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Gabriela Cruz
Publicado em 4 de abril de 2026 às 09:03
Existe um tipo de transformação que não se anuncia. Ela não chega como ruptura nem como decisão definitiva, mas se instala aos poucos, no meio da rotina, entre a louça acumulada, a roupa por lavar e o impulso quase automático de entender o que está acontecendo no mundo.>
A vida adulta parece exigir essa convivência entre escalas. De um lado, tudo é grande demais, fora de alcance; de outro, o cotidiano insiste em demandar presença, organização e continuidade. Talvez seja nesse intervalo que a transformação de fato acontece, não como resposta ao mundo, mas como rearranjo possível dentro dele.>
É nesse território mais silencioso que a marca baiana Treeo se posiciona. Criada pela designer Cláudia Duarte, a proposta das joias autorais parte de uma valorização do feito à mão que não é apenas estética, mas de tempo. Um tempo mais lento e mais atento, que contrasta com a velocidade de tudo o que nos atravessa.>
A própria ideia de Treeo, uma releitura da Árvore da Vida, sugere trajetórias que não seguem linha reta. Crescem, interrompem, desviam e eventualmente retomam. Esse pensamento se estende à embalagem, desenvolvida em parceria com Luciana Galeão, cuja pesquisa em upcycling transforma o que seria descartável em permanência. A transformação, aqui, não aparece como ruptura, mas como continuidade, uma reconfiguração do que já existe.>
Legenda: Marca baiana Treeo>
Divulgação>
Essa mesma lógica reaparece, em outra escala, na Bienal do Livro Bahia 2026, que acontece no Centro de Convenções Salvador. Ao reunir autores de diversas linhas, o evento cria um espaço onde histórias circulam, se encontram e se transformam.>
Ler e escrever são, no fundo, formas de reorganizar a experiência. Não alteram os fatos, mas mudam a maneira como eles são compreendidos. Transformar, nesse caso, passa por nomear, interpretar e dar linguagem ao que antes era apenas disperso. É uma mudança menos visível, mas profundamente estrutural.>
Legenda: A baiana Stefanie Cabanelas terá um estande no evento >
Divulgação>
Se a literatura reorganiza o sentido, o teatro se aproxima de outro tipo de elaboração. A nova montagem de As Centenárias, de Newton Moreno, com Juliana Linhares e a baiana Laila Garin, direção de Luiz Carlos Vasconcelos e trilha de Chico César, desloca o olhar para aquilo que termina. >
Ao acompanhar duas mulheres que percorrem o sertão realizando rituais de despedida, a peça trata o fim não como interrupção, mas como processo. Há uma dimensão de organização no luto, uma tentativa de dar forma ao que se perde. Encerrar, nesse contexto, não é desaparecer, mas transformar a ausência em algo que ainda pode ser carregado. Em cartaz no Rio de Janeiro.>
Legenda: A baiana Laila Garin >
Credito Zecky Barreto>
Enquanto algumas dessas mudanças acontecem no campo simbólico, outras se dão de maneira mais direta, quase sem mediação. O Comida di Buteco 2026 espalha pela cidade um circuito que atravessa bairros diversos, conectando mesas, receitas e pessoas. >
Entre estreantes e veteranos, os 63 locais reinventam pratos a partir de um mesmo tema, sem abandonar o que os define. Ingredientes conhecidos reaparecem em novas combinações, como se a tradição fosse constantemente reorganizada sem deixar de ser reconhecível. A transformação, aqui, não é pensada, é vivida. Acontece na circulação, no encontro e no uso da cidade. Confira e vá: https://comidadibuteco.com.br/butecos/salvador/.>
Legenda: Um dos pratos do Comida di Buteco>
Crédito: João Botelho>
No fim, tudo parece apontar para a mesma direção. A transformação que se sustenta não é a que rompe com tudo, mas a que reorganiza. A que entende o que já não serve, o que ainda pode permanecer e o que precisa ganhar outra forma.>
Entre o que acaba e o que floresce, existe menos um momento de virada e mais um trabalho contínuo de ajuste. E talvez seja isso que torna possível atravessar o mundo, mesmo quando ele parece grande demais, sem se perder completamente nele.>