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Os Pixotes do meu pai

Eu morria de orgulho de meu pai, meu pai era meu herói. Sabia que os menores não lhe fariam nada e que ele resolveria na base do diálogo

Publicado em 31 de maio de 2026 às 05:00

O filme Pixote: A Lei Do Mais Fraco, de Hector Babenco, traduz de maneira chocante e comovente a atroz realidade da nossa infância e juventude.

Como poderemos mudar nossa sociedade se não dedicamos à nossa base a devida atenção?

Meu pai, Manoel Lopes Pontes, além de teatrólogo e músico, atuou muito como diretor de casas de menores e era muito mal visto pelos chamados "vigilantes", que eram os caras que exerciam, junto aos internos, o papel correspondente ao de agentes penais.

E sabem por quê?

Porque ele não permitia que se espancasse menor!

Meu pai aboliu o império da violência e instalou o da Arte. Botou os meninos pra pintar, dançar, fazer teatro e fazer música.

Isso resultou no auto de natal O Boi e o Burro no Caminho de Belém, de Maria Clara Machado, num espetáculo de ballet folclórico apresentado no palco do Teatro Castro Alves, numa big band e numa exposição coletiva em que a renda resultante com a venda dos quadros era revertida aos meninos, que adoravam, idolatravam, meu velho.

Quando eles se revoltavam, quebravam tudo, incendiavam colchões, só aceitavam falar com meu pai. Ele ia lá, desarmado, de peito aberto, era abraçado pelos meninos e escutava suas demandas, que eram todas atendidas.

Quando esses tumultos ocorriam, eu e minha mãe experimentávamos sentimentos totalmente diferentes. Ela ficava em pânico, receando que os menores pudessem fazer alguma coisa contra seu marido. E eu morria de orgulho de meu pai, meu pai era meu herói. Eu sabia que os menores não lhe fariam nada e que ele resolveria a questão na base do diálogo, da compreensão, da solidariedade humana. E assim era.

Aliás, eu transitava com a maior naturalidade entre os menores das instituições onde meu pai trabalhava. Criança, ia brincar com eles e não era raro que um ou outro viesse passar o dia ou o fim de semana comigo. Adolescente, ia tocar sax com eles e eram tardes maravilhosas.

Infelizmente, o trabalho de meu pai não conseguiu salvar todos da marginalidade.

Quando a gente ia apresentar espetáculos de teatro na penitenciária, era comum muitos dos detentos cercarem meu pai, perguntarem se ele não se lembrava deles, pedir-lhe cigarros. Eram alguns daqueles garotos que não conseguiram escapar do caminho que a sociedade, injusta e desigual, lhes deixava, praticamente lhes impunha.

Mas que ele fez a parte dele, lá isso ele fez.

Com Arte, sem violência.