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Política e futebol

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Publicado em 8 de janeiro de 2024 às 05:00

No Brasil, geralmente, aos seis ou sete anos de idade, a maioria dos meninos escolhe um time de futebol para chamar de seu. Se o guri for um verdadeiro apreciador do esporte bretão, esta escolha o acompanhará até os seus últimos dias ou, pelo menos, enquanto não lhe faltar discernimento. A preferência quase sempre é determinada pela família, mas amigos, padrinhos, primos ou outros parentes podem influenciar na escolha. Uma vez que o time é definido, o novo torcedor passa a desenvolver um sentimento de pertencimento a um grupo formado por aqueles que desenvolveram e desenvolverão a mesma preferência por um time de futebol. Ao contrário das paixões amorosas, a clubística é fiel. Não importa que o seu clube o trate mal, não lhe corresponda à devoção ou mesmo o traia. A paixão só aumenta.

Na política, historicamente as relações se desenvolviam em outras bases. Sempre houve aqueles que se posicionaram politicamente, a partir de valores mais compatíveis com programas de esquerda ou de direita, representando as diferentes visões pessoais da origem, do significado e da tolerância à desigualdade. No entanto, uma maioria expressiva utilizava como parâmetro decisório a sua situação momentânea e a perspectiva de como cada possível ganhador do pleito eleitoral iria impactá-la. Escolhia com base em como achava que cada candidato governamental olharia para a educação, a saúde, a segurança pública e, sobretudo, a economia do país, atribuindo pesos a cada componente segundo o seu juízo relativo de valor. Essa situação mudou.

A massificação das redes sociais aproximou um conjunto de pessoas que pouco se expressava politicamente, pelo acesso restrito, voluntário ou por dificuldades específicas, das informações relacionadas à arena política. Diferentemente da situação experienciada até 20 anos atrás, conhecimentos de economia, gestão pública, soberania, filosofia e até da política em si tornaram-se dispensáveis. Números, indicadores, história, reflexões sobre e interpretações dos fatos perderam lugar para uma espécie renovada de alquimia capaz de transformar má informação em verdade desejada.

No futebol, uma vez que o torcedor é acometido de amor incondicional ao seu clube, os torcedores dos clubes adversários ganham status de inimigo. Não importa a motivação sua e dos outros para as preferências clubísticas. Importa sim, que o futebol não lhes traga alegria. Não é à toa que muitas vezes um rebaixamento de um time adversário pode superar a alegria de um título conquistado pelo próprio time. A felicidade do adversário é a sua infelicidade.

Essa atmosfera e modo de pensar, assustadoramente, migraram para a política. Em muitas situações não importa de que maneira os interesses do eleitor são afetados pelas suas escolhas políticas ou o seu nível de concordância com declarações de seu candidato. A motivação maior para a sua votação é a derrota do outro. Nada lhe incomoda mais que a vitória daqueles que fazem parte do adversário. Não é à toa que o maior combustível para as manifestações políticas nacionais contemporâneas seja o ódio. Informações desconexas, absurdas e sem procedências são ingermináveis sem o adubo do ódio. Os Think Tanks americanos sabiam disso quando constataram e expuseram a impossibilidade de sobrevivência neoliberal em ambientes democráticos. Riem satisfeitos das suas artimanhas. Talvez tanto quanto os dirigentes de futebol a bordo de suas lanchas movidas com o diesel da nossa paixão clubística.