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Como (e por que) consegui que meu filho nascesse em Salvador

Entre nós e minha terra, havia a necessidade de um atestado médico falso ou apenas parcialmente mentiroso

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 4 de abril de 2026 às 13:00

Lá perto das 42 semanas, precisamos cortar a barriga e meu filho nasceu
Lá perto das 42 semanas, precisamos cortar a barriga e meu filho nasceu Crédito: ACERVO PESSOAL

Nascer em Salvador não é apenas uma inveja gostosa de botar nos outros. Soteropolitana conhecedora e orgulhosa do peso desse crachá, sempre soube de muitos motivos pelos quais o certo seria gente que brotasse de mim ter igual privilégio. Acontece que o mundo dá voltas e calhou de eu estar grávida muito longe da Cidade da Bahia. Ainda era Brasil, porém lá em cima, onde também há maravilhas, mas não tão minhas.

Em 2011, com o menino na barriga, eu morava há alguns anos em Porto Velho (RO), naquela casa confortável, com dois cachorros incríveis e jardim. Tinha também marido (carioca, no caso) e a lógica mostrava que seria mil vezes mais simples deixar nascer um portovelhense, um “beiradeiro do Madeira”, como eles dizem e eu acho lindo. De dentro de mim, Leo já estava, há meses, se nutrindo dos mais deliciosos peixes de rio (principalmente o dourado de Cacilda), tomando banhos de igarapé e morando ao lado da floresta mais importante do planeta.

Tínhamos amigos, havia cachoeiras e o Porto Velho Shopping com aquele café gelado que nos acompanhou por quase a gravidez inteira. Tinha ioga com uma professora excelente e também música pra dançar na beira do rio. O quarto dele já estava prontinho, era tudo perfeito. Mas, apesar de gostar daquela cidade e daquela vida, eu não conseguia achar normal que meu filho não nascesse em Salvador. Tanto que, fora o Dr. Itamar (o rapaz que fazia ultrassonografias), não consigo me lembrar de nenhum obstetra, dono de qualquer um daqueles muitos consultórios de onde entrei e saí apressadíssima. Não seria com nenhum deles, nem ali, que ele nasceria.

Pra ser sincera, nem pré-natal direito eu fiz. Apenas ia mapeando com uma obstetra baiana e muito querida quais exames laboratoriais e ultrassonografias deveria realizar a cada mês. Daí dava um jeito de fazer e dizia o resultado pra ela, por telefone. De longe, minha parceira involuntária de aventura só faltava morrer de nervoso, repetindo: “eu não estou fazendo seu pré-natal, isso está errado, é perigoso”. Sim, a responsabilidade era toda minha e não dela, que ficou ainda mais tensa quando soube que “na hora certa” eu chegaria a Salvador pra parir. Com ela, claro. E assim fiz.

1. Fortalece o sistema imunológico do bebê, ajudando a protegê-lo contra infecções respiratórias, diarreias e outras doenças comuns na infância. por Shutterstock

Programei de passar as últimas poucas semanas de filho na barriga com um mergulho por dia nas águas de Kirimurê. Também comendo lambreta, me lambuzando de dendê e, com sorte, sambando até o menino escorregar que nem quiabo pra fora de mim. De longe, aluguei um flat na Princesa Isabel, ali na Barra. Marquei a passagem para perto da data provável do parto e, pra mim, estava tudo perfeito. Só depois descobri que não deixam a grávida voar a partir de determinada semana e eu já estava fora do prazo permitido. Há algum tempo, diga-se. Porém, nem pensar em desistir.

Entre mim e Salvador, havia a necessidade de um atestado médico falso. Ou apenas parcialmente mentiroso. Dizer que eu estava duas semaninhas menos grávida já resolveria. Não foi tão difícil assim e, na data do vôo, estava eu lá com uma barriga descomunal, fazendo xixi a cada cinco minutos e prontíssima para o trajeto Porto Velho X Brasília X Salvador, que só quem já viveu sabe o que significa. Cheguei em minha terra e descobri o motivo da tal proibição. Pense no Fofão. Meu rosto estava igual ao dele. Não recomendo descumprir a regra. Porém, nunca me arrependi.

As semanas seguintes foram exatamente como sonhei. Teve família, amigos, banho de mar, lambreta, acarajé e até o samba - lá na varanda do SESI - pro menino escorregar. Também teve a minha obstetra dos sonhos, agora podendo, finalmente, examinar a paciente de forma presencial. Só de castigo (eu acho), a doutora me proibiu de comer sal e passou a exigir que eu fosse toda semana ao consultório pra ela espiar se estava tudo bem. Estava, claro. Eu sabia e agora ela também.

O tempo foi passando tão bom e nada de parto acontecer. Lá perto das 42 semanas, precisamos cortar a barriga e meu filho nasceu. Lindo e maravilhoso, no início da tarde do domingo de maio mais bonito que já se viu. Soteropolitano. Exatamente como deveria ser. Pra completar a magia, exatamente na mesma data em que o biso (meu avô), um homem especialíssimo, também nasceu.

Com Leo nos braços, cercada por minha família cheia de “oxentes” e alguns “lá ele”, entendi ainda melhor o meu próprio gesto. Não era apenas apego ao lugar onde eu nasci, mas também garantir que o primeiro contato do meu filho com o mundo fosse nessa cidade que eu amo e que custa a caber em definições. Eu quis que o ponto de partida dele fosse esse lugar de onde se pode sair para ser qualquer coisa, em qualquer lugar do planeta. No fim das contas, aquela certidão de nascimento dele é um dos meus troféus de teimosia nessa vida. Nela, meu soteropolitanozinho carrega o nome da cidade dele como um amuleto e também como um bilhete da mãe onde ele sempre saberá que é “eu te abençoo” o que está escrito. Daqui, sigo orgulhosa e convicta de que toda aquela conspiração valeu. Afinal, para quem quer dar o mundo a um filho, começar por Salvador é uma estratégia sem defeitos.

Flavia Azevedo é articulista do Correio, editora e mãe de Leo

Por @flaviaazevedoalmeida