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Publicado em 8 de abril de 2026 às 05:00
No Dia Internacional do Lixo Zero, celebrado no último dia 30 de março - data que nos convida a refletir sobre consumo, produção sustentável e redução de resíduos -, me peguei pensando em algo que nunca tinha enxergado com tanta clareza: o lixo de alguém pode ser o ouro de outra pessoa. Foi assim que aconteceu comigo. >
Minha história como catadora começou por necessidade, mas se tornou propósito. Comecei a trabalhar aos 14 anos, dando aulas de reforço escolar, sendo babá e promotora de cartões em um banco. Cheguei aos 21 anos sem perspectivas e em busca de uma renda que me desse estabilidade.>
A catação já fazia parte da minha vida desde os 19 anos, quando recolhia latinhas nos circuitos do Carnaval de Salvador. Mas, foi só dois anos depois, quando entrei para a Cooperativa de Coleta Seletiva, Processamento de Plástico e Proteção Ambiental (Camapet), que as coisas começaram a mudar.>
Em 2007, iniciei no processo de triagem, aprendendo a identificar papelão, tipos de plásticos e metais. Aos poucos fui dominando o trabalho e novas oportunidades surgiram: passei pela prensa e, mais tarde, pela área administrativa. Em 2015 fui eleita presidente da Camapet, cargo que ocupei até 2023. Hoje, estou como vice-presidente, com orgulho cada vez maior da cooperativa que me abriu portas que eu sequer imaginava.>
Ainda como presidente, firmamos parceria com a Braskem, por meio do Programa Ser+, que foi um divisor de águas. Com as benfeitorias realizadas dobramos nossa produção, saindo de 539 toneladas em 2023 para 1.215 toneladas em 2025. Com esse aumento produtivo de 125%, conseguimos ampliar nossa renda média anual em 23%, melhorando a qualidade de vida das nossas famílias. Para se ter uma ideia da importância desta parceria, no ano passado com apoio do Ser+ foi possível pagar a Taxa de Licenciamento Ambiental, além de comprar equipamentos como: carrinhos de bag, mesa e esteira de triagem e ainda oferecer treinamento em saúde e segurança do trabalho aos nossos cooperados.>
Foi com o trabalho na cooperativa que construí minha casa e sigo realizando novos sonhos, como obter minha habilitação e meu carro até 2027. É também com esta renda que sustento meus dois filhos e meu enteado, que já cresceram conscientes de que o resíduo tem valor e não deve ser descartado de qualquer forma.>
Não foi fácil. No início, enfrentei resistência dentro de casa. Meu pai não aceitava que eu saísse às 5h da manhã para trabalhar com lixo. Tivemos muitos conflitos, mas com o tempo ele viu minha evolução. Hoje, é ele quem separa garrafas e latinhas para os catadores.>
Aos 39 anos, tenho certeza: o resíduo transformou minha vida. Mais do que renda, me deu dignidade, perspectiva e um futuro que antes parecia distante. Aprendi, na prática, que aquilo que muitos descartam pode ser, para outros, o começo de um futuro melhor.>
Michele Almeida da Silva, vice-presidente da Camapet>