessoal a Trump e mais como resistência ética à normalização da guerra. Dias antes, o Papa havia classificado como “verdadeiramente inaceitáveis” ameaças dirigidas à população iraniana e advertido para os custos humanos e jurídicos do conflito. Sua condição de primeiro Papa nascido nos Estados Unidos reforça o peso desse gesto: sua crítica não pode ser reduzida a antiamericanismo, mas se apresenta como posição institucional.

Num Oriente Médio marcado por disputas territoriais, rivalidades e interesses energéticos, toda fala que rejeite a guerra e reafirme a centralidade da paz ultrapassa o campo religioso. É isso que parece incomodar Trump. Sua reação, feita de ataques pessoais e desqualificação, revela dificuldade de conviver com uma autoridade que não se submete à intimidação.

A fala do Papa devolve o conflito ao terreno da responsabilidade jurídica, do limite moral e da contenção. No direito internacional contemporâneo, em que tantas vezes a força tenta se impor como razão, a Santa Sé continua a lembrar que nem todo poder legítimo nasce da capacidade de destruir; alguns ainda derivam da capacidade de interromper a violência.

Murilo Vilas Boas é advogado e pesquisador dos temas de Direito Internacional e Diplomacia Pontifícia