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Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 05:30
A situação da obstetrícia e da assistência neonatal na Bahia revela um dos mais graves problemas estruturais da saúde pública estadual: a profunda desigualdade entre a capital e o interior. Apesar de avanços pontuais e anúncios oficiais de novos investimentos, o que se observa na prática é um sistema sobrecarregado, concentrado e incapaz de atender com equidade gestantes e recém-nascidos, especialmente os de alto risco. >
A Bahia é um dos estados com maior número de nascimentos do país e possui uma população majoritariamente dependente do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa realidade exige uma rede obstétrica bem distribuída, integrada e com capacidade resolutiva. No entanto, a concentração dos serviços de média e alta complexidade em Salvador transformou a capital em destino quase obrigatório para gestantes do interior, criando um cenário de superlotação crônica.>
Em Salvador, maternidades de referência como Tsylla Balbino, José Maria de Magalhães Netto, Climério de Oliveira, Hospital Geral Roberto Santos e Albert Sabin operam constantemente no limite. A peregrinação de gestantes em busca de vaga, prática que deveria ter sido erradicada há décadas, ainda faz parte da rotina. A situação se agrava quando se trata de leitos de UTI Neonatal, fundamentais para a sobrevivência de prematuros e recém-nascidos graves. >
No interior do estado, o cenário é ainda mais preocupante. Grande parte dos municípios não dispõe de maternidades com estrutura para atendimento de gestantes de alto risco. A ausência ou escassez de leitos de UTI Neonatal é a regra, não a exceção. Apenas alguns polos regionais, como Feira de Santana, Vitória da Conquista, Juazeiro e Barreiras, contam com serviços mais estruturados, ainda assim insuficientes para cobrir suas macrorregiões.>
A consequência direta dessa fragilidade é o aumento do risco materno e neonatal. Transferências longas e tardias, falta de transporte neonatal adequado, partos realizados em unidades sem suporte e demora na regulação de leitos compõem um cenário que contribui para índices de mortalidade evitável. Prematuros extremos e recém-nascidos com intercorrências graves são os mais penalizados por esse modelo concentrador.>
Do ponto de vista da gestão pública, a política estadual tem se mostrado reativa, focada no enfrentamento de crises momentâneas, sem um planejamento estruturado de longo prazo. Falta uma regionalização efetiva da assistência obstétrica e neonatal, com a criação de polos de alto risco no interior e expansão permanente de UTIs Neonatais fora da capital. Soma-se a isso a dificuldade de fixação de profissionais especializados, como obstetras, neonatologistas e enfermeiros obstétricos, sobretudo nas regiões mais afastadas.>
Enquanto Salvador absorve uma demanda que extrapola sua capacidade, o interior permanece desassistido. Essa equação é insustentável e injusta. Saúde materno-infantil não pode depender de sorte, de distância ou da capacidade de deslocamento de uma gestante em trabalho de parto.>
É urgente que o governo do estado trate a obstetrícia e a UTI Neonatal como prioridade estratégica, com investimentos planejados, descentralização real dos serviços e fortalecimento da rede regionalizada. Cada leito que falta representa um risco concreto de morte evitável. Cada transferência tardia expõe a fragilidade de um sistema que precisa, com urgência, ser reestruturado.>
*Heraldo Rocha é médico e ex-deputado estadual>